Com mais de 120 milhões de euros em activos sob gestão e um novo fundo em preparação, a ActiveCap reforça a aposta em PME portuguesas com potencial de internacionalização. Em entrevista à Executive Digest, Pedro Correia da Silva,CEO e Founding Partner da ActiveCap, explica como pretende colmatar o défice de capital de crescimento em Portugal e acelerar a transformação de empresas nacionais em plataformas competitivas à escala global.
A ActiveCap, enquanto sociedade gestora de fundos de capital de risco ‘made in Portugal’, está há quantos anos no mercado?
Nasceu em 2018 e lançou o seu primeiro fundo, ActiveCap I, no final de 2019. Desde então, tem vindo a consolidar a sua presença no mercado português de private equity, contando actualmente com sete anos de actividade.
Ao longo deste percurso, a empresa tem mantido um foco claro em empresas portuguesas com potencial de crescimento, profissionalização e internacionalização, posicionando-se como um parceiro activo na criação de valor de médio e longo prazo.
Actualmente, quantos fundos gere e qual o valor dos activos sob gestão?
Gerimos seis fundos distribuídos por diferentes estratégias de investimento, com mais de 120 milhões de euros em activos sob gestão. A ActiveCap prepara agora o lançamento de um novo fundo, ActiveCap III, dentro da sua estratégia core – Growth Equity, dando seguimento a uma estratégia de investimento que tem permitido capitalizar empresas para financiarem o seu crescimento internacional.
Após o lançamento deste fundo, esperamos atingir os 250 milhões de euros de activos sob gestão nos próximos dois a três anos.
Estamos a meio do ano e qual é o balanço que faz do arranque de 2026 (em linha com as expectativas?) e quais são as perspectivas até ao final do ano?
O arranque de 2026 está alinhado com as expectativas da gestora, sobretudo ao nível do pipeline de oportunidades e da execução da estratégia de investimento. A ActiveCap revelou ter actualmente cerca de 170 milhões de euros em oportunidades em análise, o que reflete não só um fluxo robusto de deal flow, mas também uma crescente procura de capital por empresas com ambição de crescimento e internacionalização.
Até ao final do ano, a expectativa passa por concluir mais três a quatro investimentos, no fundo ActiveCap II, o que poderá permitir encerrar o período de investimento do fundo com um portefólio de oito a nove empresas.
Paralelamente, continuaremos a preparar o lançamento de novas estratégias e mecanismos de investimento, com o objectivo de assegurar diversificação e uma maior capacidade de captação de capital internacional.
Porquê a aposta exclusiva em empresas nacionais?
A ActiveCap nasceu com a convicção de que existe, em Portugal, um défice estrutural de capital de crescimento para PME já maduras e com ambição de expansão internacional.
Nos últimos anos, muitos fundos internacionais aumentaram significativamente os seus tickets médios de investimento, deixando de olhar para empresas portuguesas de média dimensão. Isso criou uma clara lacuna no mercado – precisamente o espaço onde nos posicionamos.
A estratégia da ActiveCap passa por identificar empresas nacionais com forte potencial de crescimento, que são competitivas e reconhecidas na qualidade dos produtos ou serviços, mas ainda não conseguiram obter a escala que lhes permita operar sustentadamente no mercado global. A estratégia passa por capacitar estas empresas de recursos (financeiros e humanos) para ganharem mais capacidade produtiva, ou por movimentos de consolidação e suporte à internacionalização, ou seja, ajudá-las a criar escala global.
Mais do que disponibilizar capital, procuramos actuar como parceiros activos na criação de valor e no desenvolvimento de futuras empresas de referência portuguesas, nos mais diversos sectores.
“Making Good Companies Great”. Fale-nos um pouco sobre a vossa estratégia de investimento e de que forma é que ‘transformam’ e ‘ajudam’ as empresas.
O posicionamento da ActiveCap assenta numa lógica de partnership de longo prazo com empresas portuguesas já estabelecidas, tipicamente com mais de dez milhões de euros de facturação, mas ainda com elevado potencial de crescimento e internacionalização.
A nossa estratégia passa por investir através de aumento de capital, detendo posições minoritárias relevantes, normalmente acima de 20%, permitindo alinhar interesses com os fundadores e equipas de gestão, enquanto disponibilizamos recursos para acelerar crescimento, expansão internacional e processos de consolidação sectorial.
Mas o conceito de “Making Good Companies Great” vai muito além do investimento financeiro: a ActiveCap participa activamente na gestão estratégica, ajuda a institucionalizar processos de decisão, reforça equipas de gestão, promove e estrutura operações de aquisições e/ou fusões, preparando as empresas para os mercados internacionais. O objectivo? Transformar boas empresas nacionais de média dimensão em plataformas com escala europeia ou global, muitas vezes duplicando ou triplicando a facturação num horizonte de quatro a seis anos.
Além do capital financeiro, a ActiveCap disponibiliza capital humano. Pode dar um exemplo de como dotar uma PME de escala e crescimento orgânico transformou uma das vossas participadas numa empresa competitiva a nível global?
A criação de valor acontece sobretudo através da componente operacional e estratégica dentro das empresas participadas. A generalidade das empresas são já muito especializadas, com produtos competitivos à escala global, mas mesmo estas necessitam de uma estrutura organizacional e estratégia de âmbito internacional para desbloquear o seu potencial de crescimento.
O nosso papel passa também por encontrar parceiros globais que suportem este processo de transformação: um exemplo, que julgamos ilustrar este esforço, foi a decisão de reforçar as primeiras linhas de gestão de uma participada, tendo no caso concretizado a contratação de um director comercial global (CCMO), domiciliado no país com maiores vendas desta participação, com experiência comercial global e oferecendo condições atractivas nesse mercado e alinhadas com os objectivos de crescimento.
Entre 2022 e 2025, a ActiveCap investiu cerca de 25 milhões de euros. Dada a enorme heterogeneidade dos sectores — de software e drones até à doçaria regional e frutos tropicais — qual é o fio condutor que podemos encontrar nestas oportunidades de negócio?
Embora os sectores sejam bastante diversificados, existe um denominador comum muito claro: empresas portuguesas com capacidade de internacionalização, posicionamento diferenciador e, muito importante, o potencial de escala.
A ActiveCap assume-se como “sector agnostic”, precisamente porque acredita que o valor pode surgir tanto em indústrias tradicionais como em negócios tecnológicos. O critério principal não é o sector em si, mas sim a capacidade da empresa crescer de forma sustentável, exportar, consolidar mercados e tornar-se mais competitiva a nível europeu ou global. No entanto, a diversificação sectorial constitui um elemento importante de mitigação de risco, permitindo construir portefólios resilientes e equilibrados ao longo dos diferentes ciclos económicos.
Têm algum sector preferido ou algum em que gostassem de estar presentes mas ainda não o fizeram?
Apesar de não termos uma lógica de investimento centrada num sector específico, existe uma maior atractividade por sectores com forte capacidade exportadora e/ou potencial de internacionalização, com produtos ou serviços de maior valor acrescentado. No entanto, mais do que procurar sectores “consensuais”, privilegiamos empresas com equipas sólidas, vantagens competitivas claras e potencial de consolidação internacional. É esta combinação entre ambição, execução e potencial de crescimento sustentável que, para nós, define uma oportunidade de investimento atractiva.
Destacam a integração de critérios ESG e ODS na vossa estratégia. De que forma é que esta “abordagem sustentável” é medida e que impacto real tem tido na performance das empresas participadas?
Na ActiveCap, a incorporação de critérios ESG e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é encarada como parte integrante da criação de valor de longo prazo e não apenas como componente de reporting.
A nossa abordagem passa por incorporar estes critérios ao longo do processo de investimento, identificando os critérios relevantes por empresa/sector e definindo objectivos a atingir para cada critério durante o período de detenção e acompanhamento de cada participada dos fundos.
Os principais ODS que acompanhamos incluem a melhoria das práticas de governance, o reforço dos modelos de gestão de risco e a promoção de uma maior sustentabilidade operacional.
Embora nem sempre existam métricas públicas uniformizadas para todas as empresas do portefólio, o impacto desta abordagem é bastante concreto. Empresas mais estruturadas do ponto de vista ESG tendem a tornar-se mais resilientes, mais eficientes operacionalmente e mais atractivas para investidores institucionais e parceiros internacionais. Além disso, estão normalmente mais bem preparadas para processos de internacionalização, consolidação ou até futuras operações no mercado de capitais.
Quais são as grandes metas da ActiveCap para a próxima década no que toca ao apoio à inovação e ao crescimento económico sustentável em Portugal?
A nossa ambição passa por consolidarmo-nos como uma plataforma portuguesa de private equity com dimensão e capacidade para apoiar o crescimento de empresas nacionais à escala europeia e global.
Nos próximos anos, pretendemos aumentar os activos sob gestão, e assim aumentar a capacidade de apoiar ainda mais empresas, através do lançamento de novos fundos e estratégias de investimento. Ou seja, reforçar a nossa capacidade de continuar a atrair capital internacional para Portugal e aplicar este capital no apoio a PME nacionais na sua transformação em líderes internacionais.
Neste contexto, a ActiveCap vê o capital de risco como um instrumento cada vez mais determinante para a modernização e competitividade da economia portuguesa, não apenas enquanto fonte de financiamento, mas como catalisador de transformação operacional, criação de emprego qualificado e crescimento sustentável de longo prazo.














