Após a sua vitória esmagadora nas eleições gerais de 2019, Boris Johnson parecia inatacável como primeiro-ministro. A sua maioria de 80 deputados marcou o fim do impasse parlamentar sobre o Brexit, o Partido Trabalhista entrou em colapso de lutas internas e os críticos do seu próprio partido foram silenciados.
A ideia de que Boris Johnson poderia passar uma década ou mais em Downing Street era uma perspetiva real. Mas dois anos e meio depois, está tudo acabado. Quando chegou o momento, a sua queda do poder foi tão cheia de drama e controvérsia quanto a sua ascensão.
Nascido em Nova Iorque em 1964, Alexander Boris de Pfeffel Johnson passou os primeiros anos da sua vida a mover-se entre países com a sua família conforme o seu pai Stanley seguia uma carreira internacional variada. Aos 8 anos, Boris declarou que a sua ambição era tornar-se “rei do mundo”.
Formado em Eton, foi para a Universidade de Oxford em 1983 para estudar Clássicos no Balliol College – tornou-se presidente da sociedade de debates da Oxford Union, bem como membro do notório Bullingdon Club.
Depois de se formar, começou a sua carreira no jornalismo, juntando-se ao ‘The Times’ como estagiário antes de ter sido demitido por inventar uma citação numa história. Aos 25 anos, tornou-se correspondente do ‘The Daily Telegraph’ em Bruxelas, fazendo nome como escritor com artigos que questionavam e ridiculizavam as leis e diretrizes da Comissão Europeia – histórias de preservativos de tamanho pequeno que violavam as regras europeias, bananas tortas ou proibição de cocktail de camarão tornaram-se habituais.
Os leitores do eurocético ‘The Daily Telegraph’ absorveram os seus textos num momento em que os Governos de Margaret Thatcher e sir John Major estavam às voltas com a espinhosa questão da Europa.
“Boris foi muito inteligente em criar uma imagem e minimizar as expectativas, de modo que os colegas pensassem que ele estava muito errado e não sabiam o que estava a fazer”, revelou o jornalista do ‘Times’ Michael Binyon à biógrafa de Johnson, Sonia Purnell. “Ele afastava os rivais do rastro e, em seguida, criava uma história fantástica.”
Quando voltou a Londres, Johnson tornou-se um colunista regular do ‘Telegraph’ e começou a escrever para o ‘The Spectator’, altura em que o futuro primeiro-ministro do Reino Unido começou a aparecer no programa de perguntas da BBC ‘Have I Got News For You’. As aparições apresentaram-no a um público mais amplo e é considerado o início do “Boris” nas mentes do público em geral.
Em 1999, tornou-se editor do ‘The Spectator’, papel que lhe foi dado pelo proprietário Conrad Black com a condição de que desistisse dos esforços para entrar no Parlamento. Mas dois anos depois foi eleito deputado.
Boris Johnson ansiava pelo poder mas o seu partido parecia que ficaria fora do cargo nos próximos anos. Foi nomeado ministro na sombra das artes em 2004 por Michael Howard, o líder na época, naquele que foi o seu primeiro papel na bancada parlamentar. Mas não durou muito: foi demitido antes do fim do ano por mentir sobre um caso amoroso com Petronella Wyatt, colunista do ‘The Spectator’.
Em 2007, Johnson estava de olho na capital, anunciando que iria concorrer à autarquia de Londres. Depois de vencer a corrida para ser o candidato conservador a enfrentar Ken Livingstone em 2008, triunfou na disputa eleitoral com 53% dos votos. O resultado mostrou o amplo apelo eleitoral de Johnson e fez com que muitos conservadores se perguntassem: se ele conseguiu derrotar os trabalhistas em Londres, o que poderia fazer no resto do país? Foi reeleito em 2012, aprimorando ainda mais a sua reputação como um potencial futuro ocupante de Downing Street.
O seu regresso à Câmara dos Comuns como deputado por Uxbridge e South Ruislip nas eleições de 2015 provocou especulações de que ele estava a querer o cargo de David Cameron, que havia conquistado a primeira maioria absoluta desde 1992 na eleições desse ano. Até que chegou o Brexit, que muitos sustentam que Boris Johnson terá escolhido para ajudar a sua carreira – os críticos não esquecem que ele escreveu duas versões, na sua coluna do ‘Daily Telegraph’, sobre a sua decisão: uma a favor da permanência da União Europeia, outra a favor da saída.
Ladeado por Michael Gove, Johnson desempenhou um papel de protagonista na campanha que se seguiu, instando as pessoas a votar pelo Brexit e “retomar o controlo”. Um total de 52% dos eleitores apoiaram o Brexit e Cameron, desanimado, renunciou. Como ponta-de.lança da campanha bem-sucedida, Johnson estava perto do poder.
Foi nomeado por Theresa May como secretário dos Negócios Estrangeiros, num período marcado por uma série de controvérsias – comparou o presidente francês a um guarda de prisão nazi pela sua posição sobre o Brexit, e foi acusado de insensibilidade depois de recitar um poema da era colonial de Rudyard Kipling. O erro mais grave foi o de Nazanin Zaghari-Ratcliffe, uma mulher anglo-iraniana presa no Irão, que viria as autoridades iranianas a prolongar a pena de prisão baseado num comentário de Boris Johnson.
Johnson viria a tornar-se um dos críticos mais vocais de May – roubando os holofotes da primeira-ministra na conferência do Partido Conservador em Birmingham. Fez parte do exército de rebeldes conservadores que votou duas vezes contra as propostas de Brexit de May no parlamento, votando a favor apenas na terceira vez em março de 2019.
A luta para substituir May em Downing Street acabou numa disputa direta entre Jeremy Hunt, então secretário dos Negócios Estrangeiros, e Johnson. A promessa deste último de entregar o Brexit, mesmo sem um acordo comercial com a UE, tornou-se a linha divisória – e quando os resultados vieram em 23 de julho de 2019, 66% dos membros do Partido Conservador que votaram fizeram-no por Johnson. A sua vitória foi bem recebida pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que disse aos jornalistas que era um “homem muito bom”, rotulando-o de “Trump britânico”.
Desde então, o ambicioso Boris Johnson, apontado como possível primeiro-ministro do Reino Unido por pelo menos uma década, começou a colecionar polémicas… que culminaram esta quinta-feira com a resignação.














