*** José Jeco, da agência Lusa ***
Beira, Moçambique, 08 ago 2026 (Lusa) — No centro de Moçambique, quem sofre de doença mental é por vezes apontado como alguém que “vive na lua”, mas por detrás da expressão estão mais de 500 atendimentos psiquiátricos só este ano, na Beira.
A expressão popular é usada para descrever pessoas com comportamentos considerados estranhos ou incompreensíveis, mas simplificam vidas de dependência de drogas, abandono familiar, discriminação e doença mental, que têm como destino, em grande parte dos casos, o Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital Central da Beira (HCB), na província de Sofala.
Desde janeiro, mais de 500 pessoas deram entrada naquele serviço do maior hospital do centro de Moçambique, das quais cerca de 180 necessitaram de internamento, segundo dados recolhidos pela Lusa junto da unidade sanitária.
Uma parte significativa dos internamentos está associada ao consumo de substâncias psicoativas, fenómeno que os profissionais de saúde apontam como um dos principais fatores de agravamento dos problemas de saúde mental na região.
Entre as substâncias mais frequentemente associadas aos internamentos estão o álcool, a heroína, o “cocholo nervo” e a canábis, conhecida localmente por “suruma”.
Ansiedade, depressão, alterações de humor, irritabilidade, falta de concentração, isolamento social, comportamento agressivo e, nos casos mais graves, alucinações, delírios e ideias suicidas compõem um cenário que o responsável do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do HCB, Atanasio Fuma, considera preocupante.
“Nos últimos meses, cerca de quatro por 10 casos novos internados têm tido relação com uso de substâncias psicoativas”, refere.
Mais do que o aumento do número de doentes, o que preocupa os profissionais de saúde é o abandono do tratamento, após a alta hospitalar: “Entram para fazer o tratamento, melhoram e não regressam às consultas externas”, para voltarem mais tarde com o “quadro agravado”.
“Voltam muitas vezes por abandono. Têm recaídas porque não encontram apoio familiar para continuar a recuperação”, aponta o clínico.
Num quadro mais geral, acrescenta que muitas famílias escondem a existência de parentes com doença mental devido ao receio do estigma social, o que faz com que cheguem ao hospital numa fase avançada da doença. Outros acabam por permanecer internados durante longos períodos porque deixaram de contar com qualquer suporte familiar.
“Mesmo os que são internados, mas depois não são recolhidos pelas famílias”, relata o responsável.
Perante esta realidade, os profissionais de saúde defendem a criação de estruturas públicas de acolhimento e reabilitação que permitam acompanhar os doentes após a alta hospitalar e reduzir o número de recaídas.
A psicóloga clínica Rady Almeida, do HCB, considera que a assistência social continua a ser uma das peças mais frágeis no tratamento de pessoas com problemas de saúde mental. A discriminação, o preconceito e a rejeição social, diz, continuam a constituir alguns dos maiores obstáculos à recuperação e à reinserção dos doentes.
“É extremamente constrangedor em casa, muitas vezes, o doente mental ser considerado um problema e não como alguém que precisa de ajuda”, afirma.
A psicóloga considera que a assistência social deve funcionar como uma ponte entre os serviços de saúde, os pacientes e as respetivas famílias, sobretudo quando estão em causa pessoas em situação de grande vulnerabilidade económica.
Para Rady Almeida, o consumo de drogas e de outras substâncias psicoativas continua igualmente a ser um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento e agravamento de doenças mentais.
A especialista alerta ainda para as dificuldades enfrentadas pelos doentes na procura de emprego, na manutenção de relações sociais e na participação na vida comunitária, devido à persistência de preconceitos.
“Se virmos alguém na rua, a primeira coisa que devemos fazer é comentar ao assistente social e à unidade sanitária mais próxima. Não basta chamar a pessoa de ‘louco’ e condenar”, recomenda.
“É preciso olhar para ele como uma pessoa, como gostaríamos que um membro da nossa família fosse tratado”, concluiu.
Numa tentativa de responder a parte destes problemas, está em construção, no bairro da Manga, cidade da Beira, um centro de acolhimento destinado a pessoas com doença mental.
O promotor da iniciativa, Gundam Sousa, explicou à Lusa que a ideia surgiu após constatar o aumento de pessoas com transtornos mentais a viverem em condições degradantes, inclusive na via pública.
“O objetivo é acolher e dar suporte aos pacientes que não têm onde ficar e oferecer-lhes um ambiente seguro, alimentação e tratamento”, explica, acrescentando que o centro funcionará em articulação com o HCB, assegurando acompanhamento médico, alojamento, alimentação e atividades de reintegração social.
Numa primeira fase, o futuro Centro Vida Nova terá capacidade para acolher 50 pacientes, com possibilidade de expansão em função dos resultados. Enquanto decorrem as obras, a organização está a promover campanhas de recolha de roupas, alimentos e produtos de higiene para apoiar o futuro funcionamento da instituição.
O projeto prevê atividades agrícolas e de criação de aves em terrenos já disponíveis, permitindo produzir parte dos alimentos necessários ao funcionamento do centro e contribuir para a ocupação dos pacientes.
“Não queremos depender de doações, mas produzir mantimentos, aves e outras culturas. Já temos algumas atividades também previstas para os pacientes”, explicou.
Apesar do entusiasmo, Gundam Sousa reconhece que a falta de recursos continua a ser o principal desafio para concretizar a iniciativa.
“Mas o nosso principal objetivo é dar dignidade”, concluiu.
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