Tudo começou no século XIX. De uma pequena farmácia aberta pela família Recordati em Correggio, no norte de Itália, nasceu um projecto que viria a transformar- se num grupo farmacêutico global. Em 1926, Giovanni Recordati deu corpo a essa ambição ao fundar o Laboratorio Farmacologico Reggiano, lançando as bases de uma empresa que, 100 anos depois, continua a crescer com o mesmo propósito: “Unlocking the full potential of life”.
Ao longo de um século, a Recordati construiu uma trajectória marcada pela inovação, pelo investimento contínuo e pela expansão internacional, estando hoje presente em mais de 150 países. Da saúde cardiovascular às Doenças Raras, passando pela urologia, gastroenterologia, reumatologia e saúde mental, a empresa tem procurado responder a necessidades médicas relevantes e contribuir para a melhoria dos cuidados de saúde em todo o globo.
Hoje, passadas três gerações e um século de história, o objectivo e a determinação de Giovanni Recordati continuam bem vivos. A empresa é um grupo global, cotado na Bolsa de Valores transalpina desde 1984 e com 4.700 colaboradores. Em entrevista à Executive Digest, Nelson Ferreira Pires, director-geral da Recordati para Portugal e Grécia, fala sobre este marco histórico da empresa, assim como de liderança, inovação, a importância do acesso aos medicamentos e os desafios que os sistemas de saúde enfrentam nos nossos dias.
A Recordati celebra um século de existência. Como explica a capacidade de uma empresa farmacêutica permanecer relevante durante 100 anos?
Cem anos de história não se alcançam por acaso. São o resultado de uma enorme capacidade de adaptação, de um investimento contínuo direcionados em I&D para desenvolver terapias “unmet medical needs em doenças raras, maximizar o valor do portefólio mais amplo através da gestão do ciclo de vida e de um compromisso permanente com as pessoas. A Recordati soube evoluir de uma farmacêutica tradicional para um grupo global com forte presença em áreas de elevada complexidade, como as Doenças Raras, que representam actualmente cerca de 40% do volume de negócios do grupo.
Permanecer relevante significa antecipar as necessidades dos doentes e combinar inovação científica com responsabilidade social e ambiental. É esse equilíbrio que tem sustentado o nosso crescimento ao longo de um século.
O centenário coincide com a apresentação de três novos valores corporativos: «Better Together», «Never Settle» e «Always Deliver». O que representam?
Mais do que slogans, representam a cultura da Recordati e a forma como procuramos cumprir a nossa missão: «Unlocking the full potential of life».
«Better Together» traduz a convicção de que os melhores resultados surgem da colaboração e da partilha. «Never Settle» ref lecte a nossa vontade permanente de inovar e procurar soluções que melhorem a vida dos doentes. Já «Always Deliver» representa o compromisso com a integridade, a confiança e o cumprimento daquilo que prometemos.
São valores que orientam as nossas decisões e reforçam a ideia de que o doente deve estar sempre no centro de tudo o que fazemos.
A inovação terapêutica é uma das vossas marcas. Como avalia o equilíbrio entre inovação, sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde e acesso dos doentes aos tratamentos?
Esse é um dos maiores desafios da saúde moderna. A inovação só tem verdadeiro valor quando chega aos doentes. A tecnologia e a Inteligência Artificial (IA) podem desempenhar um papel importante ao acelerar os processos de investigação e desenvolvimento e ajudar a tornar os tratamentos mais acessíveis. O equilíbrio exige diálogo entre indústria, reguladores e decisores políticos, bem como modelos de financiamento que reconheçam o valor clínico das novas terapêuticas. A inovação não deve ser vista apenas como um custo, mas também como um investimento na saúde, na qualidade de vida e na produtividade das populações.
Em Portugal continuamos a debater os tempos de acesso a medicamentos inovadores. O que deve mudar?
A transparência introduzida pelo Infarmed ao divulgar os tempos de aprovação foi um passo importante, mas continua a ser necessário acelerar processos. Portugal dispõe de excelentes profissionais de saúde e de elevada capacidade técnica, mas a burocracia continua a atrasar a chegada de terapêuticas inovadoras aos doentes.
É fundamental reforçar os recursos das entidades avaliadoras, simplificar procedimentos e criar mecanismos de aprovação mais rápidos para medicamentos destinados a necessidades sem alternativa terapêutica. O objectivo deve ser aproximar Portugal das melhores práticas europeias e garantir que os doentes têm acesso atempado à inovação.
«Unlocking the full potential of life». Como interpreta este propósito numa altura em que os sistemas de saúde enfrentam desafios como o envelhecimento da população e o aumento da doença crónica?
Para nós, significa acrescentar mais vida aos anos e não apenas mais anos à vida. Num contexto marcado pelo envelhecimento demográfico e pela crescente prevalência das doenças crónicas, isso implica uma visão mais abrangente da saúde.
Não basta disponibilizar medicamentos. É necessário apostar na prevenção, apoiar os doentes de forma integrada e garantir a sustentabilidade dos sistemas de saúde. Também significa gerir o negócio de forma responsável, contribuindo positivamente para a sociedade e para o ambiente.
Que metas estratégicas considera fundamentais para que a Recordati continue a crescer nos próximos dez anos?
A estratégia assenta em três pilares fundamentais. O primeiro é reforçar a liderança nas áreas terapêuticas onde já temos uma posição consolidada e reforçar os investimentos direcionados em I&D para desenvolver terapias para “unmet medical needs” em doenças raras.
O segundo passa pela transformação digital e pela utilização responsável das novas tecnologias para aumentar a eficiência e acelerar a inovação.
O terceiro é a sustentabilidade, mantendo objectivos ambientais ambiciosos e promovendo uma gestão responsável em todas as áreas da organização.
Enquanto líder da operação em Portugal e na Grécia, quais considera serem as competências mais importantes para liderar equipas num contexto de mudança permanente?
Vivemos num contexto de transformação contínua e de forte aceleração tecnológica, em que a IA desafia diariamente a forma como trabalhamos e tomamos decisões. Neste cenário, a capacidade mais importante de um líder é saber passar do foco no «eu» para o «nós». Liderar hoje exige empatia, capacidade de escuta, adaptabilidade e sensibilidade cultural, aspectos particularmente relevantes quando se lideram equipas em diferentes países, como Portugal e a Grécia. Mais do que exercer autoridade, importa liderar através da influência, mobilizando as pessoas em torno de um propósito comum. É essa capacidade que gera compromisso, desenvolve talento e transforma a incerteza em oportunidades de crescimento e aprendizagem.
O que aprendeu ao longo do seu percurso profissional sobre liderança que gostaria de ter sabido mais cedo e qual o momento mais marcante enquanto líder da Recordati no nosso país?
Aprendi que é mais importante ser influente do que poderoso. O poder está associado à função e é, por natureza, transitório; a influência conquista-se através da confiança, da credibilidade e da capacidade de inspirar os outros. É uma lição que gostaria de ter compreendido mais cedo.
Quanto ao momento mais marcante, é difícil destacar apenas um após duas décadas à frente da operação em Portugal. Ainda assim, o processo de transformação da antiga Jaba na actual Recordati ocupa um lugar especial. Foi um percurso de mudança profunda, que permitiu transformar uma empresa relativamente discreta numa organização mais dinâmica, atractiva e reconhecida dentro do Grupo. Ver talento desenvolvido em Portugal assumir responsabilidades internacionais e assistir ao reconhecimento das nossas boas práticas a nível global tem sido uma das experiências mais gratificantes desta jornada.
Como vão ser assinalados os 100 anos da Recordati em Portugal?
As celebrações arrancaram oficialmente com a Grande Gala dos 100 Anos, realizada (19 de Maio) em Lisboa, e prolongam-se ao longo de 2026 através de várias iniciativas centradas em três pilares: as pessoas, a história e o futuro da saúde. Entre as principais acções destaco o projecto «100 Histórias Recordati», que reúne testemunhos e marcos que ligam o legado global da empresa à sua presença em Portugal, iniciativas de responsabilidade social e voluntariado, bem como novas medidas de promoção do bem-estar e da saúde mental dos colaboradores.
Mais do que celebrar 100 anos de história, queremos reforçar o nosso GESTÃOcompromisso com Portugal, com os doentes, com os profissionais de saúde e com a comunidade científica. Este centenário não representa uma meta alcançada, mas o início de um novo ciclo. Guiados pelos valores «Better Together», «Never Settle» e «Always Deliver», olhamos para o futuro com a mesma ambição que nos trouxe até aqui: inovar e concretizar o nosso propósito de «Unlocking the full potential of life».
Se tivesse de resumir os próximos 100 anos da Recordati numa única ambição, qual seria?
Ser o parceiro global de saúde mais confiável e mais humano, garantindo que nenhuma pessoa — independentemente da raridade da sua doença — fica esquecida ou impedida de alcançar o seu máximo potencial de vida.
Este artigo faz parte da edição de Junho (n.º 243) da Executive Digest.













