Portugal entre os países mais endividados da Europa: famílias portuguesas ocupam o 9.º lugar no ranking da dívida

Portugal é o nono país da União Europeia com maior nível de endividamento das famílias em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB), segundo os mais recentes dados do Eurostat.

Pedro Zagacho Gonçalves

Portugal é o nono país da União Europeia com maior nível de endividamento das famílias em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB), segundo os mais recentes dados do Eurostat. Ao contrário da ideia frequentemente associada às economias do sul da Europa, são os países mais ricos do Norte e do Oeste europeu que concentram os maiores níveis de dívida privada, enquanto os Estados do sul apresentam, em regra, famílias financeiramente mais conservadoras.

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Os números mais recentes mostram que, em 2025, a dívida das famílias na União Europeia correspondia a 49,4% do PIB, enquanto na zona euro ascendia a 50,7%. Ambos os indicadores têm vindo a diminuir de forma consistente desde 2020, quando ultrapassavam os 60%, refletindo uma tendência de desalavancagem do setor privado.

O que mede a dívida das famílias
Este indicador inclui todos os passivos das famílias, como créditos à habitação, crédito ao consumo e outros empréstimos. Ao ser expresso em percentagem do PIB, permite comparar economias de diferentes dimensões, relacionando o volume total de dívida privada com a riqueza produzida anualmente por cada país.

Uma taxa de 50% significa, por exemplo, que o montante total da dívida das famílias equivale a metade de tudo o que a economia nacional produz num ano. O indicador não revela quanto deve cada agregado familiar individualmente, mas oferece uma visão global do grau de alavancagem financeira das famílias.

Porque preocupa o endividamento
Um elevado nível de dívida não representa necessariamente um problema. Países com mercados hipotecários desenvolvidos, elevada aquisição de habitação através de financiamento bancário ou sistemas financeiros mais sofisticados tendem naturalmente a apresentar rácios superiores.

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Ainda assim, a Comissão Europeia considera que valores acima dos 55% do PIB começam a constituir um risco macroeconómico, uma vez que crises financeiras provocadas pelo excesso de dívida privada tendem a ter impactos profundos na economia. A crise financeira internacional de 2008 é frequentemente apontada como exemplo, por ter tido origem no excesso de endividamento das famílias e não nas contas públicas.

O mapa europeu desmente os estereótipos
Os dados revelam uma divisão geográfica clara. Os sete países que ultrapassam o limiar de risco definido pela Comissão Europeia situam-se exclusivamente no Norte e no Oeste da Europa.

Em sentido inverso, economias frequentemente associadas a crises financeiras soberanas apresentam níveis de dívida das famílias bastante inferiores à média europeia. Itália regista um rácio de 35,9% do PIB, a Grécia 38% e Espanha 42,9%, todos claramente abaixo da média da União Europeia.

Segundo esta leitura, enquanto vários governos do sul europeu acumulam elevados níveis de dívida pública, as respetivas famílias revelam um comportamento bastante mais prudente no recurso ao crédito.

Portugal ocupa o nono lugar europeu
Portugal surge na 9.ª posição entre os países da União Europeia com maior dívida das famílias, atingindo 53,9% do PIB, um valor já muito próximo do limiar de risco de 55% estabelecido pela Comissão Europeia.

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No final de 2025, a dívida das famílias portuguesas rondava os 171 mil milhões de euros, representando um crescimento anual de 8,6%, impulsionado sobretudo pelo crédito à habitação.

A subida está diretamente relacionada com uma das mais rápidas valorizações dos preços das casas na União Europeia, fenómeno que tem levado muitas famílias a recorrer a financiamentos de maior dimensão.

Outro fator apontado como especialmente relevante é a estrutura do mercado hipotecário português. Mais de 90% dos contratos de crédito à habitação em Portugal utilizam taxas de juro variáveis ou mistas indexadas à Euribor, tornando os agregados familiares particularmente sensíveis às decisões do Banco Central Europeu sobre as taxas de referência.

Os 10 países com maior dívida das famílias
O ranking europeu é liderado pelos Países Baixos, onde a dívida das famílias corresponde a 93,5% do PIB, resultado de um sistema fiscal que incentiva fortemente o recurso ao crédito hipotecário e permite financiamentos que podem atingir o valor total do imóvel.

Segue-se a Dinamarca, com 84,1%, e a Suécia, com 82,3%, dois mercados altamente dependentes do crédito à habitação.

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A lista prossegue com a Finlândia (62,9%), Luxemburgo (60,5%), França (59,5%), Bélgica (56,4%), Chipre (54,2%), Portugal (53,9%) e Alemanha (49%), que fecha o grupo dos dez países mais endividados.

Porque alguns países apresentam rácios tão elevados
As razões variam de país para país. Nos Países Baixos, o Governo incentiva fiscalmente o recurso ao crédito para aquisição de casa própria, permitindo empréstimos equivalentes a 100% do valor do imóvel.

Na Dinamarca, embora a dívida bruta seja muito elevada, é parcialmente compensada por elevados níveis de poupança em fundos de pensões e património imobiliário.

Na Suécia predominam os empréstimos a taxa variável, tornando as famílias mais vulneráveis às alterações das taxas de juro.

Na Finlândia, grande parte da dívida resulta não apenas dos empréstimos à habitação, mas também dos chamados empréstimos das sociedades de habitação, que são assumidos pelos compradores dos imóveis.

Em França predominam contratos de taxa fixa e regras rigorosas que limitam o peso das prestações mensais no rendimento líquido das famílias, enquanto na Bélgica a elevada percentagem de proprietários com crédito explica boa parte do nível de endividamento.

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Já na Alemanha, apesar da dimensão da economia, o reduzido número de proprietários de habitação — apenas 46,7% em 2022 — ajuda a manter a dívida das famílias próxima da média europeia, uma vez que uma larga parte da população vive em casas arrendadas e necessita menos de recorrer a financiamento hipotecário.

Os dados mostram, assim, que o nível de endividamento das famílias na Europa depende sobretudo das características dos mercados imobiliários, das políticas fiscais e da estrutura dos sistemas financeiros de cada país, contrariando a ideia de que são apenas as economias do sul europeu que vivem excessivamente dependentes do crédito.

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