“Amerexit”: Especialistas avisam que Europa deve preparar-se para a crescente fuga de cérebros dos EUA. Portugal entre principais destinos

Com a reeleição de Donald Trump para um segundo mandato presidencial – e com as tarifas que anunciou e outras medidas que têm gerado polémica e desconfiança em todo o mundo -, cresce nos Estados Unidos um sentimento de instabilidade política que está a levar cada vez mais cidadãos, sobretudo altamente qualificados e financeiramente confortáveis, a ponderar uma mudança de vida para a Europa.

Pedro Gonçalves

Com a reeleição de Donald Trump para um segundo mandato presidencial – e com as tarifas que anunciou e outras medidas que têm gerado polémica e desconfiança em todo o mundo -, cresce nos Estados Unidos um sentimento de instabilidade política que está a levar cada vez mais cidadãos, sobretudo altamente qualificados e financeiramente confortáveis, a ponderar uma mudança de vida para a Europa. A tendência já é visível para especialistas que ajudam norte-americanos a relocalizarem-se, e estes avisam: a União Europeia deve preparar-se para acolher este novo tipo de migrantes.

Uma dessas pessoas é Julia, cidadã russo-americana e anestesista que trabalhou na linha da frente da pandemia da COVID-19 em Nova Iorque. Apesar de já ter considerado sair dos Estados Unidos anteriormente, foi a vitória de Trump nas últimas eleições que a levou a dar passos concretos nesse sentido. “Reparei que as pessoas que são imigrantes, como eu, ficaram muito mais preocupadas depois das eleições. Vimos logo os sinais de alerta”, afirmou em entrevista à Euronews Next. Julia quer agora trabalhar na indústria farmacêutica ou biotecnológica na Europa e está a considerar destinos como a Dinamarca, a Alemanha ou a Suíça, por serem mercados compatíveis com as suas competências. Pediu anonimato à Euronews por ainda estar à procura de emprego fora dos EUA.

Julia não está sozinha. É uma das muitas pessoas que participam no subreddit “Amer/Exit” – uma referência satírica ao “Brexit” – onde utilizadores partilham conselhos e estratégias para sair dos Estados Unidos em direção à Europa ou ao Canadá. Embora ainda seja cedo para falar de uma verdadeira “fuga de cérebros”, os especialistas acreditam que o fenómeno está a crescer e que a Europa tem de se preparar.

Procura por apoio especializado dispara após vitória de Trump
Arielle Tucker, fundadora da Connected Financial Planning, uma empresa que presta apoio a americanos em processo de transição para a Europa, confirma esse aumento de interesse. Na semana seguinte à reeleição de Trump, Tucker recebeu mais de 30 novos pedidos de clientes norte-americanos – um volume de procura que se tem mantido constante nos meses seguintes.

“Muitos desses indivíduos sentiam que não tinham controlo sobre nada e que tinham de fazer alguma coisa”, explicou à Euronews Next. “Simplesmente não conseguíamos dar conta das chamadas”.

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Os seus clientes têm, na maioria, entre 30 e 40 anos, exercem funções executivas em setores como a tecnologia, a indústria farmacêutica ou a banca, e são originários de grandes centros urbanos como Nova Iorque, Los Angeles, São Francisco ou Boston. Em muitos casos, trabalham para multinacionais com escritórios na Europa ou têm meios para financiar autonomamente a sua mudança.

Segundo Tucker, muitos destes americanos tinham já considerado mudar-se de forma passiva, mas a atual situação política acelerou o processo. “Aperceberam-se de que não gostavam do clima político nos EUA”, observou.

Destinos preferidos: Portugal entre os países mais procurados
Alex Ingrim, fundador da Liberty Atlantic Advisors, uma empresa de gestão de fortunas, também confirma o aumento da procura. Os seus clientes, geralmente mais velhos – entre os 40 e os 60 anos –, trabalham frequentemente como “nómadas digitais”, no setor da tecnologia, capital de risco ou estão a planear a reforma.

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“Muitas pessoas sentem que, quanto mais tempo permanecem nos EUA, mais incertas ficam quanto à qualidade de vida e à forma como isso pode afetar o seu bem-estar financeiro”, explicou Ingrim.

Quanto aos destinos escolhidos, Tucker e Ingrim identificam países como Espanha, Portugal, Suíça e Alemanha como sendo particularmente atrativos. A escolha depende muitas vezes das oportunidades de imigração e das exigências legais de cada país.

Salários mais baixos e obstáculos fiscais ainda são desafios
Apesar do entusiasmo, a transição não é isenta de dificuldades. Um dos principais obstáculos é o desfasamento salarial entre os EUA e a Europa. Ingrim cita o exemplo de Paris: “Ouvem-se números em que os salários são um terço do que seriam em Los Angeles ou São Francisco. Penso que isso é um obstáculo financeiro, na medida em que vai afetar o meu futuro”.

Para Federico Steinberg, analista sénior de economia e comércio internacional no Instituto Real Elcano, em Espanha, as empresas europeias deveriam adaptar-se a este novo perfil de trabalhador. “As empresas deveriam oferecer aos americanos salários mais elevados ou benefícios adicionais, como apoio na habitação, para os ajudar a dar o salto”, defendeu.

Steinberg considera ainda que é essencial uma estratégia de carreira a longo prazo: “A Europa, se quiser tornar-se atrativa, tem potencial para isso. Tem o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, tem a cultura, a parte do lazer… por isso, o que importa são as oportunidades de carreira”.

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A estrutura fiscal é outra barreira importante. De acordo com Tucker, o sistema fiscal norte-americano impõe obrigações e penalizações mesmo quando os cidadãos vivem no estrangeiro. “Se um americano quiser poupar para a reforma com uma pensão fora dos EUA, muitas vezes há considerações fiscais punitivas nos EUA sobre isso”, referiu.

Ainda assim, há sinais de que o mercado financeiro europeu está a adaptar-se. Ingrim diz que antes da pandemia e da primeira presidência de Trump, “a maioria dos serviços financeiros não trabalhava com americanos porque não havia um número suficiente de americanos aqui”. Mas agora, “recebo telefonemas sobre isso todos os meses”.

Steinberg defende que a União Europeia deveria ir mais longe e considerar incentivos fiscais a curto prazo para atrair talentos norte-americanos, à semelhança do que acontece com atletas de topo.

Julia, de volta a Nova Iorque, está a planear a sua mudança com calma. Embora estime que o processo possa demorar um ano e meio, sente-se animada com a ideia. “Consigo imaginar-me lá [na Europa]”, afirmou. “Sinto-me entusiasmada quando vejo os anúncios de emprego”.

Apesar de alguns receios sobre a possibilidade de se sentir isolada ou sozinha, sobretudo ao mudar-se para uma nova cidade, Julia vê na Europa não apenas uma oportunidade profissional, mas também a possibilidade de estar mais próxima da família — os pais estão a planear a reforma em Portugal.

Questionada sobre o que a poderia convencer a ficar nos Estados Unidos, a resposta é direta: “A não ser que toda a administração seja destituída ou despedida, há muito pouco que me possa convencer”.

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