Esta segunda-feira, o Channel 4 da “BBC” vai transmitir uma reportagem, intitulada «Starbucks & Nespresso: The Truth About Your Coffee» («Starbucks e Nespresso: a verdade sobre o café que bebe», em português), que alegadamente prova a exploração de trabalho infantil na apanha de café na Guatemala. A Nespresso e a Starbucks estão entre as visadas, mas já anunciaram investigações próprias, garantindo nada saber sobre o caso.
A equipa de reportagem fez-se passar por investigadores que queriam saber de onde vinha o café consumido pelos britânicos. Ao longo da investigação, a Dispatches visitou sete plantações ligadas à Nespresso e cinco ligadas à Starbucks, onde foram encontradas crianças. A Organização Internacional do Trabalho proíbe, no entanto, o trabalho para menores de 14 anos.
O repórter Antony Barnett, do programa “Dispatches”, no meio da plantação, relata: «A caminhada até aqui é difícil, muito inclinada, e eles têm de fazer o caminho inverso carregados com as sacas de café, o que deve dar-lhes cabo das costas. O miúdo com quem estive a falar tem 12 e faz isto desde os 11. Começam a trabalhar às 7 e acabam às 15. São seis a sete horas de trabalho». O valor pago por hora será de 31 pence esterlinos, o equivalente a cerca de 36 cêntimos.
O repórter estima que das duas libras e cinquenta (2,88 euros) que os britânicos gastam numa chávena de café, esta recebe 88 pence, os empregados 63 e 38 vão para impostos. A companhia que fornece o café, como a Starbucks, cujo total de dividendos anuais é de mais de 20 mil milhões de libras, fica com 25 pence. Após todos os outros custos serem deduzidos, os fornecedores de café ficam com 10 pence de cada chávena, dos quais um pence vai para o agricultor, que usa parte desse bolo para pagar a quem faz a apanha.
Um responsável de um dos moinhos de café adiantou que a Nespresso faz visitas anualmente e a Starbucks apenas de dois em dois ou quatro em quatro anos. As plantações, de acordo com o Dispatches, sabem sempre das visitas com antecedência. «As marcas não fazem nenhum controlo sério sobre o café que compram. (…) Se quisessem mesmo certificar-se do que estão a comprar fariam mais visitas e de surpresa. Entrevistariam os trabalhadores e falariam com os sindicatos», acusa a advogada Lésbia Amezquita, do Movimento Sindical, Indígena e Camponês Guatemalteco (MSICG), entrevistada na reportagem.
Em reacção, a Nestlé/Nespresso emitiu um comunicado, assim como um vídeo no qual o CEO da marca, Guillaume le Cunff, considera o trabalho infantil «inaceitável». Cunff assegurou também que foram enviadas equipas para a Guatemala «para investigar o que se passa» e que suspendeu «de imediato» as compras «enquanto não se conhecem os resultados», acrescentando que adquire, desde 2025, café a 374 plantações na zona guatemalteca em que a reportagem teve lugar – Fraijanes – e que há ao todo 616 plantações na zona.
A Starbucks também contrapõe as acusações. A marca anunciou também que lançou uma investigação para a qual contratou um auditor independente. A companhia tinha anunciado em 2005 um protocolo com a Organização Não Governamental Save the Children, no qual se comprometeu a gastar um milhão e meio de dólares em quatro anos num programa destinado a dar educação bilingue às crianças de zonas de café na Guatemala, nas quais a maioria dos habitantes são indígenas maia.
O actor, realizador e activista pelos direitos humanos George Clooney, a «cara» da Nespresso, também já reagiu. Clooney mostrou-se «surpreendido e triste» com a suposta descoberta de trabalho infantil em plantações da gigante de café Nespresso, marca que o actor representa há muito tempo, como embaixador, segundo o “The Guardian”.













