Inteligência artificial na mediação imobiliária: uma realidade imediata

A inteligência artificial passou a ocupar um lugar central nas decisões estratégicas de empresas em praticamente todos os setores de atividade. A mediação imobiliária, como muitos outros negócios de aconselhamento ao cliente, tem sido especialmente impactada.

Executive Digest

Por João Cília, CEO da Porta da Frente Christie’s International Real Estate

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A inteligência artificial passou a ocupar um lugar central nas decisões estratégicas de empresas em praticamente todos os setores de atividade. A mediação imobiliária, como muitos outros negócios de aconselhamento ao cliente, tem sido especialmente impactada.

É tentador reduzir a conversa aos ganhos mais imediatos: automatizar tarefas administrativas, agilizar a resposta a clientes e produzir descrições de imóveis de forma mais rápida. Esses ganhos são reais, mas parciais.

Para quem lidera empresas do setor, a pergunta mais relevante é que modelos de negócio esta tecnologia torna possíveis, e que atores, tradicionais ou novos, os vai explorar primeiro.  O que hoje implica um investimento significativo em equipas e infraestrutura poderá, em pouco tempo, estar disponível a todos. À medida que os clientes ganham autonomia, as mediadoras terão de encontrar novas formas de criar valor acrescentado. É, por isso, fundamental estar um passo à frente e garantir que oferecemos aos clientes aquilo que eles ainda não conseguem fazer sozinhos.

Três ideias merecem destaque. A primeira diz respeito à camada de dados, que é a condição de partida e não um detalhe técnico. Sem informação estruturada sobre imóveis, transações, clientes e processos, não há IA que gere valor sustentável, e o investimento em dados precede e condiciona qualquer investimento em modelos. A segunda está na execução, que exige um perfil de competências diferente, com menos tarefas repetitivas e mais análise, pensamento crítico e gestão de relação, o que favorece equipas mais seniores e mais reduzidas, com espaço para iniciativa própria dentro de um enquadramento comum. A terceira prende-se com a governação, que tem de acelerar a adoção e, ao mesmo tempo, controlar o risco.

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Neste sentido, o setor da mediação imobiliária tem espaço para arriscar, desde que exista disciplina na forma como o conhecimento gerado é documentado e partilhado.

Esta preocupação já está a orientar o trabalho que temos vindo a desenvolver na Porta da Frente Christie’s International Real Estate, por exemplo. Ao longo do último ano, construímos um modelo de governação transversal às diferentes áreas da empresa, para que as iniciativas de inteligência artificial avancem de forma coordenada e não como experiências isoladas. Como líder, acredito que é importante dar às equipas espaço para testar, criar e desenvolver novas funcionalidades, dentro de prioridades comuns e com mecanismos que permitam que esse conhecimento seja partilhado por toda a organização.

Vale a pena ser claro sobre um ponto que se discute pouco fora dos departamentos técnicos: correr estes sistemas em produção já tem um custo significativo, que cresce com a utilização. Cada análise, apresentação gerada ou resposta de um assistente tem um custo real associado ao processamento de linguagem, e escalar isto a toda a rede de consultores exige um trabalho contínuo de otimização. Ou seja, escolher o modelo certo para cada tarefa, evitar chamadas redundantes e reaproveitar contexto já processado. É um trabalho de engenharia tão importante como o desenho da própria funcionalidade e que, normalmente, fica invisível para quem a utiliza.

A mediação imobiliária de qualidade vai continuar a assentar em conhecimento local, relação de confiança e rigor de execução. A inteligência artificial não substitui isso, mas pode ampliar a capacidade das empresas para entregar estes atributos. É nessa combinação entre tecnologia e conhecimento humano que estará uma parte importante da vantagem competitiva do setor nos próximos anos.

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