Desde o passado dia 27, Kiev tem vivido sob uma pressão quase permanente de drones russos. Os grandes enxames lançados uma ou duas vezes por semana, sobretudo durante a noite, estão a dar lugar a sucessivas vagas que mantêm aparelhos no espaço aéreo ucraniano durante grande parte do dia.
Segundo uma análise do ‘Kyiv Post’ baseada nos dados da Força Aérea ucraniana, a mudança não significa necessariamente que a Rússia esteja a lançar muito mais drones de uma só vez. A diferença está sobretudo na forma como os distribui ao longo do tempo — e no número crescente de aparelhos mais rápidos, movidos a jato.
A estratégia mantém as defesas aéreas em alerta durante períodos mais prolongados, provoca sucessivos alarmes e explosões em Kiev e noutras cidades e está também a afetar a atividade de empresas e grandes cadeias comerciais, algumas das quais têm sido alvo de ataques.
O que mudou nos ataques russos?
Até recentemente, a população ucraniana estava habituada a grandes ataques concentrados em determinadas noites. Moscovo começou agora a repartir os lançamentos por vagas sucessivas, incluindo durante o dia.
Entre 27 e 31 de agosto, a Rússia lançou, em média, cerca de 188 drones por noite, considerando apenas o período entre as 18h00 e as 08h00, segundo os comunicados matinais da Força Aérea analisados pelo ‘Kyiv Post’.
Em julho, a média nesse mesmo período tinha sido próxima dos 160 aparelhos.
A diferença real poderá ser maior, porque estes números não contabilizam de forma clara os drones lançados durante o resto do dia. Os sucessivos alertas emitidos pelas autoridades ucranianas sugerem que poderão ser várias dezenas adicionais diariamente.
Para comparação, o Ministério da Defesa da Ucrânia contabilizou 8.653 drones russos lançados durante todo o mês de julho.
A nova estratégia parece assim procurar substituir os enormes picos de centenas de aparelhos concentrados num único ataque por uma pressão muito mais prolongada.
Ucrânia continua a intercetar a maioria
Apesar da mudança, as defesas ucranianas continuam a destruir uma percentagem elevada dos drones lançados durante a noite.
Entre 27 e 31 de agosto, a taxa de interceção manteve-se geralmente acima dos 80%: foram abatidos 222 dos 258 drones lançados na noite de 27 de agosto, 137 de 164 no dia seguinte e 233 dos 267 lançados a 29 de agosto.
A melhor taxa foi registada a 30 de agosto, quando a Ucrânia anunciou ter neutralizado 125 dos 130 aparelhos. No dia seguinte, porém, a percentagem caiu para 79%, com 96 interceções em 121 lançamentos.
A média continua próxima dos 86% calculados pelo ‘Kyiv Post’ para julho, mas há um problema crescente para as defesas ucranianas.
Cada vez mais drones são movidos a jato
A Rússia está a aumentar significativamente a utilização de drones mais rápidos.
A 27 de agosto, a Força Aérea ucraniana estimava que cerca de um terço dos drones do tipo Shahed utilizados no ataque eram movidos a jato. Um dia depois, a proporção já rondava metade e, nos comunicados de 30 e 31 de agosto, as autoridades indicaram que a maioria dos Shahed lançados utilizava este tipo de propulsão.
Yuriy Ihnat, porta-voz da Força Aérea ucraniana, afirmou esta terça-feira que a Rússia utilizou mais de 2.800 drones a jato durante o mês de agosto.
Estes aparelhos voam a maior velocidade e são mais difíceis de destruir. Segundo Ihnat, a taxa de interceção contra drones a jato ronda atualmente os 60%, bastante abaixo dos 90% a 95% alcançados contra modelos equipados com hélice.
“Podem ser meios diferentes, velocidades diferentes, altitudes diferentes e rotas de voo diferentes. É preciso reagir instantaneamente”, explicou.
A Ucrânia está também a desenvolver e testar drones intercetores movidos a jato para responder à evolução russa.
Moscovo consegue manter este ritmo?
Esta é uma das questões centrais. Os números analisados pelo ‘Kyiv Post’ sugerem que a Rússia poderá conseguir sustentar a atual intensidade durante algum tempo, sobretudo se a Ucrânia não conseguir afetar significativamente a capacidade russa de produzir drones.
A mudança não depende de lançar necessariamente números recorde todas as noites. Ao distribuir os aparelhos por períodos mais longos, Moscovo pode obrigar as defesas aéreas ucranianas a permanecer ativas durante mais horas e aumentar a pressão sobre as cidades sem concentrar milhares de drones num único ataque.
Ao mesmo tempo, a crescente utilização de aparelhos a jato torna cada interceção mais difícil e reduz o tempo disponível para reagir.
Há, contudo, sinais de adaptação do lado ucraniano. Apesar do aumento da proporção de drones mais rápidos, a taxa global de interceção continua elevada, o que sugere que Kiev está também a desenvolver novas formas de resposta.
O que pode acontecer agora?
Se Moscovo conseguir manter os níveis de produção, os ataques quase contínuos poderão tornar-se uma característica mais permanente da guerra aérea sobre a Ucrânia.
Isso significaria uma mudança importante: em vez de períodos relativamente previsíveis entre grandes ataques, as cidades podem passar a enfrentar sucessivos alertas ao longo do dia e da noite, obrigando as defesas aéreas a uma vigilância praticamente permanente.
O ‘Kyiv Post’ assinala ainda que a alteração da estratégia coincide com vários desenvolvimentos políticos e militares, incluindo a recente visita do diretor da CIA, John Ratcliffe, a Moscovo e informações dos serviços de inteligência sobre possíveis preparativos russos para novas operações militares.
Não existe, porém, qualquer prova de que estes acontecimentos estejam relacionados com a mudança na campanha de drones.
Para já, os dados permitem uma conclusão mais limitada: a Rússia não está apenas a tentar colocar mais drones no céu. Está a mudar quando, durante quanto tempo e com que tipo de aparelhos os utiliza — procurando transformar grandes ataques periódicos numa pressão aérea muito mais difícil de interromper.



















