Recentemente desclassificados, documentos da CIA revelam um programa secreto de testes com armas biológicas nos Estados Unidos, conduzido ao longo de duas décadas durante a Guerra Fria. Os registos indicam que um “exército secreto da CIA” foi responsável pela disseminação de agentes biológicos e químicos em várias cidades norte-americanas, incluindo Nova Iorque, São Francisco e Tampa Bay, resultando na morte de civis.
O tema foi abordado pelo jornalista Walter H. Bowart no manuscrito The Invisible Third World War, escrito em 1985, que descreve as táticas de guerra psicológica e biológica desenvolvidas pelos governos, em particular pelos Estados Unidos. O texto, que nunca chegou a ser publicado oficialmente, detalha experiências conduzidas entre 1949 e 1969, que utilizaram agentes biológicos e químicos sem o conhecimento da população.
Um dos exemplos mais notórios ocorreu em 1950, quando a Marinha dos EUA pulverizou bactérias ao longo da costa de São Francisco, como parte da operação Sea Spray. O teste resultou na hospitalização de 11 pessoas com infeçções graves do trato urinário, tendo um dos pacientes, Edward Nevin, falecido devido à infecção.
Ataques biológicos em cidades norte-americanas
Os documentos indicam que a CIA realizou experiências semelhantes noutras cidades. Em Nova Iorque, agentes biológicos foram libertados no Lincoln Tunnel através de malas modificadas e de um automóvel equipado com tubos de escape adaptados. Um artigo publicado pelo The Washington Post em 1979 refere que a Igreja da Cientologia descobriu registos destes ataques e os denunciou.
Na Flórida, uma epidemia de tosse convulsa, ocorrida entre 1954 e 1955, foi atribuída a um teste biológico clandestino da CIA. Segundo documentos analisados pela Igreja da Cientologia, os agentes da CIA utilizaram uma estirpe da bactéria Bordetella pertussis proveniente de Fort Detrick, no Maryland, espalhando-a em Tampa Bay. A epidemia resultou em 1.080 infeções e 12 mortes.
Experiências no Havai e no Alasca
Outros testes biológicos e químicos foram conduzidos no Havai e no Alasca, sob o código Project 112. No Havai, a experiência Big Tom envolveu a pulverização da bactéria Bacillus globigii sobre a ilha de Oahu para simular um ataque biológico. Na altura, acreditava-se que a estirpe era inofensiva, mas mais tarde foi descoberto que poderia causar infeções graves em pessoas com sistemas imunitários comprometidos.
No Alasca, os testes Devil Hole I e Devil Hole II utilizaram gás sarin e o agente nervoso VX em manéquins vestidos com fardas militares. O VX é uma das substâncias químicas mais mortíferas conhecidas, permanecendo no ambiente por longos períodos devido à sua natureza viscosa e de evaporação lenta.
Programa secreto da CIA e seu desmantelamento
Os documentos desclassificados revelam que estes testes faziam parte de um plano mais amplo para desenvolver armas químicas e biológicas que pudessem ser utilizadas sem provocar um holocausto nuclear. De acordo com Bowart, as autoridades concluíram que “a única forma segura de travar uma guerra era travá-la silenciosamente”.
Apesar da gravidade das revelações, o Departamento de Defesa dos EUA apenas reconheceu, em 2002, que alguns testes nos anos 1960 utilizaram armas químicas e biológicas reais. Os Estados Unidos encerraram formalmente o seu programa de armas biológicas no final dos anos 1960 e comprometeram-se a destruir todas as armas químicas no âmbito do Tratado de 1997 sobre a Proibição de Armas Químicas. Entretanto, a CIA continua sem comentar as novas revelações.














