Mais poderoso do que Hitler, Mao ou Stalin? Por dentro da corte, das vinganças e das obsessões de Trump na Casa Branca

Rodeado por um núcleo reduzido de colaboradores que alimentam as suas convicções e raramente o contradizem, o presidente dos Estados Unidos procura agora deixar uma marca histórica impossível de apagar

Francisco Laranjeira

Donald Trump regressou à Casa Branca mais desconfiado, vingativo e determinado a exercer o poder sem os limites que encontrou durante o primeiro mandato. Rodeado por um núcleo reduzido de colaboradores que alimentam as suas convicções e raramente o contradizem, o presidente dos Estados Unidos procura agora deixar uma marca histórica impossível de apagar.

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É esse o retrato traçado por Maggie Haberman e Jonathan Swan, jornalistas do ‘The New York Times’, no livro ‘Regime Change: Inside the Imperial Presidency of Donald Trump’. A obra acompanha os primeiros 14 meses do segundo mandato e baseia-se em informações recolhidas junto de mais de mil fontes, oficiais e anónimas, além de uma entrevista presencial com o próprio Trump. O livro vendeu mais de 300 mil exemplares na primeira semana.

Segundo o ‘El País’, o ponto de viragem poderá ser encontrado no primeiro dia do regresso de Trump ao Salão Oval, a 20 de janeiro de 2025. Entre as ordens executivas então assinadas esteve o perdão concedido a centenas de apoiantes envolvidos no ataque ao Capitólio, quatro anos antes. Steve Bannon resumiu o momento numa frase: “Eis o puro Trump.”

O empresário que chegou quase inesperadamente à presidência em 2017 teria dado lugar a um político mais isolado e movido pelo ressentimento provocado pelos processos judiciais, pelas investigações e pela derrota eleitoral de 2020. No novo mandato, Trump reduziu o círculo de confiança e passou a exigir uma lealdade quase absoluta.

Essa fidelidade inclui a defesa da alegação, nunca provada, de que as eleições de 2020 lhe foram roubadas. Ao contrário do primeiro mandato, em que generais, juristas e altos funcionários procuravam limitar algumas das suas decisões, Trump está agora rodeado por pessoas que o encorajam a avançar.

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“Você é a única coisa que importa para mim”

Uma das figuras centrais desta Casa Branca é Natalie Harp, assistente executiva responsável por publicar parte das mensagens de Trump na Truth Social e por preparar conteúdos destinados à conta do presidente.

Conhecida entre os funcionários como a “impressora portátil”, Harp acompanhava Trump nos campos de golfe, transportando um computador, uma pequena impressora e artigos elogiosos que lhe lia em voz alta. Segundo o livro, alimenta o presidente com um fluxo quase permanente de notícias positivas e comentários favoráveis publicados nas redes sociais.

A proximidade ultrapassaria a relação profissional habitual. Haberman e Swan relatam que Harp deixa bilhetes nos espaços privados do presidente. Num deles terá escrito: “Você é a única coisa que importa para mim.”

Harp, antiga apresentadora do canal conservador ‘One America News Network’, afirma que Trump lhe salvou a vida ao aprovar legislação que facilitou o acesso a um tratamento experimental contra o cancro. Tornou-se uma das colaboradoras mais devotadas do presidente e uma peça importante da bolha informativa construída à sua volta.

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Um Governo ao serviço das queixas do presidente

Stephen Miller é outra das figuras com maior influência. O assessor, conhecido como o “guardião das queixas”, ganhou poder na política migratória, na remoção de obstáculos jurídicos e na ofensiva contra adversários pessoais e políticos de Trump.

O ‘El País’ relata uma reunião na Sala Oval, inicialmente destinada a preparar investigações contra responsáveis da administração de Joe Biden. Durante o encontro, Trump recordou um advogado que tinha confirmado a segurança das eleições de 2020 e perguntou quem era.

Miller encontrou rapidamente o nome e terá desencadeado uma investigação, mesmo sem receber uma ordem explícita do presidente. Para os autores, os recursos do Governo federal foram mobilizados contra um funcionário cujo delito, aos olhos de Trump, consistira em reconhecer a validade da eleição que o afastou do poder.

O episódio ilustra uma das principais teses do livro: a segunda administração transformou instrumentos do Estado em extensões das vontades, ressentimentos e interesses pessoais do presidente.

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Trump compara-se aos homens mais poderosos da História

Durante a entrevista concedida aos autores, Trump foi questionado sobre se se considerava o homem mais poderoso da História. A resposta surgiu através de um documento que pediu a Natalie Harp.

“Donald Trump é, sem dúvida, o homem mais poderoso que o planeta já conheceu”, leu o presidente, citando uma lista que dizia ter sido elaborada por um historiador.

Entre as figuras com quem se comparava encontravam-se Adolf Hitler, Mao Tsé-Tung, Josef Stalin, Alexandre, o Grande, Átila, Gengis Khan, Napoleão e vários imperadores romanos.

Trump não estabeleceu distinções morais entre os nomes, alguns responsáveis por genocídios e massacres. Reduziu a comparação à notoriedade, ao alcance e ao exercício de poder, argumentando que nenhum daqueles líderes tinha disposto de uma influência verdadeiramente global.

A origem da lista era menos académica do que Trump inicialmente sugerira. Teria ouvido a teoria durante uma partida de golfe com o antigo jogador Gary Player, que lhe falou de um homem interessado em História. O alegado “historiador presidencial” seria, afinal, um caddie que gostava de ler livros sobre o tema.

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Para Jonathan Swan, a obsessão de Trump com estas comparações revela a principal preocupação do segundo mandato. O presidente continua atento às sondagens, às bolsas e às eleições, mas quer sobretudo ser recordado como uma figura histórica.

Pânico com os documentos de Epstein

Outro dos episódios mais reveladores envolve os ficheiros de Jeffrey Epstein, o financista acusado de abuso sexual de menores e de dirigir uma rede de tráfico sexual.

Segundo o livro, a ordem do Congresso para divulgar documentos secretos da investigação causou pânico no círculo presidencial. Susie Wiles, chefe de gabinete, convocou uma reunião na Sala de Situação, habitualmente reservada a crises militares e de segurança nacional.

As sondagens mostravam que o caso estava a prejudicar Trump junto da própria base MAGA. “Este é um problema enorme”, terá reconhecido o vice-presidente, JD Vance.

Os participantes discutiram diferentes possibilidades, incluindo a hipótese de Ghislaine Maxwell, cúmplice de Epstein, testemunhar perante o Congresso em troca de um indulto presidencial. A solução foi considerada politicamente desastrosa pelo responsável pela comunicação da Casa Branca.

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Noutra reunião, os assessores passaram horas a discutir se deveria ser publicado um documento com alegações de natureza sexual contra Trump. Um funcionário descreveu como “surreal” o facto de aquele debate decorrer na mesma sala onde Barack Obama acompanhou a operação que matou Osama bin Laden.

Haberman considera falsa a alegação frequente de Trump de que lidera “a administração mais transparente da História”. Pelo contrário, sustenta que o reduzido círculo presidencial se tornou particularmente eficaz a guardar segredos.

“Não sou fã da Ucrânia, exceto pelas mulheres”

O livro recupera também a discussão pública entre Trump e Volodymyr Zelensky na Sala Oval. Depois do encontro, o presidente dos Estados Unidos terá dito aos assessores que o confronto tinha sido “um ótimo programa de televisão”, melhor do que ‘O Aprendiz’, o concurso que o tornou famoso.

Noutra reunião, Trump terá afirmado: “Não sou um grande fã da Ucrânia, exceto pelas mulheres. Elas continuam a ganhar o Miss Universo.”

A observação é apresentada como exemplo de um presidente que reduz frequentemente decisões diplomáticas e militares a impressões pessoais, episódios televisivos ou referências à sua antiga atividade empresarial.

O livro descreve igualmente a decisão de apoiar um ataque ao Irão, apesar das reservas do vice-presidente e dos serviços de informações. Trump acreditava que a guerra terminaria rapidamente e não se deixou demover pelas avaliações mais pessimistas apresentadas pelos seus assessores.

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Haberman e Swan defendem que esta forma de decidir — intuitiva, concentrada e pouco condicionada por instituições — alterou a própria natureza da presidência dos Estados Unidos.

Vance e Rubio disputam a sucessão

A corrida para suceder a Trump é outro dos temas da obra. Embora o vice-presidente seja tradicionalmente o candidato natural após dois mandatos presidenciais, Trump mantém uma competição entre JD Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio.

Durante um jantar na Casa Branca com o magnata Rupert Murdoch, o presidente perguntou-lhe diretamente o que pensava de cada um. Murdoch respondeu que Vance tinha potencial para ser “ótimo”, mas classificou Rubio como “brilhante”.

Trump parece apreciar a incerteza e o conflito entre os dois possíveis sucessores. Ainda assim, a maioria dos elementos do seu círculo acredita que acabará por escolher Vance.

O ambiente interno é descrito como uma corte em que os colaboradores competem por atenção e procuram entreter o presidente. Pete Hegseth, secretário da Defesa, mostrar-lhe-ia vídeos de ataques de drones contra seres humanos, classificados por um funcionário como os “filmes snuff de Hegseth”.

Árvores, ouro e supercola na Sala Oval

Quando Haberman e Swan entrevistaram Trump para concluir o livro, encontraram a secretária presidencial coberta por fotografias de árvores. Apesar de existir uma guerra com impacto crescente na economia mundial, o presidente preferiu falar longamente sobre os bordos e carvalhos que queria plantar nos jardins da Casa Branca.

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O interesse pela decoração estende-se ao interior da residência. Trump encheu a Sala Oval de ornamentos dourados e planeou remodelações de grande dimensão, incluindo um salão de baile e um arco triunfal em Washington.

Numa manhã, a porta-voz Karoline Leavitt encontrou-o com um tubo de supercola nas mãos, a tentar fixar pessoalmente aplicações douradas à lareira de mármore do Salão Oval.

O episódio não surpreendeu os colaboradores. Haberman e Swan escrevem que todos sabiam que Trump confiava mais no próprio gosto estético do que no trabalho de qualquer decorador.

A imagem resume o retrato construído pelo livro: um presidente que concentra decisões políticas, militares e decorativas, rodeado por um pequeno grupo de colaboradores e convencido de que só a sua vontade importa.

“Sofri um impeachment ilegal, fui alvo de processos e fui praticamente assassinado. Mas venci a eleição com uma margem esmagadora. Ninguém mais conseguiria”, afirmou Trump aos jornalistas.

No final da entrevista, deixou aquela que talvez seja a frase que melhor sintetiza a sua visão sobre o poder e o legado: “Basicamente, eu venço todas as vezes. Eu ganho sempre.”

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