iServices: A reparação como motor de uma economia mais circular

A reparação e o recondicionamento afirmam-se como ferramentas úteis para prolongar a vida útil da tecnologia e reduzir o impacto ambiental

Executive Digest

Numa Europa que aperta o cerco regulatório à obsolescência precoce e onde apenas 6,9% dos materiais usados pela economia global regressam ao ciclo produtivo, segundo o Circularity Gap Report 2025, a forma como lidamos com os equipamentos tecnológicos deixou de ser um detalhe operacional para se tornar uma questão de sustentabilidade com números próprios. A iServices fechou 2025 com indicadores que ilustram essa mudança: mais de 1 milhão de clientes, mais de 360 mil equipamentos com a vida útil prolongada e um conjunto de métricas ambientais que a empresa começa a tratar com o rigor de um exercício de reporte ESG.

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Para Bruno Borges, CEO da iServices, a equação é simples de enunciar e exigente de cumprir: «A circularidade, para nós, é execução, escala e qualidade. Reparamos e recondicionamos porque é isso que o cliente procura e porque faz sentido económico e ambiental. O nosso trabalho mede-se em equipamentos com vida prolongada, em recursos poupados e em transparência sobre os resultados.»

Da operação aos números da pegada carbónica

Os dados de 2025 confirmam a trajectória de crescimento do negócio de reparação. A empresa registou mais de 215 mil serviços técnicos, um aumento de 36% face a 2024, dos quais mais de 180 mil foram reparações (+31%) e mais de 30 mil intervenções técnicas (+75%). No recondicionamento, processaram-se cerca de 150 mil equipamentos, mais 52% do que no ano anterior, com os telemóveis a representar a maioria absoluta (mais de 140 mil unidades), seguidos de computadores, tablets, smartwatches e categorias residuais como consolas e aspiradores.

Traduzidos em impacto ambiental evitado, com base em rácios médios conservadores inspirados em referências sectoriais e estudos de ciclo de vida, estes volumes correspondem a cerca de 72 toneladas de resíduos electrónicos poupados — o equivalente a cinco camiões basculantes —, 4,32 mil milhões de litros de água não consumidos, quase 18 mil toneladas de CO2 evitadas, comparáveis a retirar 4.500 carros da estrada durante um ano, e 28.803 toneladas de recursos naturais preservados, um valor próximo do peso de três Torres Eiffel.

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A empresa deu também um passo adicional na maturidade do seu reporte: quantificou, pela primeira vez de forma estruturada, a pegada carbónica de 2025 segundo os âmbitos 1, 2 e 3 do GHG Protocol. O resultado, 61.909 toneladas de CO2 equivalente, mostra uma operação concentrada quase inteiramente na cadeia de valor — 99,99% do total, sobretudo em bens e serviços adquiridos e em transportes a montante —, enquanto a electricidade consumida directamente pesa apenas 0,01%, reflexo de uma frota 100% eléctrica e da transição da maioria dos contratos de energia para fontes verdes a partir de Abril de 2025. Essa mudança permitiu uma redução de 72% nas emissões de âmbito 2 em abordagem market-based, face a 2024.

Vânia Guerreiro, Global Head of Corporate Affairs & ESG da iServices, sublinha que «a circularidade precisa de números, mas também precisa de rigor metodológico. Por isso, estamos a evoluir de uma comunicação mais narrativa para uma comunicação mais suportada por evidência, metodologia e rastreabilidade.» Já Bruno Borges afirma que a empresa está «numa fase de consolidação, sobretudo em matéria de reporting, métricas, rastreabilidade e alinhamento com os referenciais do Grupo Sonae e com as exigências europeias», sublinhando que a estratégia ESG da iServices deve ser entendida como um processo progressivo, ainda em maturação, e não como um modelo fechado.

O equipamento que os europeus insistem em manter

Se os números agregados mostram escala, a análise de comportamento do consumidor mostra o porquê. Um estudo da iServices sobre mais de 360 mil reparações realizadas em 2025 em Portugal, Espanha, França, Bélgica e Países Baixos revela que o smartphone mais reparado nestes cinco mercados foi o iPhone 11, lançado em 2019, seguido do iPhone X, de 2017. Mais de metade das reparações de iPhone — marca presente em cerca de 59% das intervenções em smartphones — incidiu sobre modelos lançados em 2019 ou antes, e os equipamentos Apple e Samsung mais reparados têm, em média, cerca de seis anos. A Samsung, líder no universo Android, representou um quarto das reparações de smartphone do período.

O padrão contraria a percepção comum de que a tecnologia se substitui a cada dois ou três anos, e ganha relevância num momento de mudança regulatória: desde 20 de Junho de 2025, smartphones e tablets vendidos na União Europeia estão sujeitos a requisitos de ecodesign que exigem maior durabilidade, baterias mais resistentes, disponibilidade de peças durante anos após o fim da comercialização e uma classe de reparabilidade visível na etiqueta energética, segundo a Comissão Europeia. Os dados da iServices sugerem que o comportamento dos consumidores já se vinha antecipando, em parte, a essas regras.

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Há ainda um argumento de fundo: em 2023, a União Europeia recolheu apenas 37,5% dos resíduos de equipamentos eléctricos e electrónicos) o equivalente a 11,6 quilos por habitante), segundo o Eurostat, ficando a maior parte fora dos circuitos formais de reciclagem. Adiar a substituição de um equipamento ainda funcional evita o problema na origem, antes de este se tornar resíduo. Em 2025, nove em cada dez reparações da iServices incidiram sobre smartphones, avarias tipicamente ligadas à bateria, ao ecrã ou à porta de carregamento, falhas que raramente justificam, por si só, a compra de um equipamento novo.

Bruno Borges afirma que «na maioria dos casos, o cliente não entra numa loja para salvar o Planeta. Entra porque tem um telemóvel partido, uma bateria que já não responde ou um equipamento que ainda quer manter. A decisão é, muitas vezes, prática e económica.» É precisamente nesse ponto, defende, que reside o papel da empresa: «tornar essa decisão mais fácil, segura e credível. Quando reparar é acessível, rápido e tecnicamente fiável, o consumidor adia a substituição. E esse adiamento tem impacto ambiental real.» No recondicionado, acrescenta, o desafio é semelhante e passa sobretudo pela confiança: “garantia, transparência no estado do equipamento, qualidade do processo técnico e apoio pós-venda são factores essenciais para que o consumidor aceite esta alternativa como uma escolha normal e não como uma opção de segunda categoria.»

Fornecedores, equipas e o caminho até às metas

A maturidade ESG da iServices não se esgota nos números ambientais. Questionado sobre a relação com fornecedores, Bruno Borges admite que «hoje, a gestão de fornecedores da iServices assenta sobretudo em critérios técnicos, comerciais, operacionais e de compliance. Existe alinhamento com princípios éticos e códigos de conduta do grupo. No entanto, ainda não temos um processo autónomo e sistemático de avaliação ESG de fornecedores com base em risco ambiental e social.» Há já sinais de evolução, sobretudo no packaging, com a integração progressiva de requisitos de certificação FSC, e o compromisso de reforçar critérios sociais e ambientais na selecção de parceiros, de forma proporcional à escala e ao risco do negócio.

No pilar social, as prioridades passam pelo desenvolvimento de talento, pela formação técnica das equipas e por um ambiente de trabalho seguro e alinhado com a igualdade de oportunidades, num enquadramento que beneficia das políticas do Grupo Sonae em ética, direitos humanos e não discriminação. Ao nível da própria iServices, o CEO descreve um trabalho «essencialmente operacional », focado em consolidar práticas mais do que em comunicar indicadores, numa empresa em crescimento rápido e presente em vários mercados.

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Sobre a pressão regulatória crescente — CSRD, ESRS, Taxonomia Europeia, GHG Protocol —, Vânia Guerreiro qualifica-a como inevitável e útil: «A sustentabilidade entrou numa fase em que já não basta afirmar compromissos. É preciso demonstrar, medir, explicar metodologias, identificar limites e assumir lacunas.» Não por acaso, a empresa segue com atenção a simplificação do reporte de sustentabilidade anunciada pelo Conselho da União Europeia no pacote Omnibus I, sem abrandar o que considera estrutural: processos consistentes, dados rastreáveis e impacto mensurável.

Quanto ao horizonte, Bruno Borges resume a ambição da empresa em poucas palavras: consolidar a iServices como referência europeia em circularidade tecnológica, com impacto mensurável na extensão da vida útil dos equipamentos. As metas mais concretas associam-se ao crescimento das reparações, ao aumento dos equipamentos recondicionados, ao reforço da monitorização de resíduos e à evolução para soluções de packaging mais responsáveis. Em matéria climática, o trabalho passa primeiro por consolidar a baseline e alinhar metodologias, antes de avançar para metas quantitativas autónomas de redução de emissões. «No fundo, a meta é crescer com escala, mas também com dados, responsabilidade e utilidade real», resume Bruno Borges.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 244 de Julho de 2026

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