A Europa continua a aquecer a um ritmo muito superior ao resto do planeta. Desde meados da década de 1990, o continente regista uma subida média de 0,56 ºC por década, uma evolução que confirma os alertas de organismos internacionais e reforça a preocupação com o aumento das ondas de calor, dos fenómenos extremos e dos impactos na saúde pública.
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, voltou a sublinhar que a Europa é o continente que aquece mais depressa, ao dobro da média global. O aviso surge num verão marcado por temperaturas extremas, noites tropicais e dificuldades evidentes em adaptar infraestruturas e serviços públicos a episódios prolongados de calor acima dos 40 ºC.
A vaga de calor que atingiu a Europa no arranque do verão de 2026 expôs problemas que vão dos transportes às habitações, passando pela falta de sistemas de arrefecimento em vários espaços públicos e privados. Para países habituados a temperaturas mais elevadas, como Espanha, o fenómeno pode parecer menos inesperado, mas os dados mostram que a escala e a velocidade da mudança já colocam o continente perante um novo cenário climático.
Porque está a Europa a aquecer mais depressa?
O relatório European State of the Climate, do Serviço de Alterações Climáticas Copernicus, aponta vários fatores que ajudam a explicar a aceleração do aquecimento europeu.
Um dos principais está relacionado com as alterações nos padrões atmosféricos. A circulação do ar tem sofrido variações que favorecem ondas de calor mais frequentes, mais longas e mais intensas. O resultado é um aumento dos dias de stress térmico, com impactos ambientais, económicos e sociais.
Jorge Olcina, especialista em climatologia e doutor em Geografia, considera esta evolução especialmente preocupante. O investigador alerta que as ondas de calor extremas já chegaram, em 2025, a regiões que vão do Mediterrâneo ao Círculo Polar Ártico, mostrando que o fenómeno deixou de estar limitado às zonas tradicionalmente mais quentes.
Menos poluição também pode aumentar a radiação solar à superfície
Outro fator apontado pelo relatório é a redução de determinados aerossóis presentes na atmosfera. À primeira vista, pode parecer contraditório, mas alguns destes elementos ajudam a refletir parte da radiação solar antes de esta chegar à superfície.
Com as políticas antipoluição, a presença destes aerossóis tem diminuído, o que pode contribuir para maior aquecimento à superfície. Ainda assim, isso não significa que a poluição deva ser mantida. Pelo contrário: os gases com efeito de estufa continuam a ter efeitos graves no clima e na saúde pública.
Cristina Linares, codiretora da Unidade de Referência em Alterações Climáticas, Saúde e Meio Ambiente Urbano, lembra que a poluição atmosférica está associada, no curto prazo, ao aumento de internamentos urgentes por doenças respiratórias, circulatórias e neurológicas. Também há ligação a internamentos por doenças mentais e comportamentais, partos prematuros e baixo peso à nascença.
Menos neve significa mais calor acumulado
A diminuição da camada de neve na Europa é outro elemento relevante. Com menos neve, reduz-se o albedo, isto é, a capacidade de refletir radiação solar de volta para o espaço.
Quando há menos superfície branca a refletir luz, a terra absorve mais energia e aquece mais. Este mecanismo acelera o aquecimento em várias regiões e reforça a tendência de temperaturas mais elevadas.
A proximidade da Europa ao Ártico também pesa. O Ártico está a aquecer mais depressa do que outras regiões do planeta, com perda acelerada de gelo no Polo Norte. Jorge Olcina sublinha que o hemisfério norte tem sido uma das zonas que mais aqueceu desde 2020, o que ajuda a explicar a pressão adicional sobre o continente europeu.
Espanha está na linha da frente do ar quente sahariano
No caso de Espanha, a localização geográfica torna o país particularmente exposto. Jorge Olcina descreve Espanha como uma zona de fronteira entre massas de ar polar, cada vez menos frias, e massas de ar saharianas, cada vez mais quentes.
O país funciona como porta de entrada do ar quente do Sara para a Europa. Ao mesmo tempo, está numa região afetada pela expansão das células subtropicais para norte, um fenómeno que altera o equilíbrio atmosférico e contribui para temperaturas mais elevadas.
O resultado é um país menos confortável do ponto de vista térmico, com precipitação mais irregular e fenómenos extremos mais frequentes. Para Olcina, Espanha já tem hoje um clima claramente diferente daquele que tinha há 30 ou 40 anos.
O especialista é taxativo: os dados das séries climáticas dos observatórios espanhóis confirmam a tendência. “Estamos perante uma evidência científica, não perante uma crença”, afirma.
Mediterrâneo também está a aquecer rapidamente
O Mediterrâneo é outro dos pontos críticos. Segundo Jorge Olcina, trata-se de um dos mares que mais aqueceu no mundo nas últimas quatro décadas, com uma subida de 1,5 ºC desde 1982.
Este aquecimento contribui para a perda de conforto térmico nos países ribeirinhos. No centro do verão, a bacia mediterrânica assume características cada vez mais tropicais, com temperaturas da água que podem atingir 28 ºC ou 29 ºC durante vários dias.
A temperatura mais elevada do mar intensifica a sensação de calor, altera padrões meteorológicos e pode favorecer fenómenos atmosféricos mais extremos. Também reforça os riscos ambientais e sanitários associados a ecossistemas em rápida transformação.
Calor extremo aumenta mortes e internamentos
O aquecimento da Europa tem consequências diretas na saúde pública. As ondas de calor estão a tornar-se mais longas, mais frequentes e mais intensas, aumentando a mortalidade e a morbilidade, sobretudo entre as populações mais vulneráveis.
Cristina Linares lembra que o aquecimento global e as temperaturas extremas registadas nos meses de verão estão associadas a 95% das mortes relacionadas com fatores meteorológicos. Em 2024, mais de 62 mil mortes na Europa foram atribuídas ao calor.
Em Espanha, a mortalidade atribuível às ondas de calor entre 2015 e 2024 foi de 2.400 mortes por ano. Estes números mostram que o calor extremo já não é apenas um desconforto sazonal, mas um problema de saúde pública.
As temperaturas elevadas também agravam a poluição atmosférica, especialmente em ambientes urbanos. Estudos recentes realizados em Espanha estimam que todos os anos ocorram mais de 60 mil internamentos urgentes relacionados com a poluição atmosférica, com maior incidência do dióxido de azoto, do ozono troposférico e das partículas em suspensão.
Alterações climáticas exigem resposta multifatorial
O calor, a poluição e a degradação ambiental estão interligados. Cristina Linares alerta que o aquecimento global pode intensificar secas, aumentar a frequência de incêndios florestais, elevar o risco de doenças transmitidas pela água e pelos alimentos e favorecer doenças transmitidas por vetores como mosquitos e carraças.
Por isso, os planos de adaptação e prevenção têm de ser multifatoriais. A resposta ao calor extremo não pode limitar-se a alertas meteorológicos: deve envolver saúde pública, urbanismo, transportes, habitação, proteção civil e políticas ambientais.
Jorge Olcina rejeita ainda a ideia de que o atual processo de alterações climáticas seja apenas mais uma variação natural do clima. O especialista lembra que o clima sempre mudou, mas sublinha que o desequilíbrio atual no balanço energético do planeta está cada vez mais associado à presença de gases com efeito de estufa de origem humana.
A conclusão dos especialistas é clara: a Europa está a aquecer rapidamente, os impactos já são visíveis e a adaptação tornou-se urgente.



