Donald Trump desistiu de cobrar uma taxa de 20% sobre toda a carga transportada através do Estreito de Ormuz, menos de um dia depois de ter apresentado o plano como forma de compensar os Estados Unidos pela proteção militar da passagem marítima.
Em alternativa, o presidente dos Estados Unidos anunciou que procurará obter acordos comerciais e de investimento com os países do Golfo. A mudança foi comunicada menos de cinco horas antes da hora prevista para a entrada em vigor da polémica cobrança.
“Com base em conversas altamente produtivas com a liderança do Médio Oriente, decidi substituir a taxa de reembolso de 20% dos Estados Unidos por acordos comerciais e de investimento que os diversos Estados do Golfo farão com os Estados Unidos”, escreveu Trump na Truth Social, citado pela ‘Reuters’.
O presidente não identificou os países envolvidos, nem revelou o valor ou os termos dos investimentos alegadamente acordados. Limitou-se a garantir que os compromissos serão significativos e mais vantajosos no longo prazo do que a cobrança direta sobre a carga.
O Estreito de Ormuz continuará aberto ao tráfego comercial internacional, segundo Trump, mas os navios associados ao Irão, aos seus portos ou às suas mercadorias permanecerão sujeitos ao bloqueio americano.
Uma “portagem” que durou poucas horas
A proposta tinha sido apresentada esta segunda-feira, depois de Teerão anunciar o encerramento do estreito e as forças dos EUA iniciarem uma nova vaga de ataques contra o Irão.
Trump declarou então que Washington assumiria o papel de “guardião” de Ormuz e receberia 20% sobre toda a carga transportada, para recuperar os custos de manter a rota aberta e proteger os navios.
A decisão provocou dúvidas imediatas entre governos, empresas de transporte marítimo e organizações internacionais, tanto pela dimensão da taxa como pela ausência de explicações sobre a forma como seria calculada e cobrada.
Antes da guerra, cerca de um quinto do petróleo e do gás transportados no mundo passava diariamente pelo Estreito de Ormuz. Segundo os cálculos citados pela ‘Reuters’, uma cobrança de 20% poderia render aos Estados Unidos cerca de 240 milhões de dólares por dia, aproximadamente 210 milhões de euros.
A Organização Marítima Internacional, agência das Nações Unidas responsável pela navegação, manifestou-se contra a aplicação de taxas obrigatórias em estreitos utilizados pelo comércio internacional.
A organização considerou que não existia fundamento jurídico para transformar uma passagem marítima internacional numa via sujeita a portagem unilateral.
Petróleo alivia após o recuo
Os preços do petróleo reduziram parte dos ganhos depois de Trump anunciar que abandonaria a cobrança. Os mercados tinham reagido inicialmente com fortes subidas ao agravamento dos combates e ao risco de perturbação numa das principais rotas energéticas mundiais.
A ameaça da taxa, os ataques a navios e o restabelecimento do bloqueio americano à navegação iraniana tinham levado o petróleo a subir mais de 9% e a superar os 80 dólares por barril.
Mesmo com o recuo, o risco para o abastecimento permanece elevado. As forças americanas realizaram ataques contra alvos iranianos pela terceira noite consecutiva, enquanto Teerão respondeu com ofensivas contra posições militares dos EUA e dos seus aliados na região.
O Irão afirmou ter atacado uma base do Exército americano na Jordânia com mísseis balísticos. As autoridades jordanas disseram ter intercetado quatro projéteis.
O Bahrain, onde se encontra uma importante base naval dos Estados Unidos, anunciou igualmente ter repelido um ataque aéreo iraniano. Foram ouvidas explosões em Manama, a capital do país.
Guerra ameaça acordo alcançado em junho
A nova escalada colocou em causa o memorando de entendimento assinado em junho, que deveria suspender os combates, reabrir o Estreito de Ormuz e criar um período de 60 dias para negociações sobre o programa nuclear iraniano.
O entendimento não resolveu, contudo, a disputa fundamental sobre quem controla a passagem e em que condições os navios podem utilizá-la.
Trump já tinha previsto a possibilidade de uma cobrança americana. A 20 de junho, declarou que não haveria portagens durante ou depois da trégua, exceto se as negociações fracassassem e os Estados Unidos decidissem impor uma taxa.
Com a retoma dos ataques, Washington restabeleceu o bloqueio aos portos e à navegação iranianos. Trump argumentou que o Irão tinha violado o acordo ao voltar a ameaçar e atacar embarcações comerciais.
A substituição da taxa por investimentos dos países do Golfo representa um recuo na forma, mas não na estratégia. Os Estados Unidos continuam a pretender controlar a segurança da passagem, afastar o Irão do tráfego marítimo e fazer com que os aliados regionais contribuam financeiramente para a operação.
Em vez de cobrar diretamente a cada navio, Trump procura agora transformar a proteção de Ormuz em acordos económicos mais amplos com as monarquias do Golfo.
Falta saber que compromissos foram realmente assumidos, quanto dinheiro estará envolvido e se os países da região aceitaram pagar, através de investimento nos Estados Unidos, por uma missão militar que Washington apresenta como essencial para a segurança do comércio mundial.


















