Às 08h35, o sistema de imigração do posto fronteiriço de Rasuwagadhi registou a última operação daquela manhã. Menos de dez minutos depois, uma enorme torrente de água, lama, gelo, rochas e pedras desceu pelo vale e arrastou grande parte da zona fronteiriça entre o Nepal e o Tibete.
Uma investigação da ‘BBC’, baseada em imagens de videovigilância, registos de imigração e imagens de satélite, procura agora reconstruir o que aconteceu nos minutos que antecederam a catástrofe de 26 de agosto.
Os dados mostram que 89 cidadãos nepaleses e estrangeiros tinham passado pela imigração para deixar o Nepal em direção ao Tibete, enquanto outras quatro pessoas tinham registado a entrada no país. Entre os que seguiam para a China estavam 32 indianos, 12 chineses, nove cidadãos dos EUA e viajantes britânicos, canadianos, australianos e italianos.
Não se sabe quantos conseguiram atravessar a fronteira antes da chegada da enxurrada.
Montanha cedeu minutos antes
Às 08h37, menos de dois minutos depois do último registo da imigração, instrumentos sísmicos detetaram movimento nas montanhas acima da fronteira. Investigadores concluíram posteriormente que o sinal terá sido provocado pelo colapso de parte de um glaciar, que desencadeou a inundação.
Segundo as autoridades chinesas, a torrente demorou apenas cerca de sete minutos a chegar à passagem fronteiriça. Imagens de videovigilância mostram uma parede escura a surgir por detrás dos edifícios antes de ganhar forma e velocidade e engolir a zona.
Tika Ram Pokharel, o único funcionário sénior da imigração de Rasuwagadhi que sobreviveu — estava em Catmandu a realizar um exame — contou à ‘BBC’ que entre 300 e 400 pessoas estariam à espera para seguir para o Tibete naquela manhã.
“Os meus 40 a 50 amigos estão desaparecidos”, afirmou.
Quatro funcionários da imigração desapareceram. O corpo do responsável pelo posto foi posteriormente encontrado a grande distância do local, enquanto a funcionária que realizou os últimos registos continuava desaparecida.
“Estamos à espera para entrar na China”
Entre os desaparecidos estão também peregrinos que naquela manhã enviavam fotografias e vídeos às famílias enquanto aguardavam a abertura da imigração chinesa.
Às 07h57, Subhrasree Chakraborty enviou ao marido uma fotografia do carimbo de saída do Nepal no passaporte. Seis minutos depois escreveu: “Estamos à espera para entrar na China.”
Foi a última mensagem.
Chakraborty viajava num grupo com mais de 60 pessoas. Outro grupo de 77 peregrinos que regressava do Monte Kailash, acompanhado por três funcionários, também ficou desaparecido após a passagem da enxurrada.
O verdadeiro número de pessoas atingidas naquela zona continua por determinar. Pokharel estima que entre 2.000 e 2.500 pessoas possam ter sido apanhadas pela inundação, mas a BBC salienta que este número é uma estimativa pessoal e não foi verificado de forma independente.
Pelo menos 275 cidadãos indianos permanecem desaparecidos no Nepal, segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia.
💔🥲
Villages are gone. Families are waiting. Hundreds are still missing.
A sudden flood tore through Rasuwa this morning along the Bhote Koshi. Timure, Syabrubesi and Rasuwagadhi were among the first areas hit. Homes, bridges, customs posts and power projects were washed away.… pic.twitter.com/KO87oQ3Ocs
— Subodh Kumar Pandey (@subodh26pandey) August 26, 2026
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