De Obama “macacos” a Trump “Jesus”: há limites para o vício do presidente americano nas redes sociais?

Trump utiliza deliberadamente as suas publicações para forçar os meios de comunicação a alterar a agenda e amplificar as suas mensagens

Francisco Laranjeira

Donald Trump continua a usar as redes sociais como uma das suas principais ferramentas políticas, recorrendo a publicações frequentes — muitas vezes durante a noite — para mobilizar apoiantes, dominar o ciclo mediático e provocar reações imediatas. No entanto, este padrão, que marcou toda a sua carreira política, começa a dar sinais de desgaste, escreve o ‘The Independent’.

Segundo fontes próximas das suas campanhas e administrações, Trump utiliza deliberadamente as suas publicações para forçar os meios de comunicação a alterar a agenda e amplificar as suas mensagens. Durante anos, esta estratégia revelou-se eficaz, gerando controvérsia e garantindo visibilidade constante.

Mas esse ciclo parece estar a mudar. Nos últimos meses, algumas das publicações mais polémicas do presidente começaram a gerar críticas não apenas entre adversários políticos, mas também dentro do próprio Partido Republicano.

Um dos episódios mais marcantes ocorreu quando Trump partilhou um vídeo que retratava Barack e Michelle Obama de forma considerada racista, provocando uma onda de condenação, incluindo de figuras republicanas. O senador Tim Scott classificou o conteúdo como “a coisa mais racista” que tinha visto associada à Casa Branca, enquanto outros membros do partido exigiram a sua remoção.

Perante a pressão, Trump acabou por apagar o conteúdo — um gesto raro num historial marcado pela recusa em recuar. Ainda assim, o presidente manteve que não tinha visto as partes mais controversas do vídeo.

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Apesar disso, a atividade nas redes sociais não abrandou. Em plena escalada do conflito com o Irão, Trump recorreu novamente à sua plataforma ‘Truth Social’ para lançar ameaças contra infraestruturas civis e fazer declarações consideradas por especialistas como extremamente graves.

Uma dessas publicações, em que sugeria a destruição de uma “civilização inteira” caso as suas exigências não fossem cumpridas, gerou forte condenação internacional, incluindo do Papa Leão XIV, que classificou as declarações como “inaceitáveis”.

A reação de Trump foi imediata, com novos ataques ao líder da Igreja Católica, a quem chamou “fraco” e criticou em matérias de política externa e segurança. Na mesma sequência, publicou ainda uma imagem gerada por inteligência artificial que o retratava como uma figura de inspiração religiosa, desencadeando nova controvérsia.

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Desta vez, a reação negativa voltou a surgir também entre apoiantes conservadores e figuras religiosas, que consideraram o conteúdo ofensivo. Poucas horas depois, a publicação foi removida — mais um recuo pouco habitual.

Este padrão de publicações controversas seguidas de apagamentos começa a levantar dúvidas sobre a eficácia da estratégia digital de Trump. Analistas apontam que, embora continue a mobilizar uma base fiel, o desgaste pode estar a aumentar, inclusive entre eleitores que anteriormente apoiaram o presidente.

Com as eleições intercalares de 2026 no horizonte, a questão que se coloca é se a fórmula que impulsionou Trump ao poder continuará a funcionar — ou se o cansaço perante a sucessão de polémicas poderá começar a pesar no seu capital político.

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