Acidente/Elevador: “É extremamente preocupante” insistir na externalização da manutenção da frota da Carris, alerta sindicato

Um ano depois do descarrilamento do ascensor da Glória, em Lisboa, o dirigente sindical Manuel Leal, do STRUP/Fectrans, defende a reconstrução do setor oficinal da Carris para manutenção da frota internamente, considerando “extremamente preocupante” que se insista na externalização.

Executive Digest com Lusa

Um ano depois do descarrilamento do ascensor da Glória, em Lisboa, o dirigente sindical Manuel Leal, do STRUP/Fectrans, defende a reconstrução do setor oficinal da Carris para manutenção da frota internamente, considerando “extremamente preocupante” que se insista na externalização.

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“Entendemos que, claramente, o passado nos mostra que foram aqui cometidos erros graves e erros que, para nós, não temos dúvidas em afirmar que podem estar entre as causas indiretas destes trágicos acontecimentos”, afirma o sindicalista, referindo-se à opção pela externalização dos serviços de manutenção da frota da Carris, empresa responsável pelo ascensor da Glória e que tem como acionista única a Câmara Municipal de Lisboa (CML).

Entrevistado no podcast “Lusa Extra”, lançado hoje, quando se assinala um ano desde o acidente com o ascensor da Glória, o dirigente sindical do Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos de Portugal (STRUP) e da Fectrans – Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores dos Transportes e Comunicações critica o presidente da CML, Carlos Moedas (PSD), por insistir na externalização da manutenção da frota da Carris: “É um sinal extremamente preocupante.”

O histórico ascensor descarrilou a 03 de setembro de 2025, provocando 16 mortos e 24 feridos, de 15 nacionalidades. Um ano depois, as investigações do Ministério Público e do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) ainda decorrem.

No dia do acidente, Manuel Leal disse à agência Lusa que os trabalhadores da Carris tinham apresentado “queixas sucessivas” quanto à necessidade de manutenção dos ascensores, inclusive o da Glória, informação que reitera passado um ano, reforçando a contestação contra o modelo de externalização.

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Questionado sobre se o presidente da CML tem assumido devidamente a sua responsabilidade política, o sindicalista responde que, se Moedas tivesse “dado sinais de que estava disponível para aprender e corrigir os erros, a resposta poderia ser afirmativa”, mas como “continua a defender que o modelo futuro em termos de manutenção continuará a ser a externalização, a resposta é claramente negativa”.

“Quando um responsável pela gestão não arranja tempo na sua agenda para ouvir as preocupações dos trabalhadores, efetivamente parece-me que há responsabilidade política”, expõe Manuel Leal, indicando que os sindicatos pediram, “em meados de 2025”, antes do descarrilamento, uma reunião com Carlos Moedas, mas sem sucesso.

Manuel Leal lembra que durante “muitas e muitas décadas” os equipamentos históricos de Lisboa, como o ascensor da Glória, contavam com “equipas dedicadas, exclusivas de trabalhadores da Carris”, que estavam em permanência durante todo o horário de funcionamento destes veículos, em que “o conhecimento era transmitido de geração em geração”.

“No processo de destruição do setor oficinal, levado a cabo entre os anos 2006 e 2007 […] houve a rescisão forçada de contratos de trabalho com mais de 300 trabalhadores”, afirma, sublinhando que tal levou a uma rutura de conhecimento quanto à manutenção da frota, sobretudo dos equipamentos históricos.

Para o dirigente do STRUP/Fectrans, o trágico acidente representa “uma oportunidade” para a reconstrução do setor oficinal da Carris, com equipas dedicadas à manutenção da frota, para pôr fim à externalização, justificando essa necessidade com as próprias regras da contratação pública, com concursos de quatro em quatro anos, processo que “não permite a consolidação de conhecimento e a consolidação de equipas”.

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De acordo com Manuel Leal, ao contrário do presidente da CML, o atual presidente da Carris, Rui Lopo, indicado após a demissão de Pedro de Brito Boga na sequência do acidente, “acompanha as preocupações quanto à necessidade de terminar com o modelo de externalização”.

Sobre se a tragédia poderia ter sido evitada, o sindicalista partilha o testemunho de um antigo trabalhador da manutenção da Carris e que realça a importância do conhecimento empírico: “Olha, muitas vezes, quando entrávamos ao serviço, só pelo barulho que o material estava a fazer, nós sabíamos que havia problemas. Parava-se, íamos ver e, efetivamente, o problema estava lá.”

Para o sindicalista, a existência de trabalhadores da Carris dedicados à manutenção “determinou que, durante muitas décadas, não houvesse qualquer tipo de problema sério” quanto ao funcionamento dos equipamentos históricos.

“Obviamente que o risco zero não existirá nunca”, expressa, acrescentando os serviços de manutenção integrados internamente na Carris podem “contribuir para a diminuição efetiva do risco”.

Relativamente à solução para o futuro ascensor da Glória, Manuel Leal ressalva que o que sabe é pela comunicação social e defende que “2029 é uma meta distante no tempo para que a cidade fique ainda durante quatro anos sem este meio” de transporte, mas concorda que os novos veículos devem ser “completamente diferentes, dotados de todos os meios tecnológicos e de modernidade”, que impeçam acidentes.

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Quanto aos ascensores da Bica e do Lavra e o elevador de Santa Justa, inoperacionais desde o descarrilamento para serem inspecionados, o sindicalista adianta que também devem ser “veículos com capacidades tecnológicas completamente diferentes, modernos, que possam responder às questões de segurança, não só para os utentes, mas também para os trabalhadores da Carris”.

Manuel Leal realça ainda a necessidade de valorização dos trabalhadores da Carris, inclusive através dos salários, para fixar pessoal com conhecimento nas áreas oficinais, nomeadamente “mecatrónicos que, com vários anos de formação, acabam por sair da empresa”.

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