A possibilidade de retaliação iraniana em solo europeu existe, mas não aponta, para já, para um cenário de ataque maciço e organizado. A análise da ‘CNN Portugal’ sublinha que, mesmo que o regime de Teerão se mantenha de pé, “não haverá certamente um risco muito elevado para a Europa”, embora o contexto exija vigilância reforçada perante ameaças mais difusas e menos previsíveis.
O alerta ganhou novo peso depois de dois mísseis iranianos terem sido lançados na direção de Chipre, Estado-membro da União Europeia, sinal político de que o conflito entre Israel, os Estados Unidos e o Irão deixou de estar confinado ao Médio Oriente. A guerra não entrou formalmente na Europa, mas aproximou-se o suficiente para reabrir a questão recorrente: há risco de retaliação terrorista no continente?
Em declarações à ‘CNN Portugal’, Jorge Silva Carvalho, antigo chefe do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, trava o alarmismo. Na sua leitura, se o regime iraniano sobreviver, ainda que enfraquecido, tenderá a concentrar-se na consolidação interna. “Vai tentar sarar feridas, restabelecer-se internamente, assegurar o controlo do país”, sustenta, admitindo uma “morte lenta do regime”, mas não necessariamente imediata. Um poder fragilizado procurará, antes de mais, estabilidade doméstica e coesão interna, evitando uma escalada externa que possa precipitar a sua queda.
O cenário altera-se caso o regime colapse. Aí, o risco deixa de ser centralizado e passa a ser fragmentado. “Quando se parte a pedra, a pedra transforma-se em várias pedrinhas que rolam”, descreve Jorge Silva Carvalho, antecipando a eventual dispersão de quadros da Guarda Revolucionária, operacionais treinados e redes secundárias movidas por lógica de vingança. Ainda assim, insiste: “Eu, apesar de tudo, não vejo um risco acrescido para a Europa em qualquer dos cenários.” A ameaça, a existir, seria mais difusa, oportunista e menos hierarquizada.
José Manuel Anes, antigo presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, desloca o foco para um perigo menos visível. Não antevê, para já, uma grande operação coordenada, mas admite a possibilidade de ações isoladas. “Um ataque de algum lobo solitário é uma possibilidade”, afirma, lembrando que a propaganda e a narrativa de retaliação podem influenciar indivíduos sem ligação formal a estruturas organizadas.
A diferença histórica entre o jihadismo sunita — responsável por atentados em Madrid, Londres, Paris, Bruxelas, Nice, Berlim ou Viena — e a matriz xiita do Irão também pesa na análise. “Não são muito vulgares atentados ligados ao Irão por essa Europa fora”, enquadra José Manuel Anes, ainda que admita a hipótese de atuação indireta através de proxies como o Hezbollah. Jorge Silva Carvalho reforça essa distinção: o Irão tem redes e ramificações, mas não uma tradição de células autogeradas e descontroladas como as associadas ao Estado Islâmico.
Quanto aos alvos prioritários, ambos convergem: Estados Unidos e Israel continuam a ser o foco principal. No entanto, por serem também os mais protegidos, não é impossível que ações procurem espaços menos blindados. A Europa surge como território mais acessível, ainda que não central na hierarquia estratégica.
No caso português, a análise é prudente. A base das Lajes, nos Açores, é apontada como hipótese remota. “Mesmo as Lajes e mesmo Portugal seriam uma coisa secundaríssima”, considera Jorge Silva Carvalho, sublinhando que o terrorismo privilegia alvos com maior impacto mediático. “O importante é a comunicação e a parte mediática”, resume, distinguindo entre centros simbólicos e periferias estratégicas.
José Manuel Anes prefere enfatizar a capacidade preventiva nacional. Recorda o papel do Serviço de Informações de Segurança, do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa e da Unidade Nacional de Contraterrorismo da Polícia Judiciária, destacando ainda a importância da cooperação internacional e da permuta de informações com países como Espanha, França, Marrocos e Israel.
O consenso é claro: não existe risco zero. “Convém prevenir para não remediar”, sintetiza José Manuel Anes. O risco aumentou, mas permanece, para já, lateral e difuso, longe de um cenário de ofensiva organizada contra a Europa.














