Nova funcionalidade de IA do Gmail gera preocupações com a privacidade: especialistas deixam alerta e conselhos

A mais recente funcionalidade de inteligência artificial do Gmail está a suscitar preocupações entre especialistas em privacidade e cibersegurança, que alertam para os riscos associados ao acesso da tecnologia ao conteúdo das mensagens de correio eletrónico.

Pedro Zagacho Gonçalves

A mais recente funcionalidade de inteligência artificial do Gmail está a suscitar preocupações entre especialistas em privacidade e cibersegurança, que alertam para os riscos associados ao acesso da tecnologia ao conteúdo das mensagens de correio eletrónico. A nova ferramenta, denominada “AI inbox”, é alimentada pelo modelo Gemini, da Google, e foi lançada este ano, estando atualmente disponível em versão beta para um número mais alargado de utilizadores com planos Google AI. Para já, a funcionalidade apenas pode ser utilizada nos Estados Unidos e em inglês.

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A ferramenta surge como uma nova secção abaixo da caixa de entrada tradicional do Gmail e analisa automaticamente os emails presentes na caixa principal para gerar resumos, destacar compromissos futuros e sugerir tarefas prioritárias relacionadas com a vida pessoal ou profissional. Embora não apresente anexos, pode assinalar datas-limite para pagamento de faturas, reservas em restaurantes, entregas de encomendas ou outros compromissos identificados nas mensagens. Depois de concluídas, as tarefas podem ser marcadas como finalizadas ou removidas caso não sejam relevantes.

Apesar das vantagens ao nível da organização da caixa de correio eletrónico, especialistas alertam que esta comodidade tem um custo em termos de privacidade. Harlo Holmes, diretora de programas de segurança da Freedom of the Press Foundation, afirmou que, apesar de reconhecer utilidade à ferramenta para recordar compromissos, não a utilizaria para tratar correspondência sensível. “Pessoalmente, não me entusiasma que a correspondência com os meus médicos esteja não só na minha caixa de correio da Google, como também a ser processada por inteligência artificial”, afirmou.

Também Thorin Klosowski, ativista de privacidade e segurança da Electronic Frontier Foundation, considera que esta funcionalidade evidencia a enorme quantidade de informação a que a Google já tem acesso. “Funcionalidades como esta lembram-nos que o email nunca foi propriamente um meio muito privado. A introdução contínua de ferramentas de IA no Gmail mostra até que ponto a Google conhece a vida das pessoas”, alertou.

Os especialistas sublinham ainda que os utilizadores não devem aceitar automaticamente as prioridades ou resumos gerados pela inteligência artificial sem confirmar previamente a informação. Recomenda-se especial atenção a mensagens urgentes ou inesperadas, uma vez que cibercriminosos podem explorar técnicas conhecidas como “indirect prompt injection”, através das quais enviam emails concebidos para manipular sistemas de inteligência artificial.

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Segundo Harlo Holmes, um atacante poderá criar uma mensagem destinada não apenas ao utilizador, mas também à própria IA, levando-a, por exemplo, a interpretar uma mensagem maliciosa como legítima e a recomendar que o utilizador clique numa ligação perigosa. “Embora estes casos ainda sejam relativamente raros, há muitos criminosos interessados em testar os limites destes modelos de inteligência artificial, incluindo o Gemini, para perceber até onde conseguem chegar”, explicou.

A Google reconheceu publicamente este tipo de ameaça. Num artigo publicado em abril sobre segurança, a empresa garantiu que tem vindo a testar intensivamente os seus sistemas para reforçar a resistência do Gemini contra tentativas de manipulação através de instruções ocultas inseridas em emails.

Quem preferir não utilizar esta funcionalidade pode desativá-la, embora isso implique abdicar de várias funções inteligentes dos serviços da Google. Para o fazer, basta aceder às definições do Gmail, selecionar o separador “Geral” e desativar a opção “Funcionalidades inteligentes”, que autoriza o Gmail, Chat e Meet a utilizarem o conteúdo e a atividade do utilizador para disponibilizar funcionalidades inteligentes e personalizar a experiência. Ao fazê-lo, deixam igualmente de estar disponíveis os resumos automáticos de emails e outras funcionalidades de inteligência artificial no Drive, Calendar, Docs, Sheets, Slides e Meet.

Ainda assim, vários especialistas defendem que a melhor proteção para comunicações realmente sensíveis passa por recorrer a plataformas concebidas especificamente para garantir a confidencialidade das mensagens. Entre as alternativas apontadas estão serviços com encriptação de ponta a ponta, como o Signal, ou plataformas de correio eletrónico orientadas para a privacidade, como o Proton Mail.

“Enquanto tecnologia, o email continua a ser um sistema difícil de tornar verdadeiramente privado. Sempre que possível, as pessoas deveriam recorrer a aplicações de mensagens seguras para as conversas mais sensíveis”, recomendou Thorin Klosowski.

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