Aos 30 anos, a Sociedade Ponto Verde faz um balanço da evolução da reciclagem de embalagens em Portugal e reflecte sobre os desafios que se seguem. Ana Trigo Morais, CEO da organização, destaca o papel da inovação, da tecnologia e da colaboração entre empresas, municípios e cidadãos na construção de um sistema mais eficiente, circular e sustentável.
Quais considera terem sido os momentos mais transformadores da evolução da reciclagem de embalagens em Portugal ao longo destas três décadas?
A história da Sociedade Ponto Verde (SPV) é, em grande parte, a história da própria evolução da reciclagem de embalagens em Portugal. Quando a SPV nasceu, em 1996, a reciclagem de embalagens era ainda uma prática pouco conhecida pela maioria dos portugueses e o País estava a dar os primeiros passos na criação de um sistema organizado para a gestão destes resíduos.
A criação da SPV foi um momento fundador. Portugal tornou-se o sexto país da União Europeia a implementar um sistema integrado de gestão de resíduos de embalagens, antecipando-se a países como Espanha ou Itália. Esse pioneirismo permitiu criar as bases de um modelo que continua a evoluir até hoje.
Mas talvez a maior transformação tenha sido a mudança de comportamento dos cidadãos. No primeiro ano de actividade da SPV, foram recicladas cerca de 1500 toneladas de resíduos de embalagens. Só em 2025, esse número alcançou perto de 487 mil toneladas. Desde 1996, a SPV já contribuiu para a reciclagem de mais de 11 milhões de toneladas de embalagens.
Construímos uma rede de recolha selectiva que conta com aproximadamente 70 mil ecopontos, cobrindo todo o território nacional. Além disso, actualmente, cerca de 70% dos lares portugueses já separam embalagens para reciclagem, o que demonstra a integração desta prática no quotidiano dos cidadãos.
A SPV fala hoje cada vez mais de economia circular e não apenas de reciclagem. Como evoluiu a missão da organização ao longo destas três décadas?
A missão da SPV acompanha a evolução das prioridades ambientais e das exigências da sociedade. Nos primeiros anos, o grande desafio consistia em criar um sistema capaz de assegurar a recolha e reciclagem de embalagens em Portugal, num contexto em que praticamente não existiam infra-estruturas nem hábitos consolidados de separação de embalagens.
Hoje, continuamos profundamente comprometidos com essa missão, mas a discussão tornou-se muito mais abrangente. A economia circular trouxe uma nova forma de olhar para os resíduos, obrigando-nos a considerar todo o ciclo de vida das embalagens, desde a concepção até à sua reintegração na economia através da reciclagem.
Por isso mesmo, a SPV tem vindo a reforçar a sua actuação em áreas como a inovação, Investigação e Desenvolvimento (I&D), literacia ambiental e colaboração entre diferentes sectores. Um exemplo disso é o Ponto Verde Lab, uma plataforma agregadora de conhecimento e inovação que apoia a evolução dos processos do sector. Outro exemplo, são as ferramentas de ecodesign que promovem a concepção de embalagens mais circulares, como o Pack4Sustain.
Este último permite às empresas clientes da SPV avaliar e melhorar a sustentabilidade das suas embalagens através de novas funcionalidades, contribuindo para um maior compromisso empresarial com a transição para uma economia circular. Desde o seu lançamento, o Pack4Sustain já analisou e forneceu recomendações para 365 embalagens simuladas, abrangendo diferentes indústrias e tipos de materiais.
Estes instrumentos demonstram que a reciclagem de embalagens continua a ser central, mas é, hoje, parte de uma transformação mais ampla que visa promover uma utilização mais eficiente dos recursos e acelerar a transição para uma economia verdadeiramente circular.
Apesar dos avanços registados, Portugal continua abaixo das metas europeias em algumas fileiras. O que continua a falhar no sistema actual e que mudanças estruturais considera urgentes?
Um dos principais desafios está na capacidade de transformar os recursos financeiros disponíveis em resultados concretos e mensuráveis. Aliás, mais do que aumentar o financiamento, é hoje fundamental garantir que os recursos financeiros são efectivamente aplicados na operação e canalizados de acordo com as reais necessidades do sistema.
Em 2025, Portugal, apesar do investimento histórico no SIGRE, não atingiu a meta da reciclagem de embalagens (recolher 65% das embalagens colocadas no mercado) e entrou em incumprimento. A aplicação dos novos valores de contrapartida (VC) pagos aos serviços municipais, multimunicipais e concessionários pelas entidades gestoras, como a SPV, geraram um reforço na capacidade de investimento no sector acima dos 90M€, em 2025, num total de 212M€ investidos nesse ano. Já em 2026, prevê-se mais 25M€, perfazendo um total de 237M€ de financiamento ao sistema no ano corrente.
Ainda assim, persistem fragilidades estruturais associadas à recolha selectiva de embalagens, à qualidade dos materiais recolhidos e à capacidade das infra-estruturas de gestão destes resíduos, evidenciando a necessidade de uma aplicação mais eficaz e direccionada dos recursos disponíveis para a operação, inovação, modernização e melhoria do nível de serviço aos cidadãos.
A inovação tem sido uma aposta forte da SPV, nomeadamente através do programa Re_Source. Que impacto têm tido estas parcerias com startups e centros de inovação no sector da gestão de resíduos?
É inequívoco que a inovação é um dos pilares estratégicos da actuação da SPV – acreditamos que os desafios ambientais exigem novas abordagens e soluções cada vez mais eficazes.
Ao longo dos últimos 30 anos, a SPV investiu cerca de 19,4 milhões de euros em mais de 120 estudos e projectos de inovação e I&D, envolvendo mais de 150 entidades. O objectivo tem sido desenvolver soluções capazes de modernizar o sistema, aumentar a eficiência operacional e gerar melhores resultados ambientais.
O Re_Source é um dos exemplos mais emblemáticos desta aposta. Desenvolvido em parceria com a Beta-i, este programa de inovação colaborativa já recebeu mais de 600 candidaturas provenientes de dezenas de países ao longo das suas quatro edições. Até ao momento, a SPV investiu mais de 1,7 milhões de euros em 35 projectos-piloto.
Mais do que promover inovação, o objectivo é acelerar a implementação de soluções concretas que contribuam para aumentar a eficiência do ecossistema, melhorar a circularidade dos materiais e apoiar o cumprimento das metas ambientais cada vez mais exigentes.
Que tecnologias acredita que terão maior impacto na próxima década?
Acreditamos que tecnologias como a inteligência artificial, a robotização, a automação industrial, a análise avançada de dados, a rastreabilidade de materiais e os sensores inteligentes terão um impacto muito significativo na eficiência dos sistemas de recolha, triagem e valorização dos resíduos. Estas tecnologias permitirão monitorizar operações em tempo real, optimizar rotas de recolha, melhorar a qualidade dos materiais reciclados e aumentar a transparência ao longo de toda a cadeia de valor.
Exemplo deste investimento contínuo da SPV é o apoio a projectos como o Recycleye, desenvolvido pela Valorsul e pela Tetrapak. Trata-se de um robot de triagem com inteligência artificial, instalado na Valorsul (Lisboa), que permite aumentar a capacidade de triagem e o volume de embalagens de cartão para bebidas triadas e encaminhadas para reciclagem.
Ao mesmo tempo, a SPV defende que áreas como a gamificação e os sistemas de incentivo terão um papel importante na promoção de mudanças comportamentais. O sucesso da economia circular continuará a depender da participação activa dos cidadãos, alinhando incentivos com resultados.
Em que áreas a digitalização e a inteligência artificial já estão a ser aplicadas ou testadas pela SPV?
No âmbito dos projectos de inovação promovidos pela SPV, já estão a ser testadas soluções de inteligência artificial aplicadas à triagem de resíduos de embalagens, sensores inteligentes instalados em ecopontos para optimização das rotas de recolha, sistemas de rastreabilidade de materiais, automação industrial e ferramentas de análise de dados. Tudo isto permite melhorar a eficiência operacional, aumentar a qualidade dos materiais recolhidos e disponibilizar melhor informação para a tomada de decisão.
Adicionalmente, na óptica de gestão e optimização, a SPV defende também a criação de um registo único de dados para o sistema de reciclagem de embalagens, que permita gerar indicadores fiáveis, uniformes e transparentes para todos os intervenientes. Só através de uma gestão baseada em dados será possível medir resultados, identificar oportunidades de melhoria e acelerar o cumprimento das metas ambientais.
Nos últimos anos, a SPV reforçou também a vertente de sensibilização e proximidade com os cidadãos através da marca Ponto Verde. Porque sentiram necessidade de fazer este reposicionamento?
Ao longo de 30 anos, a SPV ajudou a criar hábitos de reciclagem de embalagens. Hoje, o desafio passa por garantir que esses hábitos são consistentes e realizados correctamente.
Em 2025, a SPV reforçou a vertente de proximidade com os cidadãos através da dimensão Ponto Verde, assumindo uma comunicação mais próxima, participativa e orientada para a mudança efectiva de comportamentos. Simultaneamente, avançámos com um processo de rebranding, modernizando a nossa identidade visual, num momento em que os desafios ambientais exigem uma comunicação cada vez mais clara, mobilizadora e participativa.
Precisamente por ainda não estarmos ponto ideal, a Ponto Verde lançou a sua primeira grande campanha nacional sob o mote “Estamos a chegar ao ponto”, veiculada de norte a sul do País, incluindo Madeira e Açores. Globalmente, o objectivo era criar um movimento colectivo que una e mobilize todos os cidadãos a darem o próximo passo, mostrando que há espaço para melhorar e que cada acção individual conta para que, em conjunto, o País consiga chegar ao ponto pretendido.
Além disso, a SPV tem vindo a explorar novas formas de comunicação através da gamificação e de experiências digitais mais interactivas. Aliás, a app Ponto Verde é um exemplo claro dessa estratégia. Disponível ao longo de todo o ano, combina conteúdos educativos, dicas e artigos, com passatempos esporádicos. Desde o lançamento, em 2023, já se registaram mais de 190 mil utilizadores únicos na aplicação da Ponto Verde, o que mostra o seu impacto e alcance, comprovando como a actuação de proximidade, através da tecnologia, é uma aliada poderosa da educação e literacia ambiental.
Por tudo isto, este reposicionamento reflecte a convicção de que a sustentabilidade se constrói também através do envolvimento dos cidadãos.
A circularidade das embalagens depende cada vez mais da colaboração entre empresas, municípios, academia e consumidores. O que aprenderam sobre inovação colaborativa nestes 30 anos?
Aprendemos que nenhum dos desafios que enfrentamos pode ser resolvido isoladamente. A evolução da reciclagem de embalagens em Portugal foi possível graças à articulação entre empresas, municípios, entidades, governos, sistemas de gestão de resíduos, academia, parceiros tecnológicos e cidadãos.
A própria SPV já desenvolveu mais de 120 projectos de investigação, desenvolvimento e inovação envolvendo mais de 150 entidades, o que demonstra a importância da cooperação na construção de soluções eficazes, que respondam aos desafios que hoje enfrentamos.
Programas como o Re_Source, o Ponto Verde Lab ou a Rede Recicla +, programa da SPV que financia acções de comunicação, sensibilização e educação de SGRU, municípios e empresas municipais com foco na sensibilização para a reciclagem de embalagens de vidro, que tem crescido ano após ano, são exemplos concretos desta abordagem colaborativa. A inovação surge muitas vezes da combinação de diferentes perspectivas, competências e experiências e é isso que queremos potenciar e estimular.
A principal aprendizagem é que a economia circular só pode ser construída através de um esforço colectivo e de uma visão partilhada entre todos os intervenientes da cadeia de valor do sector da gestão de resíduos de embalagens.
Quando olha para os próximos 30 anos, como imagina a reciclagem e a gestão de embalagens em Portugal? Que papel quer que a SPV tenha nessa transformação?
Imagino um sistema muito mais circular, tecnológico, eficiente e orientado para a valorização dos recursos e para resultados. Nos próximos anos será necessário continuar a investir em áreas como a transparência e qualidade dos dados, o ecodesign, a rastreabilidade, a inteligência artificial, a automação e novos modelos de recolha selectiva, especialmente para materiais mais desafiantes, como o vidro.
Mas imagino também um sistema onde os resíduos de embalagens sejam cada vez mais encarados como recursos valiosos e onde a circularidade esteja integrada nas decisões das empresas, das entidades públicas e dos cidadãos.
A SPV quer continuar a assumir um papel de liderança nesta transformação. Ao longo de três décadas ajudámos a transformar a reciclagem de embalagens num comportamento socialmente reconhecido. O desafio para os próximos 30 anos é ainda mais ambicioso: acelerar a transição para uma economia verdadeiramente circular, promovendo inovação, colaboração e participação activa de todos.
Porque a economia circular não se constrói apenas com tecnologia. Constrói- se com compromisso colectivo e com a capacidade de transformar cada embalagem usada num novo recurso para o futuro.
Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 244 de Julho de 2026














