A inteligência artificial (IA) continua longe de estar integrada no dia a dia da maioria das empresas portuguesas, apesar do elevado otimismo em torno do seu potencial. Um white paper da Nova SBE, intitulado “Estado da Inteligência Artificial em Portugal 2025”, conclui que cerca de 72% dos profissionais utilizam ferramentas de IA menos de três horas por semana, enquanto quase um terço admite recorrer-lhes muito raramente. O estudo, assinado por Miguel Bello e baseado em 1.683 respostas de profissionais, maioritariamente de grandes empresas, conclui que menos de uma em cada dez organizações (cerca de 8%) utiliza a tecnologia com intensidade suficiente para gerar ganhos efetivos de produtividade, embora mais de 98% dos inquiridos antecipem benefícios na eficiência e no desempenho das suas funções.
Segundo a análise, citada pelo Negócios a principal barreira não é tecnológica, mas sim organizacional e formativa. Quase 80% dos profissionais apontam a falta de formação e de conhecimento técnico como o maior obstáculo à adoção da IA, acima da falta de tempo ou de apoio das empresas. A isso junta-se a ausência de regras internas: 65% das organizações não possuem qualquer política oficial para a utilização da inteligência artificial, enquanto apenas 15%, sobretudo multinacionais e empresas de setores regulados, dispõem de orientações claras. O estudo revela ainda que apenas 15% dos inquiridos afirmam compreender bem os riscos da IA, como alucinações ou enviesamentos dos modelos, e mais de 80% não aplica procedimentos para mitigar esses problemas.
A Nova SBE identifica quatro níveis de maturidade na utilização da IA. Quase 60% dos profissionais permanecem no nível “curioso”, utilizando estas ferramentas menos de uma hora por semana e sem integração nas tarefas diárias, enquanto 31% atingem o nível “explorador”, recorrendo ocasionalmente à IA para tarefas simples, como a produção de textos. Os ganhos de eficiência tornam-se visíveis apenas no nível “tático”, que implica uma utilização entre quatro e sete horas semanais, sendo que apenas 2% dos profissionais alcançam o nível “multiplicador”, caracterizado pela utilização intensiva de várias ferramentas e pela capacidade de disseminar conhecimento dentro das organizações.
Apesar do atraso atual, o estudo traça um cenário otimista para os próximos anos. A Nova SBE estima que, até 2030, cerca de 75% das empresas portuguesas utilizem diariamente inteligência artificial em pelo menos uma função-chave, enquanto um em cada três trabalhadores recorrerá à tecnologia todos os dias. A análise antecipa uma transformação do mercado de trabalho, com 69% dos executivos a acreditarem que as suas funções irão evoluir com a IA, mas apenas 21% receiam perder o emprego devido à automação. Segundo as projeções, mais de metade dos trabalhadores deverá passar por processos de requalificação digital e entre 5% e 10% dos novos empregos criados até 2030 estarão diretamente ligados ao desenvolvimento, gestão ou manutenção de sistemas de inteligência artificial, podendo esta adoção contribuir para um aumento adicional de 8% a 10% do PIB português através de ganhos de produtividade, redução de custos e criação de novos negócios.














