‘Ouro branco’ perde o brilho: como caímos (e cairemos novamente) na armadilha do lítio

Este aumento vertiginoso dos preços do lítio, que desencadeou uma febre global para expandir a produção, encontrou um declínio não menos espetacular

Francisco Laranjeira

No início desta década, a China ‘fechou-se’ com algumas das medidas mais restritivas do mundo contra a pandemia da Covid-19, o que teve naturais reflexos na sua economia: em contraciclo, o valor do carbonato de lítio chinês, o principal componente para o fabrico de baterias de íons utilizadas nos veículos elétricos, aumentou 15 vezes. Esta foi a época dourada do lítio, um metal cuja valorização estava em declínio desde o fim da Guerra Fria – onde era utilizado sobretudo para o desenvolvimento de armas de fusão nuclear – mas que voltou a fazer jus ao nome conquistado há décadas: o de ouro branco.

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Este aumento vertiginoso dos preços do lítio, que desencadeou uma febre global para expandir a produção, encontrou um declínio não menos espetacular. Desde o seu pico, no final de 2022, o metal passou de mais de 80 mil dólares por tonelada para ser vendido por menos de 14 mil dólares durante este mês de fevereiro, o que implicou uma perda de mais de 80% do seu valor, indicou o ‘Financial Times’.

O que se passou?

Uma armadilha armada por uma combinação de fatores especulativos e pela sobrestimação da procura futura e na qual ficaram presos os mineiros, os produtores de baterias e os fabricantes de veículos elétricos.

Um princípio comum no mundo da economia é que o melhor remédio para os preços elevados são os preços elevados. O caso do colapso do valor do lítio parece, à primeira vista, um exemplo clássico desta regra. Impulsionadas pelo boom de 2021 e 2022, as empresas de extração de metal aumentaram a sua produção para níveis recordes, passando de um déficit de oferta para um superávit em 2023. Após dois anos de suposta escassez, empresas de todo o mundo, de repente, foram inundadas com lítio.

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Como se isso não bastasse, a procura somou-se à ‘pólvora’ do excesso de oferta. A China, maior mercado global de veículos elétricos, surpreendeu o mundo com um crescimento de 89% nas vendas destes produtos, desencadeando expectativas exorbitantes. No entanto, este número foi seguido por muito mais modestos 31% em 2023. Os Estados Unidos e a Europa registaram números semelhantes, dececionando investidores e fabricantes. “O crescimento dos veículos elétricos continua a ser muito bom, mas os fabricantes de baterias anteciparam um crescimento ainda mais forte”, explicou Jeff Amrish Ritoe, diretor geral da empresa de análise ‘Number Three BV’, em entrevista ao jornal espanhol ‘El Confidencial’.

A alternância de períodos de expansão e recessão faz parte do ADN dos mercados de matérias-primas. Porém, a agressividade da ascensão e queda no caso do lítio representa uma dinâmica preocupante para uma transição energética na qual o metal deve desempenhar um papel fundamental.

Desde o momento em que os preços iniciaram a sua fase ascendente, os fabricantes de baterias lançaram uma onda frenética de compras de lítio, temendo que os custos subissem ainda mais. Uma lógica especulativa que funcionou como uma profecia autorrealizável, acelerando ainda mais as escaladas. Este círculo vicioso, somado às expectativas de um ‘boom’ sem precedentes nas vendas de veículos elétricos, contribuiu para criar uma bolha de preços insustentável em tempo recorde.

A bolha desencadeou pânico: muitos dos fabricantes de veículos elétricos do planeta, incluindo a Tesla, apressaram-se a investir em projetos de extração e a assegurar o máximo de inventário possível: neste frenesim, as empresas produtoras de lítio, não conseguindo dar resposta a todas as encomendas, acabaram por recorrer a leilões, o que fez, por sua vez, aumentar ainda mais os preços.

A correção foi inevitável. Mas, para além da volatilidade explosiva, a turbulência em torno do lítio revelou um preocupante problema de transparência por parte da China, o ator hegemónico neste mercado. Quando o valor do metal atingiu o seu máximo, o Governo chinês convocou os principais intervenientes na cadeia de abastecimento e ordenou-lhes que normalizassem os preços para evitar pôr em perigo as indústrias de produção de baterias e de veículos elétricos. “As medidas do Governo chinês são uma caixa preta sobre a qual não sabemos muito”, garantiu Ritoe.

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A China produz 14,6% do lítio global, mas mais de 80% das baterias de íon-lítio. Este controlo do mercado não é apenas uma prova das capacidades superiores de produção e processamento do país, mas também do seu domínio na cadeia de abastecimento global.

A queda dos preços levou à paralisação de grande parte dos projetos de expansão mineira previstos durante os dois anos dourados da matéria-prima. Uma decisão que pode fazer sentido no curto prazo, mas que corre o risco desencadear um novo cenário de aumento de preços no final desta década. “Existe um risco claro de acabar numa crise semelhante porque muitos projetos de expansão da produção de lítio foram suspensos. Mais importante ainda, o atual ambiente macroeconómico de preços baixos do lítio e de inflação elevada pressiona a viabilidade económica dos projetos e das suas expansões. Isto torna mais difícil para os promotores financiarem os seus projetos, o que por sua vez põe em risco o futuro fornecimento de lítio ao mercado”, explicou Ritoe.

O lítio não é difícil de encontrar. É o 33º elemento mais abundante na natureza e existem depósitos em grande parte do planeta. O problema está na viabilidade de sua extração e processamento. A inflação e o aumento dos custos de capital aumentaram o limiar de preços necessário para justificar novos investimentos na produção, numa altura em que o valor do metal entrou em colapso.

Sem estes projetos, a história estará destinada a repetir-se se a procura por veículos elétricos subir novamente acima das novas – e reduzidas – expectativas. Em comparação com a velocidade vertiginosa do mercado de metais, onde os preços se multiplicam ou se dividem numa questão de semanas, as mudanças na produção ocorrem em câmara lenta.

O dilema vai além do meramente económico e tem uma dimensão estratégica importante para o Ocidente. Embora a maioria dos projetos de expansão de empresas ocidentais tenham sido suspensos, a grande maioria das empresas chinesas está a avançar com os seus planos de desenvolvimento de lítio, independentemente da fraqueza do mercado. O resultado: um novo aumento na quota de mercado de Pequim.

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Nem tudo é cinza no presente do ouro branco. Os preços atuais podem ajudar a Europa e os Estados Unidos a armazenar o metal e, além disso, a desenvolver as suas próprias cadeias de abastecimento e indústrias para a produção de baterias. Se esta oportunidade de mitigar os riscos geopolíticos associados à dependência de Pequim for desperdiçada, alertou Jeff Amish Ritoe, o preço a pagar irá muito além do valor do metal. “Hoje não existe uma alternativa real ao mercado chinês de lítio. E, enquanto isso não mudar, continuaremos expostos ao que a China determinar”, concluiu.

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