Durante quase duas décadas, mãe e filho viveram na mesma região, mas como se fossem desconhecidos. Havia telefonemas ocasionais, algumas perguntas feitas a conhecidos sobre o estado de saúde da mulher e pouco mais. Nunca houve visitas, reconciliação ou um verdadeiro reencontro.
Segundo o ‘HuffPost’, essa ausência marcou de tal forma a vida da mãe que acabou por ficar refletida em três testamentos diferentes. Em todos eles tomou a mesma decisão: deserdar o filho.
O afastamento começou em 2007, na sequência de uma discussão relacionada, ao que tudo indica, com questões financeiras. A partir daí, a relação nunca mais recuperou. Testemunhas ouvidas pelo tribunal descreveram uma mulher profundamente magoada pela ausência do filho ao longo dos anos.
Apesar de viajar frequentemente para a cidade onde a mãe vivia, o homem nunca a visitava. Nem sequer soube que ela estava doente, refere a decisão judicial.
Depois da morte da mãe, o filho tentou reverter a situação. Reclamou cerca de 71 mil euros da herança, defendendo que nunca tinha cortado totalmente o contacto. Alegou que falava com os pais por telefone duas ou três vezes por ano e que perguntava a conhecidos como estava a mãe.
Para os juízes, porém, isso não era suficiente para demonstrar a existência de uma verdadeira relação familiar. O tribunal concluiu que interessar-se ocasionalmente pelo estado de saúde da mãe não compensava 17 anos de ausência e confirmou que o afastamento era imputável exclusivamente ao filho.
A decisão baseou-se não apenas nos testemunhos apresentados, mas também no facto de a mãe ter mantido exatamente a mesma vontade ao longo de vários testamentos, redigidos em momentos diferentes da vida. Para os magistrados, isso demonstrava que não se tratava de uma decisão tomada por impulso ou motivada por um episódio isolado.
Segundo o ‘HuffPost’, o caso foi julgado ao abrigo da legislação da Catalunha, que admite a deserdação quando existe uma ausência manifesta e prolongada de relações familiares imputável ao herdeiro. A decisão ainda pode ser alvo de recurso.
Mais do que uma disputa por dinheiro, o processo acabou por retratar uma realidade cada vez mais comum: relações familiares que se quebram durante anos e que nunca chegam a ser reconstruídas. Neste caso, quando a oportunidade de reaproximação desapareceu com a morte da mãe, já era demasiado tarde para recuperar não só a herança, mas sobretudo o tempo perdido.














