“O líder é um ‘sensor’, não é um clínico”: o novo papel da gestão na saúde mental

Num país em que mais de um terço da população em idade activa admite ter sentido, no último ano, sintomas como ansiedade, burnout ou depressão, a saúde mental deixou de ser apenas uma questão clínica para se afirmar como um verdadeiro activo económico

André Manuel Mendes

Num contexto de pressão com­petitiva, escassez de talento e exigência crescente de de­sempenho, ignorar a questão da saúde mental tem custos directos na produtividade, na retenção de talento e na qualidade das decisões.

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O Estudo Nacional de Saúde – Estado de Saúde Geral da Po­pulação Portuguesa, desenvolvido pela Marktest e Medicare, indica que 34,6% dos portugueses entre os 18 e os 64 anos sofreram, nos últimos 12 meses, sintomas como ansiedade, burnout ou depressão, com incidência particularmente elevada nos jovens adultos (49,8% entre os 18 e os 24 anos e 41,7% entre os 25 e os 34 anos). Quase um terço da população (29,7%) admite ter sentido necessidade de recorrer a um profissional de saúde mental, mas só 17,1% chegou a ter consulta de especia­lidade, evidenciando um desfasamento relevante entre procura e resposta.

O impacto estende-se ao contexto em­presarial: cerca de 60% dos portugueses consideram que a saúde mental não é devidamente valorizada na empresa ou instituição onde trabalham, uma percepção vincada entre pessoas dos 45 aos 54 anos e entre quem reportou sintomas ou necessidade de apoio. O estudo mostra que 41,7% das mulheres referem sintomas relacionados com saúde mental, face a 27% dos homens, o que se reflecte numa maior procura de acompanhamento. Em entrevista à Executive Digest, Filipe Pinto, médico, professor convidado na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e director técnico da Knok Healthcare, defende que investir em prevenção, acesso rápido a cuidados e liderança preparada não representa um encargo adicional para as empresas, mas antes uma estratégia com retorno mensurável para a economia.

Reduzir o stress e a ansiedade é priorida­de para cerca de um quarto da população em idade activa. Que impacto concreto tem esta realidade na produtividade das empresas portuguesas?

Quando uma fatia relevante da população activa coloca o stress e a ansiedade no topo das suas preocupações, o efeito na produtividade tende a surgir por duas vias: absentismo e, sobretudo, presen­tismo. No presentismo, a pessoa está no local de trabalho, mas com desempenho abaixo do seu potencial, com impacto direto na qualidade, na velocidade de execução e na tomada de decisão.

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O Estudo Nacional de Saúde 2025 ajuda a enquadrar a dimensão do fenó­meno: cerca de metade da população reporta níveis elevados de stress nos últimos seis meses, e mais de um terço refere sintomas do foro mental no último ano. Isto, num contexto empresarial, traduz-se numa erosão silenciosa da energia cognitiva e emocional: menor foco, maior fadiga, mais erros e maior probabilidade de conflito interpessoal. O ponto é que, no contexto laboral, não estamos a falar só de «bem-estar» mas também de performance, retenção de talento e de clima organizacional.

A baixa valorização da saúde mental no local de trabalho representa um custo oculto. É possível quantificar o impacto económico desta lacuna?

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) estima que a má saúde mental pode acarretar custos equivalentes a até 4% do PIB europeu anualmente.

Um relatório da Ordem dos Psicólogos Portugueses de 2023 mostrou que, em 2022, o absentismo custou 1,8 mil milhões de euros às empresas portuguesas e o presentismo 3,5 mil milhões. Os dois valores somados são o equivalente ao que o governo português gastou em 2021 em medidas para mitigar os impactos da COVID-19. Estamos a falar de um impacto extremamente relevante.

E estes são os custos associados à perda de produtividade e menor emprego, e não à despesa em saúde. Isto é impor­tante porque desmonta a ideia de que «saúde mental é um custo do SNS». Na prática, uma fatia relevante é um custo económico suportado por empresas e pela economia do país como um todo.

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Investir em programas estruturados de saúde mental gera retorno financeiro mensurável para as empresas?

Sim, existe evidência que investir em tratamento e prevenção da depressão e ansiedade pode gerar retorno financeiro significativo. Se o quisermos colocar em número, a Organização Mundial de Saúde coloca o rácio do retorno de investimento em 4:1. Ou seja, por cada euro gasto, o país recupera 4 euros desse investimento.

Claro que, para se atingir este retorno, as medidas têm de chegar à população, ser utilizadas pelas pessoas e serem eficazes. Iniciativas sem evidência cien­tífica, adesão real, confidencialidade percebida e ou sem envolvimento da liderança, tendem a falhar. Programas estruturados, com triagem, acesso rápido a apoio especializado, acompa­nhamento contínuo e métricas claras de avaliação, têm maior probabilidade de gerar retorno mensurável.

60% da população considera que a saú­de mental não é valorizada no local de trabalho. O que é que este dado revela sobre a cultura empresarial em Portugal?

Diz-nos que ainda existe um desfasamento entre discurso e prática. O tema está mais presente na comunicação, mas isso nem sempre se traduz em comportamentos de gestão, políticas internas e segurança psicológica no dia a dia. O Estudo Na­cional de Saúde 2025, desenvolvido pela Marktest para a Medicare, aponta para «cerca de 60%» a considerar que a saúde mental não é valorizada no trabalho. Isto sugere duas coisas: primeiro, persistem barreiras culturais, incluindo a ideia de que falar de saúde mental pode ser sinal de fragilidade. Segundo, muitas chefias ainda não têm ferramentas para gerir sinais precoces, o que leva a respostas tardias e reactivas. Em termos culturais, isto costuma reflectir organizações muito orientadas a curto prazo e onde a perfor­mance é confundida com disponibilidade permanente.

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Que papel devem ter os líderes?

O líder é um «sensor» organizacional de primeira linha, mas não é um clínico. Não sendo capazes de diagnosticar ou tratar, há sinais que os line-managers podem sinalizar. O seu papel passa por três níveis. Primeiro, saber reconhecer alterações no padrão de funcionamento, como irritabilidade, cinismo, deterioração da relação com os pares, inibição, que­bra da qualidade das entregas, atrasos reiterados ou fadiga. Segundo, manter contactos regulares com as equipas: promover check-ins frequentes focados na carga de trabalho, nos obstáculos e na capacidade de execução. Terceiro, pro­teger e encaminhar os colegas em risco: garantir acesso a apoio especializado e ajustar factores organizacionais de risco, como ambiguidade de prioridades ou carga excessiva contínua.

Um CEO cronicamente privado de sono é um risco para a empresa?

A privação de sono afecta o desempenho, mas também a tomada de decisão. A ciên­cia mostra que dormir mal compromete funções cognitivas cruciais (atenção, con­centração, memória, tomada de decisão e regulação emocional) e esses efeitos traduzem-se em maior probabilidade de erros, decisões inconsistentes e menor capacidade de lidar com situações com­plexas. Além disso, a ciência mostra que a privação de sono altera a sensibilidade a recompensas e punições, o que pode levar uma direcção a tomar decisões de pendor mais emocional. No entanto, não podemos cair na ideia de que o risco é exclusivo ou maior por se tratar de um CEO. Em muitas organizações, há profissionais cuja decisão ou execução tem impacto imediato e potencialmente mais crítico como médicos em contexto clínico ou pilotos de avião. Nestes casos, lapsos de atenção ou erros de julgamento associados à privação de sono podem ter efeitos imediatos na segurança, na qua­lidade ou na continuidade da operação.

Que medidas simples poderiam ser implementadas nas organizações para melhorar os níveis de energia e concen­tração das equipas?

Há que treinar as pessoas da organiza­ção a identificar sinais de sobrecarga, redistribuir tarefas quando necessário e manter check-ins regulares focados não apenas em resultados, mas também em carga de trabalho e bem-estar. Uma equipa sensibilizada para o tema da saúde mental e o seu impacto vai ter melhor probabilidade de se manter saudável.

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Dentro do possível, as empresas devem garantir uma boa organização do traba­lho: clarificar prioridades (por exemplo, limitar a três os objectivos críticos por dia ou semana), reduzir multi-tarefa crónica e criar blocos de tempo protegido sem reuniões. A empresa e as equipas devem rever regularmente objectivos e eliminar tarefas de baixo valor. Este trabalho nem sempre é fácil e será necessariamente diferente em cada empresa.

Para gerir melhor a energia, podem instituir-se pausas regulares (por exem­plo, ciclos de 50-10 ou 90-15 minutos), desencorajar a cultura de «almoço à secretária» e reduzir interrupções di­gitais constantes. Além disso, evitar a normalização de e-mails fora de horas e reuniões sistematicamente muito cedo ou tarde contribui para proteger os períodos de sono ou descanso.

Por fim, é fundamental garantir acesso efectivo a cuidados de saúde mental. Para além das medidas organizacionais, as empresas podem facilitar o acesso a apoio especializado através de planos de saúde, seguros de saúde ou, cada vez mais, através da disponibilização directa de serviços de apoio psicológico. O acesso deve ser rápido, confidencial e claro para os colaboradores, reduzindo barreiras e estigma. Quando os traba­lhadores sabem que podem procurar ajuda de forma simples e segura, a probabilidade de intervenção precoce aumenta.

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