A TAP e o custo de decidir demasiado devagar

Opinião de Gonçalo Coelho de Carvalho, Executivo e Consultor de Estratégia, Doutorado em Gestão Empresarial Aplicada

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Gonçalo Coelho de Carvalho
Gonçalo Coelho de Carvalho Executivo e Consultor de Estratégia, Doutorado em Gestão Empresarial AplicadaOutubro 7, 2026 11:44

A TAP transportou 8,2 milhões de passageiros no primeiro semestre de 2026, mais 4,2% do que no período homólogo, e alcançou receitas operacionais recorde de 2.039,8 milhões de euros. Ainda assim, fechou o semestre com um prejuízo de 99,2 milhões, cerca de 40% acima do registado um ano antes. Nesta contradição existe uma lição de gestão que interessa muito para além da aviação: crescer não é necessariamente criar valor. Um avião cheio impressiona quem olha para a placa do aeroporto; não nos diz, por si só, se aquele voo está a criar valor.

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Em 2025, o lucro líquido da TAP já tinha recuado de 53,7 milhões para 4,1 milhões de euros, embora significativamente afetado por um ajustamento fiscal extraordinário. Este ano, a subida dos custos com combustível voltou a pressionar as contas. Um semestre, sobretudo num negócio sazonal, não permite diagnosticar a qualidade estrutural de uma empresa. Mas conduz-nos à pergunta que verdadeiramente importa: o que consegue uma organização fazer quando aquilo que não controla muda contra ela?

UMA COMPANHIA AÉREA NÃO É APENAS UM NEGÓCIO DE AVIÕES

Uma companhia aérea parece, à primeira vista, um negócio de ativos: aviões, motores, slots, terminais e tripulações. Mas um avião não cria valor apenas porque existe, nem sequer porque voa cheio. Pode estar na rota errada, operar com preços inadequados ou consumir capital que teria melhor retorno noutro mercado. O valor está nas decisões que determinam onde voa, quando, a que preço e integrado em que rede. Hoje, uma empresa não vale apenas pelos recursos que controla; vale também pela velocidade com que consegue mudar o destino desses recursos.

A MÉTRICA INVISÍVEL DA GESTÃO

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Há uma métrica que não aparece nos relatórios financeiros, mas que deveria preocupar qualquer conselho de administração: o tempo que decorre entre perceber que alguma coisa mudou e conseguir responder-lhe. A esse intervalo chamaria latência de gestão.

Duas empresas podem identificar a mesma oportunidade e chegar à mesma conclusão. Se uma decide e mobiliza recursos em três semanas e a outra demora quatro meses, intelectualmente podem ter a mesma estratégia, mas economicamente não a tiveram. Quando a segunda executa, o concorrente pode já ter avançado, a oportunidade diminuído ou o próprio mercado mudado. Quanto maior a latência de gestão, mais depressa uma boa estratégia envelhece.

Essa latência nasce de demasiados níveis hierárquicos, processos orçamentais rígidos ou estruturas em que responsabilidade e autoridade estão desalinhadas. A agilidade de uma organização mede-se menos pelos programas de transformação que anuncia do que pelo tempo que demora a mudar quando percebe que precisa de mudar.

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NÃO ELIMINA A BUROCRACIA

A IA pode reduzir drasticamente a latência da informação, permitindo perceber em segundos aquilo que antes demorava semanas a detetar. Não garante, porém, que a organização decida mais depressa. Um algoritmo pode identificar imediatamente uma alteração na procura; serve de pouco se a empresa precisar de meses para reagir.

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A tecnologia não elimina burocracia, não resolve conflitos de poder nem clarifica quem pode decidir. Quanto maior for a distância entre a velocidade da tecnologia e a da organização, menor será o seu valor económico.

Num contexto de mudanças rápidas na geopolítica, energia, regulação e comportamento dos consumidores, nenhuma previsão deve ser tratada como infalível. Às reuniões de administração deveria acrescentar-se uma pergunta: o que teremos de conseguir fazer se aquilo em que hoje acreditamos não acontecer? Estratégia é também construir uma organização competitiva quando o futuro previsto não se concretiza.

O VERDADEIRO PROBLEMA DOS 50,1 POR CENTO

O Estado prevê alienar até 49,9% da TAP, reservando 44,9% para o investidor estratégico e 5% para os trabalhadores, e manter inicialmente 50,1% do capital. Depois das propostas vinculativas apresentadas pela Air France-KLM e pela Lufthansa, o Governo entrou numa fase de negociação com os dois grupos. As percentagens e o preço são relevantes, mas escondem uma questão mais importante: como será governada a empresa?

Portugal procura num parceiro estratégico escala, tecnologia, integração numa rede internacional, poder negocial, acesso a mercados e capacidade de investimento. Não basta permitir-lhe entrar no capital. É necessário transformar essas capacidades em execução, clarificando a representação no conselho de administração, as matérias reservadas aos acionistas, a autonomia da gestão e os mecanismos para resolver bloqueios.

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O Estado pode legitimamente proteger a conectividade do país, a marca TAP e o hub de Lisboa. Mas proteger interesses estratégicos não é gerir a operação. Sem uma fronteira clara, Portugal arrisca escolher um parceiro pela sua capacidade de decidir e executar à escala global e, depois, colocá-lo num sistema que aumenta a latência de gestão. O verdadeiro problema dos 50,1% contra 49,9% não é aritmético. É de governação.

O QUE CONSEGUIRÁ A TAP FAZER QUE HOJE NÃO CONSEGUE

Também seria ingénuo assumir que a entrada de um grande grupo privado resolverá automaticamente os problemas da TAP. Há multinacionais burocráticas e integrações que destroem valor. Um grande acionista não garante uma grande gestão, tal como maior escala não significa maior agilidade.

Por isso, eu não avaliaria a Air France-KLM e a Lufthansa apenas pelo preço. Perguntar-lhes-ia algo mais exigente: o que conseguirá a TAP fazer convosco que dificilmente conseguiria fazer sozinha? Que mercados adicionais poderá alcançar? Que tecnologia será efetivamente transferida? Que melhorias de margem poderão obter? Que riscos serão melhor absorvidos? Que decisões passarão a ser tomadas melhor e mais depressa?

E colocaria uma última questão: quando chegar a próxima crise que nenhum de nós conseguiu prever, por que razão estará a TAP mais bem preparada dentro do vosso grupo do que estaria fora dele? A resposta talvez diga mais sobre o valor estratégico de cada candidato do que algumas casas decimais na avaliação financeira.

A VERDADEIRA FUNÇÃO DA LIDERANÇA

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A liderança também deve libertar capital preso a decisões antigas. Uma rota, um mercado ou uma estrutura podem ter sido escolhas corretas no passado e deixarem de o ser. As empresas têm mais facilidade em começar do que em parar, mas alocar capital significa decidir tanto onde investir como onde deixar de investir.

O trabalho da liderança não termina quando melhora os resultados deste ano. Deve deixar a organização mais capaz de responder ao que ainda não aconteceu. Isso exige eficiência no presente sem destruir opções para o futuro, disciplina sem eliminar experimentação, escala sem sufocar autonomia e tecnologia sem abdicar de julgamento.

Os quase 100 milhões de euros de prejuízos da TAP no primeiro semestre não demonstram que a companhia esteja condenada, nem provam que um parceiro privado resolverá os seus problemas. Mostram algo mais útil: uma empresa pode crescer e continuar vulnerável, possuir bons ativos e precisar de melhorar a capacidade de os reconfigurar.

A verdadeira pergunta sobre a reprivatização não deveria ser apenas quem fica com 50,1% e quem poderá chegar aos 49,9%. Deveria ser outra: que combinação de acionistas, governação, liderança e capacidades permitirá à TAP perceber mais cedo, decidir mais depressa e realocar melhor quando o mundo deixar de corresponder às previsões que hoje fazemos sobre ele?

Talvez o teste mais exigente à liderança moderna não seja prever melhor do que todos os outros, mas construir uma organização capaz de responder melhor quando aquilo que todos julgávamos provável não acontece. É isso que está em causa na TAP. E, cada vez mais, em qualquer empresa.

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