A invasão da Ucrânia está ‘prevista’ há três anos – embora os eventos sejam complicados, e somente com o tempo e perspetiva poderemos um dia perceber a dimensão da decisão russa pelo conflito, há no entanto um relatório produzido em 2019 que explica, em 354 páginas, como ‘afundar’ a Rússia e, até ao momento, tem correspondido às decisões tomadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia.
Os responsáveis pelo relatório são a Rand Corporation – think tank americano de política global sem fins lucrativos criado em 1948 pela Douglas Aircraft Company para disponibilizar análises às Forças Armadas dos Estados Unidos. É financiado pelo governo dos EUA e por fundos privados, corporações, universidades e particulares. Têm clientes que vão desde a Força Aérea até à DEA (Drug Enforcement Administration), bem como Governos estrangeiros, como o Japão, Abu Dhabi e Noruega, assim como diversas agências da União Europeia.
O relatório começa por afirmar que “as medidas mais promissoras para enfatizar as vulnerabilidades económicas, políticas e militares da Rússia estão no campo da produção de energia e da pressão internacional”, embora sublinhe uma máxima: “A Rússia nunca é tão forte ou tão fraca quanto parece.” O relatório intitulado “Exagerar e desequilibrar a Rússia” avaliou os benefícios, os riscos e os custos de desequilibrar a Rússia, sem no entanto, subestimar o poderio militar russo.
É por isso proposto no relatório uma campanha para aumentar as tensões no conflito da Rússia com a Ucrânia “sem chegar a golpes”. Defendem ainda o fornecimento de “ajuda letal” na forma de armas de última geração a Kiev para a sua luta contra Putin. Pode ler-se igualmente uma sugestão de ‘estrangular’ economicamente o Kremlin porque “a maior vulnerabilidade da Rússia, em qualquer competição com os Estados Unidos, é a dependência da sua economia nas exportações de petróleo e gás”. As sanções económicas são apontadas como uma excelente arma.
Os Estados Unidos teriam de aumentar os seus compromissos com a energia renovável e assim encorajar outros países a fazer o mesmo. No entanto, segundo a Rand, a eficácia destas medidas será determinada pelo quanto a China participa na Rota da Seda e faz negócios com Moscovo. Outra forma de ‘drenar’ a Rússia é incentivar uma fuga massiva de cérebros, que só teria resultados a longo prazo, devido ao envelhecimento da população do país. Algo que tem acontecido ao longo do conflito na Ucrânia, com a saída de 300 mil profissionais do sector da tecnologia.
Em termos de medidas geopolíticas, o relatório sugere ainda que a Bielorrússia seja sancionada economicamente, algo já imposto pela União Europeia. É sublinhado também a possibilidade de expulsão das tropas russas da Transnístria.
No entanto, a Rand Corporation não ‘joga’ sozinha: o Clube de Izborsk, think tank que é o equivalente russo e tem estado por trás de algumas das principais decisões de Putin, também assinou um relatório. No grupo, estão alguns dos possíveis candidatos à sucessão do presidente russo e, apesar de pouco conhecido, terá sido quem exortou Putin a recuperar a grandeza perdida da Rússia. Foi fundado em 2012 pelo escritor Alexander Prokhanov mas as suas raízes remontam à década de 1980. Estão incluídos cientistas ortodoxos, economistas, jornalistas, políticos e padres. Muitos dos chamados ‘falcões’ russos de Putin são membros, incluindo Tikhon Shevkunov, confessor pessoal de Putin, analista-chefe da Rosneft, e Sergei Glazyev, conselheiro do presidente.
O Clube de Izbork apoia um confronto militar com o Ocidente, bem como uma estratégia nuclear. Através do manifesto ‘Salve a Ucrânia’, forneceu a base ideológica para a agressão da Rússia em 2013 e a anexação da Crimeia. Em reconhecimento da importância das ideias do clube no desenrolar dos eventos de 2014, os militares russos nomearam um avião bombardeiro de Izborsk. No seu conceito de ‘Nova Rússia’, está incluído o Donbass – foram também os cérebros da noção de que a Ucrânia é um país governado por elites neonazis e que a missão sagrada e civilizacional de Putin é restaurar a unidade histórica.
Alexander Dugin, membro de Izborsk e considerado por muitos como o pensador mais influente da Rússia, recomendou a Putin ‘O Terceiro Império’, o livro de cabeceira do presidente russo. Na história, o protagonista Vladimir II assume o controlo do Turcomenistão, Abkhazia e Ossétia, na Geórgia. Ao mesmo tempo, provoca uma revolta popular na Ucrânia, em sítios como Donetsk, Luhansk e Crimeia, que pede ajuda a Moscovo. O Ocidente impõe sanções, o que resulta numa crise financeira global. Finalmente, Vladimir II consegue lançar as suas armas nucleares. Embora seja ficção, pode ser a crónica contemporânea que tem inspirado Putin.













