“Para comprar o mesmo que se comprava em 2002, com um salário de mil euros, seria necessário hoje um salário de 1.422 euros”, mais 42%, denunciou esta segunda-feira o economista João Cerejeira, em declarações ao ‘Diário de Notícias’: em 2022, 56% dos trabalhadores recebiam um salário inferior a 1000 euros. Nos mais jovens, a percentagem era de 65%.
A perda de poder de compra foi, para o professor da Universidade do Minho, resultado do “fraco crescimento de economia portuguesa que vai desde 2000 até à pandemia” – foram 20 anos “de crescimento muito lento, em que o emprego aumentou, mas o valor gerado por trabalhador sobe muito pouco. E isso está associado a um crescimento muito lento dos salários”.
O economista João Reis destacou que o fraco crescimento da economia portuguesa deve-se ao seu padrão de especialização, que se caracteriza pela “presença muito forte no conjunto da atividade económica de ramos com baixa produtividade”: na prática, “75% do emprego em Portugal está em ramos com produtividade igual ou inferior a 90% da produtividade média, alguns até bastante inferior”.
A emigração é uma das consequências mais evidentes dos níveis salariais. Desde 2011, a média anual de emigrantes está perto das 100 mil pessoas. O sistema de emprego nacional “não é inclusivo” e os jovens portugueses mostram cada vez mais apetência para o estrangeiro – segundo João Reis, a estrutura da economia não mudou em 20 anos para um jovem ter ofertas salariais melhores. “Podem estar a beneficiar do salário médio valorizado, mas temos o algodão da emigração que não engana”, referiu o especialista, que acusou as empresas de se “acantonarem no lado fácil da economia. Os grandes protetores da classe empresarial portuguesa são os trabalhadores que são incorporados nessas empresas através de níveis salariais muito baixos”, indicou, sublinhando ser necessário “olhar para as baixas qualificações das lideranças empresariais e do tipo de organização que criam”.














