Donald Trump chega a Pequim com urgência política. Precisa de resultados que possa apresentar antes das eleições intercalares de novembro, procura ganhos comerciais visíveis para agricultores, empresas e indústria americana, e quer margem de manobra num contexto internacional marcado pela guerra no Irão e pela crise no Estreito de Ormuz.
Xi Jinping chega à mesma mesa noutra posição. Controla cartas estratégicas como as terras raras, a refinação de minerais críticos e os ímanes permanentes, tem influência sobre Teerão e sabe que Washington dificilmente pode escalar a rivalidade económica com Pequim sem também se ferir.
A cimeira entre os presidentes dos Estados Unidos e da China, marcada para Pequim, dificilmente produzirá uma viragem histórica nas relações entre as duas maiores potências mundiais. Mas pode servir para algo igualmente relevante: impedir que uma rivalidade cada vez mais perigosa entre em rutura.
Para André Pereira Matos, especialista em relações internacionais, a reunião não deve ser lida como uma tentativa de regressar a uma relação estável entre Washington e Pequim, nem como uma nova Guerra Fria clássica.
“O que temos é uma rivalidade estrutural gerida de forma pragmática, através de tréguas sucessivas e num registo de elevada volatilidade, muito por conta do caráter errático da política externa de Trump”, afirma em exclusivo à ‘Executive Digest’.
E acrescenta: “Esta visita a Pequim não será tanto para afirmar uma eventual rutura total, mas antes para tentar perceber que entendimento se consolidará para gerir a coexistência e a competição que são factuais e reconhecidas por ambos.”
Não é uma nova Guerra Fria
A comparação com a Guerra Fria é tentadora. De um lado, os Estados Unidos. Do outro, a China. Entre ambos, uma disputa tecnológica, militar, comercial e ideológica que condiciona o sistema internacional.
André Pereira Matos admite que há razões para olhar para este confronto através dessa lente.
“Compreendo que se possa olhar para este confronto através de uma perspetiva dicotómica que remete para esse sistema bipolar”, afirma. “A fratura ideológica entre os dois sistemas é, de facto, profunda e talvez mais nítida hoje do que há uns anos.”
Mas, para o especialista, há diferenças decisivas face à Guerra Fria do século XX.
A primeira é económica. Estados Unidos e China competem em praticamente todos os domínios estratégicos, mas continuam profundamente ligados por comércio, investimento, tecnologia, cadeias de abastecimento e consumo.
“A interligação económica entre os dois países é hoje de tal ordem que nenhum dos dois consegue desacoplar-se no curto prazo sem se ferir gravemente”, sublinha.
A segunda diferença está no próprio sistema internacional. O mundo de hoje já não é o mundo bipolar do pós-II Guerra Mundial. Potências médias como Brasil, Índia, Turquia ou Arábia Saudita recusam alinhamentos automáticos e procuram margem própria entre Washington e Pequim.
A terceira diferença está em Trump.
Para André Pereira Matos, a atual Administração americana não conduz a política externa a partir de uma base ideológica clássica.
“Donald Trump tem repetido publicamente que ‘respeita’ Xi Jinping, descreve-o como ‘um grande líder’ e nunca escondeu uma certa empatia pessoal por dirigentes autoritários, da Rússia à Coreia do Norte”, recorda.
Essa postura, combinada com a interdependência económica entre as duas potências, retira à rivalidade uma moldura puramente ideológica e transforma-a numa competição sobretudo transacional e geoeconómica.
Xi chega mais forte à mesa
A pergunta decisiva é saber quem chega mais forte à cimeira.
Para André Pereira Matos, a resposta é clara: “Xi Jinping chega visivelmente mais forte.”
A vantagem chinesa resulta, em parte, de uma estratégia acumulada ao longo de anos.
“A China goza hoje de uma certa superioridade por mérito próprio do retorno do investimento político, diplomático e económico da Iniciativa Belt and Road e por sorte, porque o Ocidente tem-se fragmentado com guerras e tensões comerciais que elevam a China”, explica.
Trump, pelo contrário, chega a Pequim pressionado por várias frentes.
A guerra no Irão, o choque petrolífero associado ao Estreito de Ormuz e o desgaste nas sondagens tornam mais urgente a procura de resultados concretos. Num ano de eleições intercalares, o preço dos combustíveis é especialmente sensível para o eleitorado americano.
Mas a vantagem chinesa não é apenas conjuntural. É também industrial.
Pequim aprendeu a usar a sua posição nas cadeias de valor como instrumento diplomático. A China controla cerca de 90% do processamento mundial de terras raras e dos ímanes permanentes, materiais essenciais para automóveis, telemóveis, aviões, mísseis e tecnologia avançada.
Quando esse domínio é usado como pressão, o impacto sente-se rapidamente no Ocidente.
“Ao controlar cerca de 90% do processamento mundial de terras raras e dos ímanes permanentes, o Ocidente fica paralisado, como aconteceu no ano passado, incapaz de fabricar automóveis, telemóveis, aviões e mísseis”, afirma André Pereira Matos.
A conclusão é política e simbólica.
“Não é um acaso que não é Xi a ir a Washington, mas Trump a deslocar-se a Pequim.”
Uma pausa estratégica, não uma solução
A cimeira deverá produzir imagens úteis para os dois líderes. Mas, para André Pereira Matos, não será apenas uma fotografia diplomática.
“A cimeira será, antes de mais, uma fotografia útil para ambos, mas é mais do que isso”, afirma.
O mais provável é que os anúncios concretos sejam modestos: extensão da trégua comercial assinada em outubro, possíveis compras chinesas de produtos americanos e pouco mais.
Mas a moderação dos resultados não significa irrelevância.
“Esta moderação dos resultados não é, contudo, irrelevante”, sublinha o especialista. “A estabilização provisória da relação económica permite a ambos os lados ganhar tempo.”
Esse tempo interessa aos dois lados.
Os Estados Unidos precisam de reduzir a dependência das terras raras chinesas e de reforçar a segurança das cadeias de abastecimento. A China quer consolidar o avanço tecnológico em inteligência artificial e manter o domínio das cadeias de minerais críticos.
Por isso, a cimeira pode não resolver a rivalidade, mas pode adiar a próxima escalada.
“A cimeira é uma pausa estratégica precisamente porque adia o próximo choque, e cada um utilizará esse adiamento para se rearmar economicamente para o confronto seguinte”, resume André Pereira Matos.
As vitórias que Trump quer vender em casa
Do lado americano, a cimeira tem uma dimensão interna evidente.
Trump precisa de resultados visíveis antes das intercalares de novembro. Compras chinesas de produtos agrícolas, compromissos no setor energético ou um eventual acordo de grande dimensão com a Boeing poderiam ser apresentados em Washington como vitórias para agricultores, trabalhadores industriais e empresas americanas.
“Trump precisa desesperadamente de resultados que consiga vender mediaticamente como grandes sucessos e a China consegue vender-lhe esses resultados a preços calculados”, afirma André Pereira Matos.
A possibilidade de Pequim assumir compras de soja, carne, aves, carvão, petróleo ou gás natural daria à Casa Branca material político imediato. O mesmo aconteceria com um contrato envolvendo aviões Boeing, há muito condicionado pelas tensões entre os dois países.
A delegação empresarial que acompanha Trump, na qual poderá estar Elon Musk, foi desenhada precisamente para criar anúncios com impacto económico e mediático.
Mas Pequim não oferece vitórias gratuitamente.
“O preço paga-se em concessões mais discretas, como o alívio adicional sobre exportações de chips, recuo na publicação de empresas chinesas em listas negras, suspensão de taxas portuárias e, sobretudo, uma ambiguidade reforçada sobre Taiwan”, alerta o especialista.
É aqui que a lógica transacional de Trump pode tornar-se particularmente sensível. O que em Washington pode ser apresentado como vitória comercial pode, para Pequim, significar espaço estratégico conquistado em dossiês muito mais profundos.
Chips contra terras raras
A relação entre Estados Unidos e China está cada vez mais assente numa troca de vulnerabilidades.
Washington controla tecnologia avançada, semicondutores de ponta, equipamentos de fabrico de chips e componentes essenciais para o desenvolvimento da inteligência artificial. Pequim domina grande parte da mineração, refinação e processamento de terras raras e ímanes críticos.
Este equilíbrio cria espaço para negociação, mas também aumenta o risco.
“É um equilíbrio que cria espaço para negociação precisamente porque é perigoso”, explica André Pereira Matos.
A lógica recorda, em termos económicos, a doutrina da destruição mútua assegurada que marcou a Guerra Fria nuclear. A diferença é que, agora, a arma principal não é um arsenal atómico, mas a capacidade de bloquear setores inteiros da economia adversária.
“A doutrina da destruição mútua assegurada, que dominou a Guerra Fria nuclear, foi substituída pelo equivalente económico”, afirma. “Nenhum dos dois pode atacar o outro sem se ferir gravemente a si próprio.”
O perigo está na ilusão de que uma escalada económica é sempre reversível.
O episódio das terras raras de outubro mostrou, segundo André Pereira Matos, que o impacto de uma retaliação pode ser rápido e brutal. Ao restringir exportações de materiais críticos, Pequim mostrou que conseguia paralisar setores ocidentais altamente dependentes das cadeias chinesas.
“A negociação existe porque ambos compreenderam, em outubro, que estavam à beira de uma rutura mutuamente destrutiva”, sublinha.
E resume a nova lógica entre Washington e Pequim numa frase: “É uma espécie de paz armada económica.”
Irão e Ormuz entram na mesa
A guerra no Irão transformou a visita a Pequim numa cimeira também sobre energia e segurança global.
O Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais de transporte de petróleo, tornou-se um ponto crítico para a economia internacional. Para a China, que depende fortemente de importações energéticas, a estabilidade daquela rota é essencial.
Mas Pequim não quer aparecer como executora da estratégia americana contra Teerão.
“A China quer o Estreito de Ormuz reaberto, mas nos seus termos, não nos americanos”, explica André Pereira Matos.
Segundo o especialista, Pequim já rejeitou pedidos americanos de mediação para travar a guerra e instruiu recentemente as suas refinarias a ignorar sanções secundárias dos Estados Unidos sobre o petróleo iraniano. Ao mesmo tempo, ameaçou punir empresas chinesas que cumprissem essas sanções.
A mensagem é clara: a China quer estabilidade energética, mas recusa subordinar-se à política de pressão americana sobre o Irão.
A receção do ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano em Pequim, antes da chegada de Trump, foi um sinal deliberado nesse sentido.
Há, ainda assim, desconforto chinês com Teerão. O recente ataque iraniano a um petroleiro chinês no Estreito de Ormuz mostrou que a relação não está isenta de riscos.
Mas Pequim só usará a sua influência sobre o Irão se isso fortalecer a sua posição negocial perante os Estados Unidos.
“A China tem uma capacidade real de influência sobre o Irão, mas só a usará se isso fortalecer a sua posição negocial face aos Estados Unidos, nunca para fazer um favor a Trump”, afirma.
Taiwan: o perigo pode estar no silêncio
Taiwan continua a ser o ponto mais sensível da relação entre Washington e Pequim.
A China quer que os Estados Unidos passem de uma posição de não apoio à independência de Taiwan para uma oposição formal a essa independência. Pretende também que Washington apoie a ideia de “reunificação pacífica” e reduza o pacote de armamento autorizado, mas ainda não entregue, a Taipé.
Do lado americano, Trump já mostrou ambivalência em relação à ilha. Uma das decisões citadas por André Pereira Matos é a recusa de uma escala do presidente taiwanês Lai Ching-te em território americano.
Por isso, o risco mais importante pode não estar numa declaração pública de Trump. Pode estar precisamente na ausência dela.
“O sinal mais perigoso para Taiwan não seria uma declaração formal de Trump, seria precisamente o silêncio”, afirma o especialista.
A razão é simples. Se Trump optar por não abordar Taiwan de forma clara, Pequim poderá interpretar esse silêncio como espaço para pressão adicional. E os aliados americanos na Ásia poderão lê-lo como sinal de que a garantia americana se tornou mais transacional.
André Pereira Matos suspeita que o tema possa ser contornado publicamente.
“Suspeito que possa haver silêncio em relação a esta matéria, porque o risco de um desentendimento poderia ser demasiado elevado”, explica.
O perigo, acrescenta, é que Trump transforme esta ambiguidade em mais uma relação transacional.
“Taiwan deixa de ser um princípio para passar a ser uma moeda de troca.”
Europa fora da sala
A cimeira de Pequim também expõe a fragilidade europeia.
A União Europeia depende da China em matérias-primas críticas, dos Estados Unidos em segurança e de ambos em comércio. Se Trump e Xi chegarem a entendimentos sobre tecnologia, minerais, exportações ou regras comerciais sem Bruxelas à mesa, a margem europeia fica reduzida.
“A Europa não está à mesa porque deixou de ter lugar próprio, e essa é a verdade dura que esta cimeira voltará a expor”, afirma André Pereira Matos.
A dependência é particularmente evidente nas terras raras. A União Europeia depende em mais de 90% das importações chinesas de ímanes de terras raras, uma vulnerabilidade construída ao longo de duas décadas.
Depois do acordo de Busan, Bruxelas foi informada por negociadores chineses de que a trégua sobre terras raras seria estendida à Europa. Mas, segundo o especialista, as licenças de exportação concedidas avançaram a um ritmo muito inferior ao prometido.
Para sair da posição de mera espectadora, a União Europeia teria de seguir três caminhos.
O primeiro é acelerar a capacidade interna de refinação e produção de ímanes. Sem isso, qualquer negociação será feita a partir de uma posição de fragilidade.
O segundo é construir alavancagem própria em áreas onde a Europa ainda lidera.
O terceiro, e mais difícil, é assumir uma voz política única.
É neste ponto que André Pereira Matos vê o maior bloqueio europeu: a União continua dividida, lenta e incapaz de transformar peso económico em poder geopolítico.
“Enquanto a União Europeia for, simultaneamente, dependente da China em matérias-primas, dos EUA em segurança e de ambos em comércio, vai continuar apenas a assistir às cimeiras a dois”, conclui.
O que está em jogo
A reunião entre Trump e Xi dificilmente resolverá a rivalidade entre Estados Unidos e China.
O mais provável é que produza uma extensão da trégua comercial, anúncios económicos úteis para ambos e algum grau de estabilização temporária nos mercados.
Mas os temas estruturais continuarão em aberto: Taiwan, supremacia tecnológica, controlo de minerais críticos, guerra no Irão, segurança energética e regras da ordem global.
A verdadeira importância da cimeira pode estar menos no que for anunciado e mais no que for evitado.
Se impedir uma escalada imediata, já terá cumprido um objetivo. Se criar canais mínimos de gestão da rivalidade, poderá reduzir o risco de erro de cálculo. Se permitir que os dois lados comprem tempo, será vista como uma pausa estratégica.
Mas essa pausa não deve ser confundida com paz.
Na leitura de André Pereira Matos, Washington e Pequim já aceitaram que são rivais. A questão agora é saber se conseguem gerir essa rivalidade sem a transformar numa rutura aberta.
Entre chips, terras raras, petróleo, Taiwan e eleições americanas, a cimeira de Pequim não promete uma solução. Promete apenas uma tentativa de contenção.
E, numa relação que se tornou uma “paz armada económica”, até uma pausa pode ser decisiva.













