Trump tentou travar a China com tarifas — Pequim mudou as etiquetas e bateu recordes nas exportações

Tarifas conseguiram reduzir o comércio diretamente registado entre os Estados Unidos e a China, mas não eliminaram os componentes chineses das cadeias de abastecimento

Francisco Laranjeira

Quando Donald Trump iniciou a guerra comercial contra a China, em 2018, o objetivo parecia claro: reduzir o défice dos Estados Unidos, recuperar fábricas e enfraquecer a capacidade exportadora de Pequim. Oito anos depois, porém, as tarifas terão mudado sobretudo as rotas percorridas pelos produtos, sem retirar à China o papel central nas cadeias industriais mundiais.

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Um estudo dos economistas Hunter L. Clark e Gregory Simitian, do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque, conclui que as alterações comerciais de 2025 tiveram pouco efeito nos principais desequilíbrios. O défice americano de bens e serviços, explicou a publicação ‘El Economista’, permaneceu praticamente inalterado em relação ao ano anterior, enquanto a China alcançou um excedente comercial recorde.

Em 2025, o défice comercial dos Estados Unidos rondou um bilião de dólares, aproximadamente 875 mil milhões de euros. Já o excedente comercial chinês aproximou-se de 1,2 biliões de dólares, cerca de 1,04 biliões de euros, acima de aproximadamente um bilião de dólares no ano anterior.

A explicação está na transformação das cadeias de abastecimento. Vietname, Tailândia, Malásia e Indonésia passaram a receber mais componentes e produtos intermédios chineses, ficando muitas vezes responsáveis apenas pelas últimas etapas de montagem. Quando chegam aos Estados Unidos, essas mercadorias surgem registadas como provenientes do Sudeste Asiático, embora uma parte relevante do seu valor continue a ter origem na China.

Os dados mostram que a diminuição do défice bilateral americano com a China foi acompanhada por um aumento semelhante do desequilíbrio com os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático, a ASEAN. Ao mesmo tempo, Pequim aumentou substancialmente o excedente comercial com esses mesmos países.

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Os computadores portáteis e tablets ilustram esta mudança. Em 2025, o défice dos Estados Unidos com a ASEAN nestes produtos aumentou 21 mil milhões de dólares, cerca de 18,4 mil milhões de euros. Em sentido contrário, o défice com a China caiu aproximadamente 24 mil milhões de dólares, o equivalente a 21 mil milhões de euros.

Isto não significa que os americanos tenham deixado de comprar computadores com tecnologia chinesa. Fabricantes como Lenovo, Apple, Dell e HP transferiram ou expandiram parte da montagem final para países como o Vietname e a Índia, continuando, porém, a recorrer a circuitos, memórias, ecrãs, processadores e outros componentes fabricados na China.

Dos cerca de 70 mil milhões de dólares — 61,3 mil milhões de euros — de aumento do excedente comercial chinês com a ASEAN em produtos tecnológicos, aproximadamente 47 mil milhões de dólares, ou 41,1 mil milhões de euros, corresponderam a componentes eletrónicos essenciais. A etiqueta final mudou, mas grande parte da cadeia de valor permaneceu chinesa.

A expansão da inteligência artificial está a reforçar este fenómeno. O défice americano com o Sudeste Asiático em equipamentos de rede destinados, entre outras aplicações, aos centros de dados aumentou 24 mil milhões de dólares, cerca de 21 mil milhões de euros. Os gastos mundiais com hardware ligado à IA poderão atingir 550 mil milhões de dólares em 2026, aproximadamente 481 mil milhões de euros, alimentando a procura por componentes ainda produzidos ou fornecidos pela China.

O estudo detetou também uma diferença crescente entre as exportações que Pequim declara enviar para os Estados Unidos e as importações chinesas registadas pelas autoridades americanas. Essa discrepância aumentou mais 25 mil milhões de dólares, cerca de 21,9 mil milhões de euros, durante 2025.

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Os economistas associam parte desta divergência aos incentivos para alterar a origem declarada das mercadorias. A taxa aduaneira efetivamente paga nas importações provenientes da China atingiu 34%, comparativamente com 25% para os produtos da ASEAN, sendo que cerca de metade das trocas com esta região nem sequer estava sujeita a direitos aduaneiros.

As tarifas conseguiram, assim, reduzir o comércio diretamente registado entre os Estados Unidos e a China, mas não eliminaram os componentes chineses das cadeias de abastecimento. Pequim reforçou os vínculos industriais com o Sudeste Asiático e transformou a região numa extensão da sua capacidade exportadora. A guerra comercial redesenhou o mapa das rotas, mas o centro de produção continua, em grande medida, na China.

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