A eólica offshore surge, assim, não apenas como uma extensão natural do percurso feito em terra, mas como uma oportunidade para reposicionar o país numa nova cadeia de valor industrial, mais tecnológica e global.
Entre o potencial ainda por explorar, os primeiros projectos pioneiros e os desafios regulatórios e de investimento que persistem, o futuro desta indústria em Portugal entra agora numa fase decisiva. A ambição é clara: passar de utilizador eficiente de energia renovável a protagonista na sua produção, inovação e exportação. Resta saber se o país conseguirá transformar a vantagem geográfica e know-how acumulado em liderança efectiva num dos sectores mais promissores da próxima década.
EÓLICA DÁ ENERGIA A PORTUGAL
Os dados mais recentes mostram que a energia eólica voltou a assumir um papel central no sistema eléctrico nacional. De acordo com o relatório WindEurope – European Stats 2024, Portugal produziu o equivalente a 28% do seu consumo de electricidade a partir do vento, um dos valores mais elevados da Europa e claramente acima da média da União Europeia (UE), que se fixou nos 19%.
No entanto, apesar da forte contribuição para o mix energético, o ritmo de crescimento da capacidade instalada foi reduzido. Em 2024, Portugal instalou apenas 45 MW de nova potência eólica, praticamente toda em projectos onshore. No final do ano, o país totalizava 5.963 MW de capacidade instalada, dos quais 5.938 MW em terra e 25 MW em offshore.
Os números contrastam com a dinâmica europeia. A União Europeia acrescentou 12,9 GW de nova capacidade eólica em 2024, sendo 11,5 GW em terra. Alemanha, Reino Unido e França lideraram as novas ligações à rede, reforçando a distância face a mercados de menor dimensão como o português no que respeita ao volume anual de novas instalações.
Ainda assim, Portugal mantém-se entre os países europeus onde a energia eólica tem maior peso no consumo eléctrico. A elevada penetração da tecnologia resulta de um percurso de investimento iniciado há mais de duas décadas, que colocou o país na linha da frente da transição energética. A nível europeu, a capacidade eólica total atingiu 285 GW no final de 2024, com previsões que apontam para uma média anual de 23 GW de novas instalações na UE até 2030.
Especialistas do sector têm alertado que o potencial português continua longe de estar esgotado, sobretudo no segmento offshore. Contudo, a aceleração do crescimento dependerá da simplificação dos processos de licenciamento, do reforço da capacidade da rede eléctrica e da criação de condições de investimento estáveis e competitivas.
Apesar do abrandamento nas novas ligações, os dados confirmam que a energia eólica permanece como um dos pilares da produção eléctrica nacional, consolidando o papel de Portugal entre os países europeus com maior incorporação de renováveis no consumo de electricidade.
NOVA INDÚSTRIA DO MAR
A energia eólica offshore está a ganhar protagonismo no debate sobre o futuro energético e industrial nacional, deixando de ser vista apenas como uma fonte de produção eléctrica para assumir um papel mais abrangente na transformação económica do país. Para José Partida Solano, head of Business Development da Repsol Renováveis, o potencial deste sector vai muito além da energia.
“A energia eólica offshore, e especialmente a eólica offshore flutuante, não deve ser vista apenas como uma forma de geração de energia. Para Portugal, representa uma oportunidade industrial estratégica capaz de ancorar indústrias de alto valor de fabrico, engenharia, desenvolvimento portuário e serviços marítimos”, sublinha. Num contexto em que a tecnologia flutuante ainda se encontra numa fase inicial de desenvolvimento global, o posicionamento dos países será determinante para capturar valor.
Portugal parte, aliás, com algumas vantagens competitivas. A experiência acumulada em áreas como a engenharia naval, os estaleiros e os serviços marítimos, aliada a projectos pioneiros como o WindFloat Atlantic, coloca o país numa posição relevante para integrar cadeias de valor internacionais. “Os países que estabelecerem planos de implantação estáveis e plurianuais poderão posicionar-se no centro de uma indústria emergente com potencial de exportação global”, destaca o responsável.
Mais do que uma questão energética, o desenvolvimento da eólica offshore pode traduzir-se num motor económico significativo. Segundo o responsável da Repsol Renováveis, “um compromisso contínuo com a energia eólica offshore pode gerar benefícios económicos significativos para Portugal”, desde a criação de emprego qualificado nas regiões costeiras até à atracção de investimento para infra-estruturas portuárias e industriais. A possibilidade de o país se tornar exportador de tecnologia e serviços especializados é também apontada como uma oportunidade real, sobretudo se houver escala e previsibilidade.
Além disso, esta fonte renovável poderá desempenhar um papel relevante na segurança energética e no cumprimento das metas climáticas, ao oferecer uma produção mais estável que complementa outras fontes como a solar ou a eólica terrestre. Ainda assim, o impacto dependerá, em grande medida, da capacidade de criar um ambiente favorável ao investimento.
Apesar do potencial, subsistem desafios. “Portugal está a avançar em direcção a um quadro offshore credível, mas certas áreas ainda precisam de clarificação para desbloquear totalmente o investimento”, alerta. Entre as principais barreiras estão a necessidade de maior visibilidade sobre o desenho dos leilões, a calendarização dos concursos e a ligação à rede eléctrica. Também as infra-estruturas portuárias exigem planeamento e investimento coordenado para responder às exigências dos projectos à escala comercial.
O processo de licenciamento é outro ponto crítico. Uma maior simplificação e previsibilidade nos prazos poderá reduzir significativamente a incerteza para os promotores. Ainda assim, José Partida Solano acredita que estas limitações são ultrapassáveis: “São questões solucionáveis e, com sinais políticos claros, Portugal pode posicionar-se entre os mercados eólicos flutuantes mais atractivos da Europa.”
Para acelerar o desenvolvimento do sector, o responsável aponta prioridades claras. Desde logo, a definição de um roteiro de longo prazo que estabeleça metas e áreas de desenvolvimento. A isto junta-se a necessidade de regras de pré-qualificação exigentes, preparação antecipada das infra-estruturas — nomeadamente rede e portos — e a criação de um enquadramento económico estável. “Por último, um regime económico estável e financiável, com indexação adequada e janelas de comissionamento flexíveis, dará aos investidores a confiança necessária para comprometerem capital em grande escala”, conclui.
WINDFLOAT ATLANTIC COLOCOU PORTUGAL NO MAPA
O projecto WindFloat Atlantic afirmou-se como um marco determinante para base para uma nova geração de projectos de maior escala e consolidando Portugal como um dos pólos de referência na eólica offshore flutuante.
BAYFLOAT: O SALTO INDUSTRIAL
O projeto BayFloat é um novo exemplo de afirmação de Portugal na cadeia de valor da eólica offshore flutuante, desta vez com um foco claro na industrialização e no desenvolvimento de soluções com potencial de escala. Liderado pela Etermar Energia, o projecto ‘Smart Floating Foundation’ aposta na criação de fundações flutuantes em betão com forte incorporação nacional.
«Numa primeira fase, o projecto está focado maioritariamente na investigação e desenvolvimento (I&D) de uma metodologia de fabricação e industrialização de fundações flutuantes inteligentes de betão armado para turbinas eólicas offshore», explica Luís Machado, director executivo da Etermar Energia. Assente numa lógica de produção local, acrescenta que «o projecto tem um enorme potencial para contribuir para a economia da sustentabilidade no mar».
Desenvolvido com o apoio do PRR e integrado na Agenda ATE, o BayFloat materializa-se como um verdadeiro laboratório em ambiente real. «O inovador conceito de plataforma flutuante semi-submersível que estamos a produzir nas nossas instalações em Setúbal, com o conceito BayFloat desenvolvido e patenteado pela empresa alemã BayWa r.e., funciona como um laboratório em ambiente real», sublinha. O objectivo imediato passa por testar e validar soluções: «ao testar um design inovador, já com certificação internacional de conceito DNV, estamos a validar a viabilidade das metodologias de construção e o potencial de industrialização».
O impacto esperado vai além da componente tecnológica. A médio prazo, o projecto pretende ajudar a estruturar uma nova fileira industrial no país. «A nossa expectativa é a de que este projecto contribua para o desenvolvimento da indústria nacional e de uma cadeia de valor especializada num sector com enorme potencial para o futuro e para a transição energética», afirma, destacando ainda o papel do betão como factor diferenciador: «a aposta numa solução em betão, por exemplo, favorece a utilização de recursos e conhecimento de engenharia locais».
Num contexto geopolítico marcado pela instabilidade, o reforço da autonomia energética europeia ganha ainda mais relevância. «O contexto geopolítico actual […] reforçam a urgência da independência energética da Europa, tornando-a uma questão de segurança, para além de uma meta ambiental», afirma Luís Machado, defendendo que Portugal tem condições para liderar esta nova fase da transição energética.
Nesse sentido, considera que “a energia eólica flutuante offshore pode ser essa nova fronteira”.
O projecto assume também um papel catalisador na economia nacional, estimulando a cadeia de abastecimento e promovendo inovação. “Concretamente, o potencial deste projecto para desenvolver a indústria nacional reside num efeito catalisador”, refere, explicando que a sua concretização irá gerar procura por materiais avançados e serviços especializados, ao mesmo tempo que cria oportunidades de carreira qualificadas e ajuda a atrair talento.
No plano internacional, a ambição passa por posicionar Portugal como exportador de conhecimento e capacidade industrial. “A nosso ver, o principal benefício para Portugal em termos de exportação não reside na tecnologia em si, mas no domínio do seu processo de industrialização”, sublinha. Mais do que vender tecnologia, o objectivo é exportar competências: “Acreditamos que o activo mais valioso a exportar é o nosso know-how: modelos de fabrico validados, processos logísticos optimizados, bem como a metodologia e a capacidade para produzir em série estruturas complexas”.
O percurso já iniciado pela indústria nacional reforça essa ambição. «A capacidade de Portugal para competir neste sector não é uma ambição futura, é uma realidade presente», afirma, apontando como exemplo o envolvimento da empresa em projectos internacionais de grande escala. Neste contexto, o BayFloat representa uma evolução natural: “Capitalizam as nossas capacidades de fabrico já demonstradas e aplicam-nas à tecnologia flutuante, que é o futuro para as águas profundas de Portugal e de muitos outros países”.
Mais do que um protótipo, o projecto é visto como um passo decisivo rumo à industrialização. “O propósito fundamental deste protótipo é precisamente o de servir de modelo para a industrialização em larga escala”, garante Luís Machado, acrescentando que este é “o projecto industrial piloto que nos permitirá optimizar processos e validar toda a cadeia de produção”.
O calendário já está definido: “prevemos concluir a construção em meados de 2026”, seguindo-se uma fase de monitorização de dois anos. “A partir de meados de 2028, esperamos ter a maturidade técnica e o processo industrial validados para avançar para a próxima fase deste projecto inovador”, afirma.
Com a indústria preparada para dar o salto, o desafio passa agora por alinhar investimento e estratégia nacional. “A indústria nacional, e a Etermar Energia em particular, estão prontas para dar o passo seguinte”, conclui, defendendo que só com uma visão de longo prazo será possível consolidar um ecossistema capaz de transformar inovação em valor económico — e posicionar Portugal como um hub europeu da eólica offshore flutuante.
FORMAÇÃO: O DESAFIO CRÍTICO DA NOVA INDÚSTRIA
O crescimento da eólica offshore em Portugal não se fará apenas com investimento e tecnologia — exigirá também uma transformação profunda ao nível das competências e da formação. Para Luís Coelho, director-geral da CEDROS, o impacto no mercado de trabalho será significativo e imediato.
“Permitirá a criação de emprego qualificado assente em critérios de supervisão e competência muito bem remunerados”, afirma, alertando, no entanto, para efeitos colaterais relevantes: “Será um problema para a indústria clássica porque assistirá à saída de quadros em várias áreas técnicas como engenharia, segurança no trabalho, logística, gestão de projectos… e fará aumentar necessidades ao nível de inspectores e auditores.”
A exigência técnica do sector obrigará a uma requalificação profunda dos profissionais. “Grande parte destes quadros terão de se submeter a formações especializadas, sobretudo ao nível das operações marítimas, o que impulsionará a cadeia de valor de forma relevante, gerando emprego indirecto em diversos sectores», sublinha, acrescentando que este movimento poderá contribuir para «a retenção de talento em Portugal e a uma atractividade de profissionais qualificados oriundos de todo o mundo”.
Neste contexto, as entidades formadoras assumem um papel central na preparação dos recursos humanos. “Como é um sector altamente competitivo e que exige competências muito especializadas e eficientes, as entidades formadoras devem ter capacidade de resposta e competências à altura das necessidades”, defende. Para tal, não basta apostar no ensino teórico: “Devem, para além dos formadores, possuir infra-estruturas especializadas para desenvolverem a parte prática e – desta forma – conseguirem responder às necessidades especificas do sector offshore.”
Ainda assim, um dos maiores desafios poderá estar na cultura de segurança, onde o diagnóstico é crítico. “Em matéria de segurança, as empresas portuguesas não estão preparadas nem para operações onshore, quanto mais para offshore”, afirma de forma directa. Luís Coelho aponta fragilidades estruturais: “Ainda temos um registo muito próximo do desenrascanço e as formações são feitas por obrigação. Sem formação não há competência e não há cultura de segurança.”
Num ambiente offshore, onde o risco é significativamente mais elevado, esta lacuna pode ser determinante. “Se falarmos do contexto offshore, as exigências são muito superiores e o risco é mais elevado, pelo que se não existir uma cultura de segurança sistematizada e consistente, nada vai funcionar”, alerta, sublinhando que, apesar de alguns progressos recentes, “ainda há muito a fazer em matéria de práticas – que devem ser sistematizadas – e de liderança.”
Por outro lado, a formação pode também afirmar-se como uma oportunidade económica para Portugal. “Aqui na CEDROS já exportamos há muito. 90% dos nossos clientes trabalham fora de Portugal”, revela, evidenciando o potencial internacional do sector. Num mercado global altamente regulado, a qualidade tende a prevalecer: “o cliente faz a sua pesquisa na internet e opta pelo centro de formação que tem melhores feedbacks”.
O VENTO DECISIVO
A eólica offshore representa, assim, muito mais do que uma nova frente na produção de energia renovável — é uma oportunidade para redefinir o posicionamento de Portugal na economia europeia e global. Com recursos naturais favoráveis, experiência acumulada e projectos pioneiros já no terreno, o país reúne condições para assumir um papel relevante numa indústria ainda em consolidação.
No entanto, o potencial identificado está longe de ser garantido. A concretização desta ambição dependerá da capacidade de alinhar políticas públicas, investimento privado e desenvolvimento de competências, num quadro regulatório claro, estável e previsível. Infra-estruturas, rede eléctrica, portos, licenciamento e formação serão peças críticas de um mesmo puzzle que terá de avançar de forma coordenada.
Se conseguir superar estes desafios, Portugal poderá não só reforçar a sua segurança energética e cumprir metas climáticas, como também afirmar-se como um hub industrial e tecnológico da eólica offshore flutuante. Caso contrário, corre o risco de ver outros mercados capturarem o valor de uma indústria que, hoje, ainda está ao alcance de quem souber agir primeiro.














