A 27 de maio de 2015, uma operação das autoridades suíças, a pedido do FBI, abalou o futebol mundial. Dirigentes de topo foram detidos num hotel de luxo em Zurique e, poucos meses depois, o então presidente da FIFA, Sepp Blatter, acabaria por deixar o cargo após 17 anos à frente do organismo. Mais de uma década depois, Blatter reaparece agora como um crítico feroz do seu sucessor, Gianni Infantino.
Numa entrevista à ‘Axel Springer Global Reporters Network’, da qual o ‘POLITICO’ faz parte, o antigo dirigente suíço, hoje com 89 anos e suspenso pela FIFA, acusa Infantino de governar a organização como uma “ditadura” e de manter uma relação “submissa” com o presidente americano, Donald Trump, numa altura em que os Estados Unidos se preparam para receber o Mundial de 2026, em conjunto com Canadá e México.
“Ele governa como um Rei Sol”, afirma Blatter, citado pelo ‘POLITICO’, descrevendo um líder isolado dentro da própria organização. “A FIFA é uma ditadura. O Conselho não tem voz.”
Relação com Trump gera polémica
A crítica mais dura centra-se na proximidade entre Infantino e Trump. Segundo o POLITICO, o presidente da FIFA participou recentemente numa reunião do Conselho da Paz promovido por Trump e atribuiu-lhe um prémio especial da FIFA, o que gerou acusações de violação das regras de neutralidade política da organização.
Blatter não poupa palavras: considera “incompreensível” a distinção atribuída a Trump e acusa Infantino de procurar o favor do presidente americano e da Arábia Saudita. “A FIFA depende do dinheiro saudita”, afirma, referindo o financiamento do Mundial de Clubes e a atribuição do Mundial de 2034 ao reino.
Questionado sobre a possibilidade de Infantino influenciar Trump de forma discreta, Blatter é taxativo: não viu qualquer sinal de que o líder da FIFA tenha travado decisões polémicas da Casa Branca.
Boicotes, vistos e segurança
O Mundial de 2026 surge como pano de fundo de várias tensões políticas. O ‘POLITICO’ destaca que Trump impôs restrições de viagem que afetam cidadãos de dezenas de países, incluindo alguns apurados para o torneio. Blatter recorda que existe um contrato entre a FIFA e os países anfitriões que obriga à emissão de vistos a atletas, dirigentes, árbitros e adeptos das seleções qualificadas.
“Infantino precisa deixar isso claro a Trump e insistir no cumprimento do contrato”, defende.
O antigo dirigente manifesta ainda preocupação com a segurança e a instabilidade política nos EUA, defendendo que o torneio deve ser analisado “criticamente”. Ainda assim, rejeita a ideia de boicote: “Os jogadores querem participar. Se as federações decidissem não ir, haveria revolta.”
Rússia, LGBTQ+ e interferência política
A entrevista aborda também a eventual readmissão da Rússia nas competições internacionais. Blatter defende a separação entre política e futebol, argumentando que excluir todos os países envolvidos em conflitos tornaria inviável o sistema desportivo internacional.
Sobre controvérsias relacionadas com jogos associados a iniciativas LGBTQ+ e ameaças de retirada de cidades anfitriãs por parte de Trump, o antigo presidente insiste que o calendário e a organização do Mundial devem ser respeitados, sem interferências políticas.
Receitas recorde e críticas internas
O Mundial de 2026 deverá gerar receitas na ordem dos 3 mil milhões de dólares — cerca de 2,76 mil milhões de euros — representando um aumento de cerca de 200% face ao torneio de 2022, segundo dados citados pelo ‘POLITICO’.
Blatter questiona se esta continua a ser a FIFA que dizia trabalhar “pelo bem do futebol”. Sustenta que a organização perdeu pluralismo interno e que o seu único contacto atual com a instituição é através de advogados, no âmbito de disputas judiciais relacionadas com a sua saída.
O antigo dirigente afirma que nunca foi destituído formalmente e que colocou o cargo à disposição em 2015. O seu objetivo final é uma despedida honrosa num Congresso da FIFA, para encerrar simbolicamente a sua era à frente do organismo.














