As empresas continuam a recrutar demasiado tarde

Opinião de Carlos Gonçalves, National Staffing Director da Adecco Portugal

Carlos GonçalvesCarlos GonçalvesNational Staffing Director da Adecco PortugalVer todos os artigos
Carlos Gonçalves
Carlos GonçalvesNational Staffing Director da Adecco PortugalAgosto 19, 2026 11:11

Durante décadas, as empresas aprenderam que antecipar o mercado era uma vantagem competitiva. Investiram em cadeias de abastecimento mais eficientes, em sistemas de previsão da procura, em tecnologia capaz de aumentar a capacidade produtiva e em modelos de gestão que permitissem reduzir tempos de resposta. A lógica era simples: quanto maior a capacidade de antecipar necessidades, maior a capacidade de competir.

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No entanto, continua a existir uma dimensão onde muitas organizações atuam de forma reativa: as competências de que dependem para executar o seu negócio.

Ainda hoje, muitas empresas só equacionam reforçar as equipas quando conquistam um novo contrato, a produção aumenta ou surge uma oportunidade inesperada. O problema é que, num mercado cada vez mais volátil, essa resposta chega frequentemente tarde.

Os ciclos de procura são mais curtos, os projetos arrancam com menor antecedência e a pressão para executar rapidamente tornou-se um fator de competitividade. Quando uma empresa identifica uma oportunidade, espera-se que tenha capacidade para responder de imediato. É precisamente aqui que muitas organizações descobrem que o verdadeiro fator limitador do crescimento já não é a falta de investimento, de tecnologia ou até de clientes. É a incapacidade de mobilizar as competências certas no momento em que o mercado as exige.

Durante muito tempo, o staffing foi encarado como uma função de resposta operacional. Surgia uma necessidade, iniciava-se um processo de recrutamento, ou seja, era um modelo compatível com mercados relativamente previsíveis. Hoje, esse intervalo praticamente desapareceu.

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As organizações que continuam a esperar que a necessidade surja para só depois procurarem talento estão, muitas vezes, a competir em desvantagem. Não porque não existam profissionais qualificados, mas porque a velocidade do negócio já não acompanha os tempos tradicionais de recrutamento. É por isso que acredito que devemos começar a falar menos de recrutamento e mais de capacidade mobilizável.

Capacidade mobilizável é a aptidão de uma organização para aceder rapidamente às competências de que necessita, transformando talento disponível em capacidade de execução. Não significa manter estruturas sobredimensionadas, mas conhecer o mercado, desenvolver relações contínuas com profissionais qualificados e preparar hoje a capacidade que poderá ser determinante amanhã.

Esta mudança aproxima a gestão do talento daquilo que já acontece noutras áreas críticas da gestão empresarial. Tal como as organizações investem na resiliência das cadeias de abastecimento ou na redundância tecnológica para reduzir risco, também o acesso às competências críticas deve deixar de ser gerido apenas quando surge uma necessidade imediata.

Num contexto económico marcado pela volatilidade, antecipar capacidade deixou de ser uma vantagem operacional, tornou-se uma decisão estratégica. As empresas que conseguem crescer de forma consistente não são necessariamente aquelas que recrutam mais depressa, são aquelas que reduziram a distância entre uma oportunidade de mercado e a capacidade de a concretizar. Quando o negócio acelera, já construíram as condições necessárias para responder.

No futuro, acredito que a competitividade será cada vez menos determinada pela dimensão das estruturas e cada vez mais pela rapidez com que as organizações conseguem mobilizar conhecimento, competências e talento.

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Porque, num mercado onde a velocidade passou a ser um fator de competitividade, a questão já não é quantas pessoas uma organização tem, mas quão rapidamente consegue transformar competências em capacidade de execução.

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