Formada em Ciência Política e Relações Internacionais, começou em Portugal, na Fábrica de Startups. Mas rapidamente saltou para o mundo mais corporativo, global e internacional. Esteve na Amazon Web Services (AWS), em Madrid, onde teve como base de trabalho o ecossistema tecnológico e de cloud; passou por Bruxelas, pela Comissão Europeia, onde entregou os dias à Direção-Geral de Investigação e Inovação; e, em 2023, chegou à Procter & Gamble, tendo integrado a equipa de inovação global e, a partir da qual, progrediu rapidamente para cargos de gestão. Antes, e pelo meio de tudo isto, foi fundadora de uma startup, professora assistente na Católica SBE e no ISEG, é autora do livro “O Acelerador de Carreiras” e co-fundadora da ONG Ponto Zero (juntamente com Mafalda Rebordão), que promove a mentoria em Portugal através de um podcast homónimo e da C-Level Mentorship
Academy. Além disso, Sara Aguiar consegue tempo para o Conselho da Diáspora Portuguesa, rede que integra desde 2024 e participa de forma activa no Fórum Económico Mundial, como Global Shaper no hub de Genebra.
O que diz Sara? Que o facto de ter desenvolvido modelos mentais humanizados e sistémicos a ajudou «a ser mais inovadora, mesmo quando o desafio é redefinir modelos de negócio ou lançar produtos através da tecnologia e não de geopolítica.»
O QUE DIZ SARA
Passou por seis países diferentes ao longo da sua carreira. Quando percebeu que precisava de sair de Portugal para crescer na área da inovação e tecnologia?
Na verdade, a vontade de sair de Portugal surgiu antes do meu interesse profissional pela inovação e tecnologia. As minhas primeiras experiências internacionais aconteceram ainda enquanto estudante, com o objectivo de expandir horizontes, desafiar perspectivas e acelerar aprendizagens. Essas experiências acabaram por tornar-se alavancas úteis para a minha carreira, embora mais como consequência do que como condição. Isto é, não emigrei por sentir que precisava de sair para crescer na minha carreira, mas para crescer enquanto pessoa e profissional, com outro tipo de competências e ferramentas, a que não teria acesso conhecendo apenas a realidade do meu país.
Trabalhou em Bruxelas, Madrid e agora Genebra. Como é que estas experiências mudaram a sua visão sobre inovação?
Estas experiências mostraram-me, sobretudo, que a inovação depende menos de ideias certas e mais de contexto, talento, incentivos e ecossistemas certos. Em Bruxelas, na Comissão Europeia, compreendi o papel das instituições internacionais e das políticas públicas para influenciar esses factores na sociedade. Em Madrid, num hub europeu de uma multinacional norte-americana, tive uma visão privilegiada sobre a sua importância para criar e escalar produtos tecnológicos globalmente. Em Genebra, experienciei o papel que organizações incumbentes assumem no investimento, disseminação e transformação de conhecimento em valor económico. Todas elas evidenciaram, ainda, que não existe uma fórmula única para acertar – há muitos caminhos férteis para inovar -, e que a inovação é um motor de desenvolvimento para o qual a diversidade é o melhor oleador.
Trabalha com IA na optimização de modelos de negócio. A sua formação em Ciência Política influencia a sua abordagem?
A minha formação em Ciência Política e Relações Internacionais ensinou-me a observar e compreender sistemas complexos moldados pelo comportamento humano e inovar é, no fundo, exactamente isso. Resolver problemas de grande impacto e gerir recursos de forma eficiente para melhorar continuamente soluções são pontos comuns entre as duas áreas. Além disso, os maiores bloqueios à inovação raramente são tecnológicos; são organizacionais, culturais ou estratégicos. Por isso, ter desenvolvido modelos mentais humanizados e sistémicos ajudou-me a ser melhor inovadora, mesmo quando o desafio é redefinir modelos de negócio ou lançar produtos através da tecnologia e não de geopolítica. Além disso, crescer num país pequeno, habituado a adaptar-se, a encontrar soluções criativas com recursos limitados e a esforçar-se para multiplicar possibilidades, como Portugal, também acabou por ser uma influência relevante na minha abordagem à inovação.
Como compara o ecossistema de inovação da Suíça com o de Portugal?
A Suíça tem um sistema de colaboração forte entre universidades, investigação, capital e indústria, além de uma enorme estabilidade institucional. Para além disso, soube identificar os sectores estratégicos que podia cruzar e potenciar enquanto país. Portugal ainda está a construir essa visão e algumas dessas pontes, mas evoluiu muito nos últimos anos. O grande desafio ainda passa por escalar mais empresas globais e reforçar a ligação entre academia, instituições e mercado. Temos os ingredientes, só precisamos de os direccionar e continuar a fortalecer enquanto ecossistema.
Passou do mundo das startups para uma multinacional como a P&G. Quais foram os maiores desafios na transição?
Inovar dentro de grandes organizações é muito diferente de inovar com startups. Criar novos produtos ou serviços pode ser tão ou mais desafiante do que transformar produtos ou serviços que já provaram o seu valor. Numa empresa global – como as que conheci por dentro, a Amazon e a P&G – com milhões de clientes, milhares de colaboradores e receitas de biliões, a realidade é
quase oposta à de uma startup. É necessário gerir um nível de risco muito superior, navegar mais processos, alinhar mais pessoas e gerir mais prioridades e dependências. Isto torna a inovação mais distribuída, mais lenta e, quase sempre, mais incremental do que disruptiva, mesmo com mais recursos e escala. Por isso, competências de influência, mobilização e gestão da mudança deixam de ser apenas úteis e tornam-se essenciais.
Há competências mais relevantes para liderar a inovação actualmente?
Fala-se muito de perfis diferentes de liderança para liderar hoje vs. no passado, e eu concordo que alguns modelos precisam de ser ajustados. Ainda assim, diria que as competências-base mais críticas, principalmente para liderar inovação, são as mesmas. Curiosidade intelectual constante, permeabilidade a nova informação, adaptabilidade a novas realidades ou inteligência emocional, que me parecem as primeiras da lista, podem até ser mais necessárias actualmente do que eram antes, tendo em conta o ritmo de mudanças socioeconómicas sem precedentes que estamos a viver, apesar de terem sido sempre essenciais. Até porque a inovação é muitas vezes apresentada como uma questão de tecnologia, só que, mais uma vez, continua a ser, acima de tudo, uma questão humana.
Como co-fundadora do projecto Ponto Zero, como consegue manter impacto em Portugal estando a viver fora?
O Ponto Zero nasceu da tentativa de criar pontes entre diferentes gerações, sectores e perspectivas em e com Portugal. Já depois de ter passado por alguns países e organizações, tornou-se claro que, na maioria destes contextos internacionais, o conceito e a prática da mentoria eram muito populares. Já em Portugal, muito pouco, apesar do potencial de impacto que representa enquanto recurso para acelerar carreiras, criar oportunidades e desenvolver talento. A ideia era contribuir para mudar essa realidade através da nossa própria experiência. Talvez por herança do meu lado mais interventivo da política ou da ligação emocional às minhas origens, sempre quis manter-me ligada ao meu país e encontrar formas de contribuir para o seu desenvolvimento enquanto vivia fora, e o Ponto Zero foi o primeiro projecto a partir do qual pude fazê-lo. Acredito genuinamente que, quando há vontade de manter essa ligação e de transformar aprendizagem e rede em contributo, as experiências internacionais dos portugueses podem gerar muito valor para Portugal, mesmo enquanto ainda as estão a viver e não apenas quando regressam.
No grupo «O Futuro Já Começou», que perspectiva diferente pode a diáspora trazer para o debate sobre Portugal?
A diáspora tem a vantagem de conseguir olhar para Portugal com proximidade emocional e distância analítica ao mesmo tempo. Quem vive fora está exposto a outras formas de trabalhar, inovar e resolver problemas, o que permite questionar algumas das nossas premissas e trazer novas referências.
Há cerca de dois anos foi considerada uma “das jovens mais promissoras do País, a manter debaixo de olho” pela revista Sábado. O que significou para si e que impacto teve na sua carreira?
Fiquei naturalmente honrada e feliz com a menção, porque ver o nosso trabalho reconhecido a nível nacional é muito gratificante, sobretudo quando se está lado a lado com jovens incrivelmente talentosos e talentosas nas suas diferentes áreas. No entanto, foi também um incentivo para continuar a aprender, a explorar e a contribuir, e um lembrete amigável de que ainda é preciso furar muitas bolhas e dar voz e palco a muitos mais jovens.
Que conselho daria a jovens portugueses que querem construir uma carreira internacional sem perder a sua identidade?
Diria que a prioridade não é preservar a identidade; é construí-la. Quanto melhor nos conhecemos – os nossos valores, princípios, objectivos -, mais fiéis somos a nós próprios, mais intencionais na forma como vivemos a nossa vida, e mais fácil é navegar diferentes culturas sem nos perdermos pelo caminho. A experiência internacional não é uma substituição daquilo que somos, é uma expansão. Quanto mais contacto temos com diferentes perspectivas, mais oportunidades temos para refinar a nossa própria visão do mundo, que é inevitavelmente influenciada pelas nossas origens, pela nossa cultura e pelo percurso que nos trouxe até aqui, mas tão mais rica quanto mais diversa. Por isso, uma carreira internacional não tem de representar uma ameaça à nossa portugalidade, nem sequer necessariamente uma ruptura com Portugal. Representa precisamente o contrário: a possibilidade de alargar a relação com o nosso País para além dos limites de uma fronteira e de partilhar o seu valor com outros países e nacionalidades, levando-o mais longe.














