A análise de Luís Ribeiro, administrador do Novobanco
Os resultados deste último Barómetro abordam, pela primeira vez, os impactos das cheias/tempestades e da guerra no Médio Oriente. É verdade que estes choques apanharam a economia portuguesa num momento relativamente favorável, exibindo excedentes nas contas externas e públicas, crescimento acima da média europeia e condições de financiamento favoráveis (com avaliações mais positivas das agências de rating). Mas é inegável que eles contribuem para uma deterioração do outlook, trazendo novos desafios para as empresas e famílias. Os sinais de menor crescimento e maior inflação começam já a ser visíveis. O Banco de Portugal reviu em baixa as suas previsões de crescimento, de 2.3% para 1.8% em 2026. De acordo com o Barómetro deste mês, 78% dos inquiridos mostram-se preocupados com os impactos do conflito no Irão ao nível dos custos e das cadeias de abastecimento (embora vejam esses impactos como “geríveis”). Dois terços antecipam um aumento global dos custos entre 5% e 20%. Esta pressão já se começou a fazer sentir ao nível dos indicadores de inflação, quer em Portugal quer no conjunto da Zona Euro, neste caso fazendo perspectivar possíveis aumentos dos juros de referência na segunda metade do ano. Um dos principais factores penalizadores do outlook será o aumento da incerteza, que também já é visível: desde o Barómetro de Fevereiro, a percentagem das empresas inquiridas planeando aumentar o investimento reduziu-se de 56% para 39%. A “eficiência operacional” e a “redução de custos” aparecem, assim, referidas como as principais prioridades estratégicas das empresas. A primeira referência é particularmente relevante. Num contexto económico e geopolítico em que a volatilidade e a imprevisibilidade parecem ser o novo estado “normal”, as empresas e os Governos tenderão a eleger como preocupações centrais a segurança (foco nas cadeias de abastecimento, nas capacidades de IT, nos gastos em Defesa, etc…), a autonomia (por exemplo, ao nível da energia) e a capacidade de resistência a choques (incluindo guerras, eventos climáticos, ciberterrorismo, pandemias,…). Os desenvolvimentos recentes são sinais de uma economia (e um Mundo) em mudança. É fundamental que as empresas consigam ver nessa mudança não apenas dificuldades, mas também oportunidades de investimento, de negócio e de crescimento.
Testemunho publicado na edição de Abril (nº. 241) da Executive Digest, no âmbito da XLVII edição do seu Barómetro.








