Os Estados Unidos estão a preparar as comemorações do 250º aniversário da independência, mas a grande festa patriótica montada no National Mall, em Washington, parece menos uma celebração institucional do país e mais uma montra do trumpismo no poder.
Segundo o ‘El Español’, a chamada Grande Feira Estadual Americana junta pavilhões estaduais, comida frita, rodeos, música country, empresas de defesa, agências federais, patrocinadores privados, bandeiras gigantes e até um espaço do Departamento de Defesa apresentado simplesmente como “Guerra”.
O cenário escolhido é um dos mais simbólicos dos Estados Unidos: a esplanada entre o Capitólio e o Lincoln Memorial, palco de tomadas de posse, marchas históricas, protestos em massa e funerais nacionais. Desta vez, porém, o espaço foi ocupado por uma combinação de nostalgia patriótica, marketing corporativo, aparato militar e referências políticas alinhadas com a atual Casa Branca.
There is nothing on Earth like the American spirit.
The first days of the Great American State Fair have been an incredible reminder of what makes this country so special. Americans from every state are coming together to celebrate our history, our freedom, and the greatest… pic.twitter.com/LD3z72OvLS
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A feira procurava vender uma imagem ampla da América, mas acabou por projetar uma visão muito específica do país: mais militarizada, mais conservadora, mais próxima do universo empresarial e muito mais identificada com Donald Trump do que com uma comemoração nacional consensual.
O evento nasceu de uma ideia antiga. Há cerca de uma década, o Congresso criou uma comissão bipartidária para preparar as comemorações do quarto de milénio da independência americana. O objetivo inicial era institucional: exposições, programas históricos, eventos públicos e uma narrativa capaz de unir um país cada vez mais dividido.
Essa estrutura foi organizada em torno da America250, a entidade criada para apoiar oficialmente o aniversário. Mas o regresso de Trump à Casa Branca alterou o equilíbrio. O círculo próximo do presidente tentou ganhar influência dentro da organização, pressionando por uma leitura mais política das comemorações.
Perante a resistência da estrutura original, o trumpismo acabou por criar o seu próprio veículo: Freedom 250. A mudança de nome não é apenas cosmética. “America250” soava a comemoração de Estado; “Freedom 250” aproxima-se muito mais de um slogan de campanha.
A partir daí, segundo o jornal espanhol, a nova marca começou a substituir a anterior como parceira preferida do Governo. Algumas agências receberam instruções para a usar como identidade principal, e a celebração nacional passou a adotar uma linguagem mais próxima do espetáculo patriótico do que da memória histórica partilhada.
A apropriação também chegou ao dinheiro. De acordo com um relatório da Public Citizen e do Revolving Door Project, citado pelo ‘El Español’, a administração Trump atribuiu quase 103 milhões de dólares, cerca de 90 milhões de euros, em contratos e subsídios federais relacionados com o 250º aniversário a entidades politizadas ou influenciadas por aliados do presidente.
O valor representa quase 80% dos 126 milhões de dólares, cerca de 110 milhões de euros, comprometidos desde outubro de 2025 para financiar as comemorações deste verão.
O maior beneficiário foi a National Park Foundation, fundação que colabora com o Serviço Nacional de Parques e sob cuja égide foi criada a iniciativa Freedom 250. Só o Departamento do Interior terá atribuído mais de 68 milhões de dólares, cerca de 60 milhões de euros, para eventos comemorativos do aniversário.
A esses montantes juntam-se mais 10 milhões de dólares, cerca de 8,8 milhões de euros, para os chamados Freedom Trucks, uma espécie de museu móvel promovido em conjunto com a PragerU e o Hillsdale College, duas instituições associadas ao ecossistema conservador dos Estados Unidos.
A rede envolve também figuras próximas do poder. Doug Burgum, secretário do Interior, integra a National Park Foundation. À sua volta surgem nomes ligados a Trump, como Chris LaCivita, antigo gestor da campanha presidencial de 2024, e Meredith O’Rourke, antiga diretora financeira da campanha.
Também há empresas com histórico político relevante. A Event Strategies, que ajudou a organizar o comício de Trump de 6 de janeiro de 2021, antes do ataque ao Capitólio, recebeu mais de sete milhões de dólares, cerca de 6,1 milhões de euros, em contratos relacionados com o aniversário, incluindo serviços de segurança, design e organização de eventos oficiais.
Além do financiamento público, a Freedom 250 atraiu patrocinadores privados como ExxonMobil, Oracle, Lockheed Martin, Palantir, MasterCard, Northrop Grumman, RTX, UFC, United Airlines e John Deere.
Não são apenas logótipos numa festa nacional. São petrolíferas, tecnológicas, empresas de defesa, companhias aéreas e grupos com contratos federais, interesses regulatórios ou processos pendentes junto do Governo.
O primeiro fim de semana da feira também expôs problemas de organização. Os portões abriram com atraso, ainda havia operários a retirar materiais de construção e registaram-se falhas intermitentes de energia. Na zona de restauração, a sanduíche Original Liberty, feita com manteiga de amendoim e creme de marshmallow, era vendida por 13 dólares, cerca de 11 euros.
Alguns vendedores tiveram de abrandar o serviço sempre que a energia falhava. Um funcionário avisava os visitantes de que a água estava à temperatura ambiente porque ainda não havia gelo. Na grande festa patriótica de verão, até as bebidas estavam mornas.
A roda gigante, que deveria ser uma das atrações mais visíveis e fotografadas do evento, também funcionou de forma intermitente devido a um gerador com defeito. A imagem tornou-se difícil de ignorar: uma celebração pensada para projetar grandeza nacional, mas cujo símbolo mais vistoso nem sempre conseguia arrancar.
Nos pavilhões estaduais, o retrato da unidade americana também apareceu incompleto. Montana levou um esqueleto de dinossauro e uma referência à paleontologia. A Louisiana recebeu visitantes com colares de Mardi Gras. Idaho e Michigan apresentaram vacas de plástico para as crianças “ordenharem” uma versão encenada da América rural.
Outros espaços eram bem mais modestos: cadeiras baixas, colagens de fotografias, plantas de plástico e pouca coisa que representasse verdadeiramente o estado em causa. No espaço de Connecticut, a frase mais ouvida era que “não há muito para ver aqui”.
Pelo menos oito estados, na maioria governados por democratas, recusaram enviar delegações próprias, devido aos custos de participação. Os organizadores preencheram esses vazios com pavilhões genéricos e entusiasmo administrativo, mas o resultado acabou por mostrar a ausência da unidade que a feira pretendia exibir.
A controvérsia não ficou por aí. Mais de metade dos artistas convidados terão desistido depois de perceberem que o evento, apresentado inicialmente como apolítico, estava a ganhar uma leitura claramente alinhada com Trump.
E depois há Melania. Não a primeira-dama, mas uma vitela loira enviada da Virgínia Ocidental, batizada em homenagem à mulher do presidente por um estudante de 15 anos que viu semelhanças na cor do pelo do animal.
Noutro contexto, seria apenas uma curiosidade de feira. Aqui, tornou-se quase uma metáfora involuntária: numa celebração que deveria pertencer a todos os Estados Unidos, até o gado parece acabar em órbita do nome Trump.
A América faz 250 anos, mas a grande festa organizada em Washington mostra um país menos preocupado em construir uma memória comum do que em disputar quem tem o direito de a encenar.














