SpaceX enfrenta hoje o primeiro grande teste em bolsa: empregados e investidores ficam livres para vender ações. O que está em causa?

Abertura não significa que todas essas ações vão ser imediatamente colocadas à venda. Significa apenas que termina a primeira restrição que impedia os seus proprietários de negociar os títulos

Executive Digest

A SpaceX enfrenta esta quinta-feira um dos momentos mais importantes desde que entrou em bolsa. Cerca de 911,5 milhões de ações detidas por trabalhadores e investidores iniciais passam a poder ser vendidas, alterando profundamente um mercado que, até agora, funcionava com uma quantidade reduzida de títulos disponíveis.

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A abertura não significa que todas essas ações vão ser imediatamente colocadas à venda. Significa apenas que termina a primeira restrição que impedia os seus proprietários de negociar os títulos. Ainda assim, basta que uma pequena parte chegue ao mercado para aumentar a pressão sobre uma ação que já perdeu cerca de 43% desde o máximo alcançado após a entrada em bolsa.

Mas o que é exatamente este período de bloqueio, porque existe e de que forma pode afetar a SpaceX?

O que termina esta quinta-feira?

Quando uma empresa entra em bolsa, os fundadores, trabalhadores e primeiros investidores ficam normalmente impedidos de vender as ações durante determinado período. Este mecanismo, conhecido como lock-up, procura evitar que milhares de títulos sejam colocados no mercado imediatamente após a oferta pública inicial, provocando uma queda abrupta da cotação.

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A SpaceX adotou um modelo diferente do habitual. Em vez de libertar todas as ações numa única data, estabeleceu um calendário faseado, permitindo que diferentes parcelas sejam negociadas ao longo dos próximos meses.

Esta quinta-feira termina a primeira dessas restrições. Até 911,5 milhões de ações ficam elegíveis para venda, embora isso não queira dizer que todas sejam efetivamente negociadas.

A SpaceX estreou-se no Nasdaq em junho, com as ações fixadas em 135 dólares, cerca de 116 euros à taxa de câmbio atual. A empresa colocou inicialmente no mercado cerca de 639 milhões de ações, incluindo a opção adicional exercida pelos bancos responsáveis pela operação, numa oferta que angariou aproximadamente 85,7 mil milhões de dólares.

Porque pode haver pressão sobre a cotação?

O preço de uma ação depende, entre outros fatores, da relação entre a oferta e a procura. Quanto maior for a quantidade de títulos disponíveis, maior poderá ser a dificuldade em manter o preço, caso a procura não aumente na mesma proporção.

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Desde a entrada em bolsa, os investidores interessados na SpaceX competiam por uma pequena parte do capital da empresa. Essa escassez ajudou a sustentar uma valorização elevada nas primeiras sessões.

As ações foram vendidas na oferta pública inicial a 135 dólares e chegaram depois a fechar nos 201,80 dólares. Na terça-feira, estavam nos 114,53 dólares, uma queda de aproximadamente 43% face ao máximo e cerca de 15% abaixo do preço da estreia.

O fim do bloqueio começa agora a retirar parte dessa escassez. Mesmo que apenas uma fração dos 911,5 milhões de títulos seja vendida, o mercado poderá ter dificuldade em absorver a nova oferta sem uma redução adicional do preço.

Isto significa que a SpaceX vai emitir novas ações?

Não. O fim do período de bloqueio não representa uma emissão de novos títulos nem provoca uma diluição direta da participação dos atuais acionistas.

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As ações já existem e pertencem a trabalhadores, fundadores e investidores que financiaram a empresa antes da entrada em bolsa. O que muda é apenas a possibilidade de essas pessoas as poderem vender no mercado.

A diferença é relevante: a SpaceX não recebe dinheiro com estas vendas. A liquidez vai para os atuais proprietários dos títulos.

Porque poderão os trabalhadores querer vender?

Muitos trabalhadores da SpaceX receberam ações como parte da remuneração ao longo de vários anos. Para alguns, esses títulos poderão representar uma parte significativa do património pessoal.

Vender uma parcela permite diversificar investimentos, comprar uma casa, pagar dívidas ou simplesmente transformar em dinheiro uma compensação que esteve durante anos indisponível. Essa decisão não significa necessariamente que deixaram de acreditar no futuro da empresa.

O mesmo acontece com fundos de capital de risco e outros investidores iniciais. Estas entidades financiam empresas durante períodos definidos e têm, mais cedo ou mais tarde, de devolver capital aos respetivos clientes.

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Um investidor pode continuar otimista em relação à SpaceX e, ainda assim, considerar que a entrada em bolsa é o momento adequado para realizar parte dos ganhos.

O facto de a ação estar abaixo dos 135 dólares da oferta pública inicial também poderá não impedir vendas. Muitos trabalhadores e primeiros investidores receberam ou compraram os títulos a preços muito inferiores, mantendo ganhos elevados mesmo depois da recente queda.

Porque foi tão importante a pequena quantidade de ações disponíveis?

A SpaceX entrou em bolsa com uma percentagem reduzida do seu capital disponível para negociação pública. Assim, os primeiros compradores não estavam a avaliar a empresa num mercado totalmente líquido, mas a disputar uma parcela limitada das ações.

Esta escassez pode amplificar os movimentos. Quando há muita procura e poucos títulos, o preço pode subir rapidamente. Quando surgem mais vendedores e a procura diminui, a queda também pode ser mais acentuada.

Segundo uma análise publicada pela ‘Forbes’, o fim do bloqueio poderá ajudar a perceber quanto vale realmente a SpaceX num mercado com maior liquidez, e não apenas quanto estavam os investidores dispostos a pagar por uma quantidade limitada de ações.

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A empresa tinha razões para entrar em bolsa com uma valorização elevada. A SpaceX domina o mercado de lançamentos comerciais, detém infraestruturas difíceis de reproduzir e opera a rede de satélites Starlink numa escala ainda sem concorrência direta comparável.

Contudo, uma empresa excecional pode continuar a ser um investimento arriscado quando o preço pago pelos títulos pressupõe um crescimento quase sem falhas.

O que têm os vendedores a descoberto a ver com isto?

A expectativa de uma queda levou muitos investidores a apostar contra a SpaceX. No final de julho, cerca de 219,3 milhões de ações estavam vendidas a descoberto, correspondendo a uma posição avaliada em aproximadamente 24,6 mil milhões de dólares.

Numa venda a descoberto, o investidor pede ações emprestadas e vende-as, esperando recomprá-las mais tarde por um preço inferior. A diferença representa o lucro — desde que a cotação realmente caia.

A dimensão destas posições mostra que o mercado já antecipou parte do risco associado ao fim do bloqueio. Ou seja, a possível chegada de novas ações não é uma surpresa: tornou-se uma das principais razões para apostar na descida da cotação.

Mas estas posições também podem ter o efeito contrário. Caso os trabalhadores e investidores iniciais vendam menos ações do que o esperado e a procura aumente, os vendedores a descoberto poderão ser obrigados a recomprar rapidamente os títulos para limitar perdas.

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Essa corrida às compras, conhecida como short squeeze, pode provocar uma subida acentuada da cotação.

A ação vai necessariamente cair?

Não. O aumento potencial da oferta cria pressão, mas não determina antecipadamente o resultado.

Muitos trabalhadores poderão decidir manter as ações, acreditando que o valor da SpaceX continuará a crescer. Alguns investidores iniciais poderão também recusar vender abaixo do preço da oferta pública inicial.

Além disso, a forte queda registada desde o máximo poderá já refletir parte do receio em torno desta quinta-feira. Quanto mais investidores tiverem vendido antecipadamente por medo do fim do bloqueio, menor poderá ser a reação quando a restrição terminar efetivamente.

O cenário mais negativo surgirá se os proprietários colocarem no mercado um volume muito superior ao esperado e não aparecerem compradores suficientes. Nesse caso, a cotação poderá sofrer uma nova descida.

Esta quinta-feira resolve o problema?

Não. O calendário da SpaceX prevê uma libertação progressiva das ações.

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Até dezembro, uma parcela maior do capital poderá tornar-se negociável. A restante maioria, incluindo grande parte da participação de Elon Musk, deverá continuar bloqueada até meados de 2027.

A pressão, por isso, poderá prolongar-se durante vários meses. Cada nova data de desbloqueio poderá voltar a levantar dúvidas sobre a quantidade de ações que chegará ao mercado.

Quais são os sinais a acompanhar?

O primeiro será o volume de negociação. Uma subida significativa do número de ações transacionadas indicará que trabalhadores ou investidores iniciais começaram efetivamente a vender.

Também será importante perceber se a elevada atividade dura apenas uma sessão ou se continua durante vários dias. Uma pressão prolongada sugerirá que o mercado ainda está a absorver uma quantidade relevante de títulos.

Outro nível a acompanhar será o preço da oferta pública inicial, fixado nos 135 dólares. Embora não represente necessariamente o valor justo da empresa, funciona como uma referência psicológica para investidores e trabalhadores.

Uma recuperação sustentada acima desse preço poderá indicar que a procura conseguiu absorver o aumento da oferta. A permanência abaixo dos 135 dólares poderá, pelo contrário, incentivar alguns proprietários com preços de aquisição muito inferiores a vender.

O que está verdadeiramente em causa?

A entrada em bolsa permitiu aos investidores comprar uma pequena parcela da SpaceX. O fim do período de bloqueio inicia um teste mais difícil: descobrir quanto vale a empresa quando um número muito maior de proprietários fica livre para decidir se quer manter ou vender as ações.

A cotação desta quinta-feira não determinará o futuro da SpaceX nem alterará, por si só, a posição da empresa no setor espacial. Mas poderá revelar se a valorização inicial resultou apenas da confiança no negócio ou se foi também sustentada pela escassez artificial de ações.

O teste, por isso, não é apenas à qualidade da SpaceX. É ao preço que o mercado está disposto a pagar por ela quando a oferta começa finalmente a aproximar-se de condições normais.

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