Três meses de conflito Israel-Hamas: afinal, quem é que está a vencer?

Três meses após o início do conflito, os civis têm suportado o peso da violência dos dois lados, com a morte de mais de 22 mil palestinianos em Gaza e de 1.200 israelitas

Francisco Laranjeira

“Nenhum plano de batalha sobrevive ao primeiro contato com o inimigo”: a frase do famoso estrategista alemão Helmuth von Moltke aplica-se perfeitamente à tragédia que o mundo testemunha em Gaza. Três meses após o início do conflito, os civis têm suportado o peso da violência dos dois lados, com a morte de mais de 22 mil palestinianos em Gaza e de 1.200 israelitas – cerca de 85% dos habitantes de Gaza foram deslocados e um quarto da população enfrenta a fome, denunciaram as Nações Unidas.

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O conflito dá poucas mostras de poder parar num futuro próximo e pode resultar num impasse, segundo ilustrou a publicação ‘The Conversation’. Mas, há quem esteja a vencer? Dificilmente…

Israel: sucesso limitado

Até agora, Telavive não conseguiu alcançar qualquer um dos seus principais objetivos: a destruição do Hamas e a liberdade dos restantes 240 israelitas feitos reféns a 7 de outubro. Os combatentes dos Hamas continuam a utilizar a sua rede de túneis para emboscar soldados israelitas e estão a disparar foguetes contra Israel, embora a um ritmo mais baixo.

Ainda há cerca de 130 israelitas reféns e foi libertado apenas um refém pelas IDF (Forças de Defesa de Israel), ao contrário do sucesso obtido pelos mediadores Qatar e Egito.

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Israel alcançou um importante sucesso simbólico com o aparente assassinato do vice-líder do Hamas, Saleh al-Arouri, em Beirute, no passado dia 2 – embora Israel não tenha reivindicado formalmente a sua responsabilidade, há poucas dúvidas de que esteve por trás do assassinato. Mas os dois líderes do Hamas que Israel mais deseja eliminar – o político Yahya Sinwar e o militar Mohammed Deif – ainda estão a monte.

Qual será o dia seguinte?

O Governo israelita também está dividido sobre a forma como Gaza deverá ser administrada quando cessarem os combates.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu avisou que não aceitará que Gaza continue a ser “Hamastan” (controlado pelo Hamas) ou a tornar-se “Fatahstan” (governado pela Autoridade Palestiniana, que é dominada pelo partido secular Fatah). O presidente dos EUA, Joe Biden, prefere um Governo de Gaza liderado por uma Autoridade Palestiniana reformada, mas Netanyahu rejeitou isto e não articulou um plano alternativo.

O ministro da Defesa israelita, Yoav Gallant, apresentou esta semana um plano para o futuro de Gaza, que envolveu governação por autoridades palestinianas não especificadas – o plano foi alvo de múltiplas críticas, entre as quais as do ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, apelaram a uma solução que incentive a população palestiniana a emigrar e que os colonos israelitas regressem a Gaza, o que foi considerado inaceitável pela administração Biden.

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A campanha de bombardeamento massivo de Israel conseguiu virar a opinião internacional contra ela, como ficou expresso na votação da Assembleia Geral das Nações Unidas, em que 153 dos 193 Estados-membros apelaram a um cessar-fogo.

Hamas ainda resiste

Apesar de ferido, está ainda ativo: Israel afirmou ter matado ou capturado entre 8 e 9 mil dos cerca de 30 mil homens da força de combate do Hamas. No entanto, a principal conquista do Hamas é que ainda está de pé. Para vencer, o grupo militante não tem de derrotar Israel – precisa apenas de sobreviver ao ataque das IDF.

O Hamas pode reivindicar alguns pontos positivos. O seu ataque de 7 de outubro colocou a questão palestiniana no topo da agenda do Médio Oriente.

Os cidadãos dos estados árabes que assinaram acordos de paz com Israel estão claramente irritados. E um acordo israelo-saudita para normalizar as relações entre os países, que era iminente antes do conflito, está fora de questão por enquanto.

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Estados Unidos mostrou fraqueza com Israel

Biden abraçou Netanyahu imediatamente após o ataque do Hamas, mas os esforços dos Estados Unidos desde então para influenciar os planos de guerra de Israel não produziram quaisquer resultados. O secretário de Estado Antony Blinken falhou no seu esforço para persuadir Israel a acabar com a guerra no início do novo ano.

Além disso, as divisões nos Estados Unidos podem prejudicar Biden na preparação para as eleições presidenciais de novembro. O apoio dos EUA à Ucrânia também se tornou uma vítima da guerra. Os republicanos, seguindo o exemplo de Trump, estão a dar prioridade ao apoio a Israel e a impedir o fluxo de migrantes através da fronteira com o México. Estão a perder o interesse na Ucrânia – o que beneficia claramente o presidente russo, Vladimir Putin.

Nações Unidas mostraram-se irrelevantes

A ONU também falhou na sua missão de manter a paz mundial. A única resolução do Conselho de Segurança sobre a guerra não significou nada, como fez questão de salientar a Rússia. A recente resolução ilustrou o crescente isolamento de Israel, mas não fez nada para mudar o curso da guerra.

Irão está atento às oportunidades

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Teerão não dá sinais de se querer envolver diretamente na guerra. Mas parece não ter problemas com o facto de os seus representantes – o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iémen – fornecerem apoio simbólico ao Hamas através de ataques limitados de foguetes, drones e artilharia.

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