Contagem decrescente: restos de um foguetão da SpaceX vão abrir uma nova cratera na Lua esta quarta-feira

Após mais de 18 meses à deriva no espaço, vai colidir acidentalmente com a superfície lunar a cerca de 8.700 km/h

Executive Digest

A Lua vai ganhar uma nova cratera esta quarta-feira, mas desta vez o responsável não será um asteroide. O protagonista é o segmento superior de um foguetão Falcon 9 da SpaceX, que, após mais de 18 meses à deriva no espaço, vai colidir acidentalmente com a superfície lunar a cerca de 8.700 km/h.

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O impacto está previsto para as 7h35 (hora de Lisboa) desta quarta-feira, segundo o Centro de Estudos de Objetos Próximos da Terra (CNEOS) da NASA. Apesar da violência da colisão, não existe qualquer risco para a Terra. Pelo contrário: os cientistas veem este acidente como uma oportunidade única para estudar em tempo real o que acontece quando um objeto de grandes dimensões embate na superfície da Lua.

O foguetão foi lançado em janeiro de 2025 para transportar dois módulos privados de alunagem: o Blue Ghost, da Firefly Aerospace, que se tornou o primeiro módulo de uma empresa privada a aterrar com sucesso na Lua, e o Resilience, da japonesa ispace, que acabou por se despenhar durante a tentativa de alunagem.

Ao contrário do primeiro estágio do Falcon 9, que é reutilizável, o segmento superior é normalmente destruído de forma controlada na atmosfera terrestre. Neste caso, porém, quase todo o combustível foi utilizado para colocar os módulos na trajetória para a Lua, impossibilitando essa manobra. O estágio ficou abandonado numa órbita elevada que cruza regularmente a órbita lunar.

Segundo a própria SpaceX, a combinação da gravidade da Terra e da Lua com a atividade solar acabou por alterar lentamente a trajetória do objeto, colocando-o numa rota inevitável de colisão com o satélite natural.

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O segmento mede cerca de 12 metros, pesa aproximadamente quatro toneladas e deverá atingir a região da cratera Einstein, no lado da Lua iluminado pelo Sol. Os cientistas estimam que o impacto abrirá uma cratera com cerca de 27 metros de diâmetro e cinco metros de profundidade.

O momento da colisão não será visível a olho nu a partir da Terra. No entanto, telescópios de grande dimensão instalados no continente americano poderão detetar um breve clarão e a enorme nuvem de poeira levantada pelo impacto. Segundo o astrónomo Matt Bothwell, da Universidade de Cambridge, a pluma de detritos poderá elevar-se a dezenas de quilómetros acima da superfície lunar antes de voltar a cair.

A ausência de atmosfera na Lua tornará o fenómeno particularmente impressionante. Sem resistência do ar para travar o foguetão, toda a energia do impacto será transferida diretamente para o solo, projetando para o espaço cerca de um milhão de quilogramas de poeira e fragmentos de rocha, estimam os investigadores.

Além dos telescópios terrestres, duas sondas em órbita da Lua vão acompanhar de perto o acontecimento: a Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), da NASA, e a Danuri, da Coreia do Sul. Ambas irão fotografar a zona antes e depois da colisão, permitindo medir com precisão a dimensão da cratera e analisar a quantidade de material ejetado.

Os investigadores esperam que este “acidente” forneça informações valiosas sobre a composição das camadas inferiores da superfície lunar, uma vez que o impacto irá expor material que permaneceu enterrado durante milhões de anos. Os dados também poderão ajudar a melhorar os modelos utilizados para prever colisões semelhantes.

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Mas o episódio também serve de aviso. Especialistas defendem que, com o regresso previsto de astronautas à Lua nos próximos anos e a futura construção de bases permanentes, será necessário controlar muito melhor o destino dos foguetões e de outro lixo espacial. Caso contrário, colisões deste tipo poderão representar um risco real para missões tripuladas e infraestruturas lunares.

Não será, aliás, a primeira vez que um objeto criado pelo ser humano embate na Lua. Em 2022, o estágio superior de um foguetão chinês Long March 3C atingiu o lado oculto do satélite, formando uma invulgar cratera dupla. Décadas antes, a própria NASA provocou deliberadamente vários impactos durante o programa Apollo para estudar a estrutura interna da Lua.

Segundo a Agência Espacial Europeia (ESA), existem atualmente cerca de 54 mil objetos com mais de 10 centímetros em órbita da Terra. Desde o início da era espacial, em 1957, a humanidade já colocou no espaço cerca de 17 mil toneladas de equipamentos, tornando cada vez mais urgente encontrar formas seguras de eliminar este lixo espacial antes que as futuras missões à Lua se tornem uma realidade.

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