Foi com essa convicção que Pedro Santos e Susana Nobre avançaram com um projecto que combina investimento privado, proximidade local e ambição nacional para responder ao défice de vagas e elevar os padrões de qualidade no ensino pré-escolar.
Com quase três décadas de experiência no sector, o casal identificou uma lacuna clara no mercado: a escassez de creches de pequena e média dimensão, próximas das famílias e com gestão dedicada. Através de um modelo híbrido — que junta participação societária com empresários locais e contratos de franchising — a The Sailors prepara-se para atingir 40 colégios até 2027, incluindo presença em distritos do interior e um projecto piloto de internacionalização em Espanha e no Brasil.
À Executive Digest, os fundadores defendem que «a educação é a base de sustentabilidade de desenvolvimento do nosso país», analisam o impacto da medida “Creche Feliz”, os desafios de recursos humanos e explicam como pretendem contribuir para reduzir assimetrias regionais, fixar população e reforçar a qualidade da oferta educativa privada em Portugal.
Como nasce a The Sailors e que lacuna identificaram no mercado da educação infantil privada em Portugal?
Eu e a minha esposa, Susana Nobre, estamos no sector da educação desde o ano de 1997 (há quase 30 anos), através de colégios e actividades infantis. Após essa experiência enquanto sócios de uma empresa de colégios, decidimos no ano de 2019 criar um projecto exclusivamente próprio através da constituição da sociedade SNI, Lda, a qual é detentora da marca The Sailors.
Em função dessa nossa forte experiência no sector, identificámos como grandes carências em Portugal uma falta muito significativa no mercado de creches com qualidade e proximidade. Por um lado, verificava-se um aumento significativo da procura, com carência de oferta privada de creches de proximidade e, por outro lado, constatávamos a inexistência de grupos especializados na educação infantil, na vertente de creches e jardins de infância.
Esta carência de creches de proximidade e de pequena e média dimensão era, à data, uma evidência também em concelhos do interior e em pequenas cidades. Neste sentido implementámos o conceito de creches e jardins de infância com pequena e média dimensão, com serviço de proximidades às famílias e com um serviço de excelência e de máxima qualidade.
Em que se diferencia o vosso modelo de gestão dos grupos tradicionais de ensino privado?
Na The Sailors desenvolvemos uma estratégia de expansão dos nossos colégios, através de parcerias com empresários locais, os quais assumem a função de director de cada colégio, além de sócio. Este facto está relacionado com a necessidade de garantir uma gestão de máxima qualidade e responsabilidade, pois sendo os colégios de pequena e média dimensão, acreditamos que o sucesso e garantia de qualidade passa pelo sócio assumir a direcção do negócio. Não é objectivo criar um grupo com colégios apenas geridos centralmente a partir de Lisboa ou Porto.
Para esse efeito, na The Sailors, além de determos dois colégios a 100% (Matosinhos e Braga), criámos um modelo de expansão no qual somos accionistas através de um modelo de participação de 50%/50%, em parceria com o empresário e director local, por forma a atingir esse objectivo de expansão sustentada.
Nesse sentido, abrimos no ano de 2025 um total de 6 colégios neste modelo de participação societária, nos distritos de Bragança, Porto e Leiria. Estamos actualmente em preparação de abertura de outros 6 novos colégios no mesmo modelo societário, nos distritos de Vila Real, Porto, Lisboa, Santarém e Portalegre. É objectivo de, até ao final do ano, atingirmos um total de 20 colégios, neste modelo em que detemos 50% em parceria com empresário e gestor local. Em alguns casos, podemos entrar no capital de colégios existentes, mantendo-se o proprietário e director em parceria com a The Sailors.
Como funciona, na prática, o modelo de parceria com empresários associados?
Além do modelo indicado acima de co-investimento conjunto na abertura ou aquisição de colégios com um empresário local, em outros casos implementamos o modelo de empresário independente associado, através do qual o empresário detém 100% do colégio, beneficiando de todo o know-how, marca, metodologias, formação e apoio da The Sailors.
Este modelo de expansão através de empresários independentes, é regulado através de um contrato de franchising. O modelo de funcionamento do colégio é idêntico, alterando apenas a detenção do capital social desse colégio, o qual é detido por um empresário associado independente.
Que perfil de investidores procuram captar?
Os parceiros investidores que procuramos são profissionais que tenham como paixão e objectivo de vida deter uma creche ou colégio e garantir a sua direcção e gestão. Procuramos profissionais com este perfil e não investidores financeiros que procurem o investimento puro num colégio.
Num contexto económico desafiante, por que razão a educação continua a ser um sector atractivo para investidores privados?
A educação é a base de sustentabilidade de desenvolvimento do nosso país.
O sector das creches (0 aos 3 anos) em Portugal é hoje bastante diversificado e atravessa uma fase de profunda transformação. Falamos de cerca de
2.500 creches, com uma estrutura mista, onde coexistem o sector social — maioritariamente IPSS, misericórdias e cooperativas — e um sector privado com um peso muito relevante, sobretudo nos grandes centros urbanos e em zonas com maior poder de compra.
É um sector fortemente regulado pelo Instituto da Segurança Social, que desempenha um papel absolutamente central na garantia da qualidade. Existe um enquadramento legal muito rigoroso ao nível do licenciamento, dos rácios adulto/criança, das qualificações obrigatórias das equipas, das instalações e da segurança. Esse rigor é essencial para assegurar o bem-estar dos bebés e crianças e para a credibilidade do próprio sector.
A introdução da medida “Creche Feliz”, a partir de 2022/2023, marcou um ponto de viragem. A gratuitidade das creches trouxe um aumento muito significativo da procura e uma pressão acrescida sobre as vagas existentes. Para as instituições, isso traduziu-se numa maior dependência do financiamento público e em dificuldades acrescidas na contratação e retenção de educadores, com impactos directos nos custos salariais. Para as famílias, o efeito foi muito positivo: maior conciliação entre trabalho e vida familiar, redução substancial dos encargos mensais e um contributo claro para a maior participação das mulheres no mercado de trabalho. Do ponto de vista económico e social, a medida reforçou a função social das creches, apoiou a natalidade, reduziu desigualdades no acesso à educação precoce e consolidou a ideia de que este é um sector claramente educativo e não apenas assistencial.
Apesar destes avanços, o sector enfrenta um défice estrutural de vagas, especialmente na Grande Lisboa, Grande Porto, Braga, Leiria e em várias zonas urbanas e do litoral em crescimento. As listas de espera são uma realidade frequente. A par disso, os recursos humanos são hoje o principal ponto crítico, com uma escassez significativa de educadores de infância, particularmente na Grande Lisboa e no Algarve, o que condiciona a qualidade, a expansão e a estabilidade das equipas.
Comparativamente a outros países europeus, Portugal está num caminho positivo, mas ainda longe dos modelos nórdicos, onde a cobertura é quase universal e a creche é encarada como um direito da criança. Estamos mais avançados do que outros países do Sul da Europa, como Espanha ou Itália, mas continuamos a ter desigualdades regionais e uma cobertura insuficiente no grupo etário dos 0 aos 3 anos.
Abrir ou gerir uma creche em Portugal implica ultrapassar barreiras relevantes, desde logo ao nível do licenciamento e do investimento inicial. Os principais desafios passam pela gestão de recursos humanos, pelo cumprimento rigoroso dos requisitos legais e pela resposta a expectativas das famílias cada vez mais exigentes. Ainda assim, existem oportunidades claras, nomeadamente em projectos pedagógicos diferenciadores, creches integradas em grupos, parcerias com empresas, modelos de proximidade no interior do país e soluções inovadoras, como horários flexíveis ou serviços complementares.
Neste contexto, o papel da ACPEEP — Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos de Ensino Particular — tem sido fundamental. Trata-se de uma associação sem fins lucrativos que representa o sector a nível nacional e que tem desempenhado um trabalho muito relevante na consolidação das creches em Portugal, funcionando como ponte entre os seus associados e as entidades de tutela e contribuindo para a profissionalização e sustentabilidade do sector.
Os nossos projectos são altamente qualificados, garantindo uma qualidade e responsabilidade máxima no cuidado, pedagogia, segurança, alimentação e bem-estar das nossas crianças. Por este motivo, a procura existente nos nossos colégios tem garantido uma ocupação quase a 100% das nossas creches.
O objectivo de abrir 20 colégios em apenas dois anos é bastante ambicioso. Quais são os principais desafios dessa expansão acelerada?
O plano de abertura de 20 colégios detidos a 100% pela The Sailors ou em parceria no capital com empresários locais, é ainda complementado com outros 20 colégios detidos por empresários independentes associados. O total de 40 colégios será atingido em 2027.
O objectivo desta expansão é dar resposta às milhares de vagas por preencher nas creches em Portugal, segundo os dados oficiais do Ministério da Segurança Social. Além disso, pretendemos que esta resposta esteja disponível para as populações do interior.
Além dos nossos colégios nos principais centros urbanos de Braga, Porto, Leiria e Lisboa, detemos projectos em distritos, como Viana do Castelo, Vila Real, Bragança, Portalegre, Santarém e Setúbal, sendo objectivo atingirmos uma cobertura de creches no final de 2027 na maioria dos distritos nacionais, incluindo Madeira e Açores.
Levar uma estrutura de “grande cidade” a vilas mais pequenas pode ter um impacto significativo. Que papel querem desempenhar no desenvolvimento local?
Tem sido uma experiência incrível poder assegurar respostas às famílias em meios rurais e do interior. Nestes locais, tem sido de realçar o apoio prestado pelas entidades regionais, tais como as Câmaras Municipais e Centros Distritais de Segurança Social, em função das necessidades das populações em poderem usufruir desta resposta social de proximidade.
A título meramente exemplificativo, as entidades locais de cidades como Macedo de Cavaleiros (Bragança), Vila Real, Penalonga (Marco de Canaveses-junto ao Douro), Salvaterra de Magos e Portalegre, têm manifestado um forte apoio a estes projectos, dentro do enquadramento legal existente.
A fixação das populações jovens e atracção de novas famílias para estes meios do interior tem como condição essencial a existência de uma oferta de creches e jardins de infância que permita assegurar que os pais desenvolvam as suas actividades profissionais, deixando os seus filhos ao cuidado de uma instituição de confiança e com todas as garantias de qualidade e serviço.
Neste sentido, consideramos que o nosso serviço permite assegurar a sustentabilidade da qualidade de vida, promovendo a fixação das populações e a atracção de novas famílias para residirem em meios fora das grandes cidades.
Acreditam que este modelo pode ajudar a reduzir assimetrias no acesso à educação privada de qualidade?
Sim. O Governo e o Instituto de Segurança Social implementaram um programa de creches gratuitas e acessíveis para toda a população, chamado “Creche Feliz”. Este programa permite que as famílias disponham da oferta de creche, quer seja uma resposta social desenvolvida por entidades públicas, instituições particulares de solidariedade social (IPSS) ou entidades privadas, desde que sejam protocoladas para este efeito. Este programa permite às famílias obterem uma resposta de proximidade e de qualidade, incluindo no sector privado, nos casos em que a oferta pública ou social não garante o acesso.
Por outro lado, as creches de pequenas e média dimensão, geridas pelo próprio, com presença local The Sailors, assegura um serviço «familiar» de máxima qualidade, reduzindo as assimetrias no acesso de toda a população a este serviço essencial de qualidade.
Este modelo é replicável fora de Portugal ou o foco continuará a ser o merca-do nacional?
O principal foco é o mercado nacional. No entanto, estamos a desenvolver um projecto piloto de expansão futura em Espanha e Brasil, seguindo a mes-ma estratégia.
Que novos projectos e parcerias estão em cima da mesa?
A The Sailors tem em implementação um conjunto de projectos muito significativos. Por um lado, está a desenvolver um programa de formação intensa e permanente para a totalidade dos recursos humanos da marca, incluindo educadoras, auxiliares de educação, directores e outro pessoal de apoio.
Este projecto permite uma formação diária e contínua, certificando os nossos colaboradores em todas as boas práticas necessárias ao desenvolvimento de um serviço de excelência. É suportado por uma plataforma própria de formação online, recorrendo também a ferramentas de inteligência artificial e garantindo que a totalidade das centenas de recursos humanos da The Sailors seja certificada em todos os módulos internos de formação.
Por outro lado, a The Sailors está a preparar um projecto de solidariedade social na área da infância, que será apresentado em breve.














