Donald Trump viaja para a China esta quarta-feira – e até sexta-feira -, a convite de Xi Jinping, numa visita de Estado que assinala o primeiro deslocamento de um presidente americano ao país desde 2017. A reunião chega num momento de tensão crescente entre Washington e Pequim, com comércio, tecnologia, energia, guerra no Irão e Taiwan a dominarem a agenda.
As expectativas para uma grande viragem nas relações entre as duas potências são baixas. O mais provável é que a cimeira produza entendimentos limitados e táticos, destinados sobretudo a evitar uma nova escalada.
Para os Estados Unidos, a prioridade passa por obter vitórias económicas antes das eleições intercalares de novembro, garantir maior segurança nas cadeias de abastecimento de minerais críticos e tentar envolver Pequim, ainda que indiretamente, na resposta à guerra no Irão.
Para a China, os objetivos são outros: aliviar restrições tecnológicas, proteger os seus interesses económicos, manter controlo sobre as terras raras e procurar limites mais claros ao apoio americano a Taiwan.
O que se espera da cimeira?
O resultado mais provável é a extensão da trégua comercial assinada em outubro de 2025, na Coreia do Sul, que travou temporariamente uma nova fase da guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo.
O comércio será um dos temas centrais.
Trump quer concessões económicas visíveis de Pequim. A China está a estudar compras em larga escala de produtos agrícolas americanos, incluindo aves, carne bovina e culturas agrícolas que vão além da soja.
Também foram discutidos compromissos chineses para comprar 25 milhões de toneladas métricas de soja por ano durante três anos.
Washington quer ainda que Pequim compre mais produtos energéticos americanos, incluindo carvão, petróleo e gás natural.
Estes anúncios teriam valor económico, mas também político. Trump precisa de mostrar resultados a agricultores, trabalhadores industriais e eleitores sensíveis ao preço da energia antes das intercalares.
Boeing pode entrar no pacote
Outro dossiê comercial relevante envolve a Boeing.
A China tem estado a negociar uma encomenda potencialmente muito elevada, que poderá envolver até 500 aviões Boeing 737 MAX, além de aeronaves de longo curso.
O acordo tem sido adiado há anos devido às tensões políticas entre Washington e Pequim e às ameaças americanas de limitar o acesso chinês a componentes essenciais, incluindo peças para motores.
Se for fechado, um acordo com a Boeing teria valor simbólico e económico para os dois lados.
Para Trump, seria uma vitória industrial facilmente comunicável em casa.
Para Xi, poderia ser usado como moeda de troca em temas mais sensíveis, como semicondutores, tarifas ou Taiwan.
Chips contra terras raras
A rivalidade tecnológica é o núcleo duro da tensão entre Estados Unidos e China.
Pequim quer que Washington alivie as restrições à exportação de semicondutores avançados e de equipamentos usados no fabrico de chips para inteligência artificial.
A China vê estes controlos como uma tentativa americana de travar a sua ascensão tecnológica.
A política americana tem sido uma combinação de restrição seletiva e alívio controlado. Em janeiro de 2026, o Departamento do Comércio dos EUA alterou a política de licenciamento para determinados chips avançados exportados diretamente para a China, o que pode abrir espaço à venda de componentes como o NVIDIA H200, usado em aplicações comerciais de inteligência artificial.
Mas Pequim quer acesso muito mais amplo à tecnologia americana.
Do outro lado, os Estados Unidos pressionam a China a aliviar os controlos sobre as exportações de terras raras.
A China representa cerca de 70% da mineração mundial de terras raras e uma parcela ainda maior da refinação e processamento de ímanes permanentes.
As restrições chinesas, impostas em abril de 2025 e parcialmente aliviadas em outubro, depois da reunião entre Trump e Xi na Coreia do Sul, afetaram setores como a indústria automóvel e aeroespacial americana.
A dinâmica negocial é clara: os Estados Unidos controlam chips avançados; a China domina minerais críticos.
Irão e Estreito de Ormuz entram na agenda
A guerra no Irão transforma esta cimeira também num encontro sobre energia e segurança global.
Washington quer que Pequim apoie esforços internacionais para garantir a navegação no Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo.
A China, porém, vê o conflito sobretudo como consequência da política externa americana e não quer aparecer alinhada com Washington, nem militar nem diplomaticamente.
Pequim tem interesse em estabilidade, porque a guerra ameaça as suas importações energéticas e as relações com os Estados do Golfo. Mas também quer preservar influência própria junto de Teerão.
Nos últimos dias, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araqchi, esteve em Pequim para informar as autoridades chinesas sobre as negociações com Washington.
A China tenta, assim, manter um equilíbrio delicado: proteger os seus interesses económicos e regionais sem parecer subordinada aos objetivos estratégicos dos Estados Unidos.
Taiwan é o ponto mais sensível
Taiwan poderá ser o tema mais delicado da cimeira.
O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, terá descrito Taiwan como “o maior ponto de risco” nas relações entre os Estados Unidos e a China, numa conversa com o secretário de Estado americano, Marco Rubio.
Desde os anos 70, Washington mantém a política de “uma só China”, ao mesmo tempo que continua a apoiar militarmente Taiwan.
Esta ambiguidade estratégica foi desenhada para impedir uma escalada militar: por um lado, os EUA não reconhecem Taiwan como Estado independente; por outro, mantêm capacidade para dissuadir uma ação militar chinesa contra a ilha.
Em fevereiro de 2025, o Departamento de Estado americano retirou de uma ficha oficial sobre Taiwan a formulação segundo a qual Washington não apoia a independência da ilha.
A alteração pode parecer semântica, mas tem peso estratégico. Para Pequim, qualquer mudança de linguagem pode ser lida como alteração do compromisso americano. Para Taipé, pode ser vista como sinal de maior margem política.
Como a China considera Taiwan parte do seu território e não exclui o uso da força, qualquer ambiguidade ou mudança de formulação pode alterar cálculos de risco na Ásia.
O encontro atual: crise gerida, não reconciliação
A visita de Trump à China dificilmente produzirá uma reinicialização das relações entre Washington e Pequim.
O objetivo principal parece ser a gestão de crises.
Estados Unidos e China querem impedir que a competição económica, o desacoplamento tecnológico e a rivalidade geopolítica se transformem em confronto aberto.
Mesmo acordos limitados — em compras agrícolas, exportações de terras raras, acesso a semicondutores ou segurança marítima — podem estabilizar mercados e reduzir tensões de curto prazo.
Mas os problemas estruturais continuam.
Taiwan, supremacia tecnológica, minerais críticos, energia, comércio e visões concorrentes da ordem global continuam a dividir as duas potências.
A importância da cimeira pode estar menos no que conseguir anunciar e mais nas barreiras que conseguir criar para impedir que a rivalidade entre Washington e Pequim entre numa fase mais perigosa.
Os encontros anteriores entre Trump e Xi
Esta será a sétima reunião presencial entre Donald Trump e Xi Jinping.
A primeira aconteceu em abril de 2017, em Mar-a-Lago, na Florida, poucos meses depois do início do primeiro mandato de Trump.
Durante a campanha, Trump tinha criticado duramente as práticas comerciais chinesas e irritado Pequim ao aceitar uma chamada telefónica da então Presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, quebrando décadas de precedente diplomático americano.
Em Mar-a-Lago, porém, Trump procurou construir uma relação pessoal com Xi e disse que os dois lados tinham feito “progressos tremendos”. A reunião acabou por ser ofuscada pelo ataque americano à Síria, lançado durante a visita do líder chinês.
O segundo encontro ocorreu em julho de 2017, à margem da cimeira do G20, em Hamburgo.
A conversa centrou-se no programa nuclear da Coreia do Norte e nas relações económicas. Um mês depois, a Administração Trump lançou a primeira grande ofensiva da guerra comercial com a China, ao abrir uma investigação sobre alegado roubo de propriedade intelectual.
Em novembro de 2017, Trump fez a sua primeira visita oficial à China. Foi recebido com pompa, incluindo passagem pela Cidade Proibida, cerimónias oficiais e banquete de Estado.
Saiu de Pequim a anunciar acordos empresariais no valor de 250 mil milhões de dólares, equivalentes a cerca de 232 mil milhões de euros, em energia, agricultura e tecnologia. Muitos desses compromissos eram, porém, preliminares ou relacionados com projetos já em curso.
O tom positivo da visita não impediu Trump de impor tarifas à China poucos meses depois.
Em dezembro de 2018, Trump e Xi voltaram a reunir-se em Buenos Aires, à margem do G20.
A guerra comercial já estava em curso. Os EUA tinham imposto tarifas sobre 250 mil milhões de dólares em produtos chineses, cerca de 232 mil milhões de euros, e proibido agências governamentais de usarem equipamentos da Huawei e da ZTE. Pequim respondeu com tarifas sobre 110 mil milhões de dólares em produtos americanos, cerca de 102 mil milhões de euros.
Apesar da tensão, a Casa Branca classificou o encontro como “altamente bem-sucedido” e os dois lados concordaram em iniciar negociações sobre temas como propriedade intelectual e ciberespionagem.
Em junho de 2019, Trump e Xi encontraram-se novamente no G20 de Osaka, no Japão.
Aí concordaram em medidas para travar a escalada: suspensão de novas tarifas americanas, reabertura de negociações comerciais, alívio de restrições à Huawei e promessa chinesa de aumentar compras agrícolas aos Estados Unidos.
Meses depois, os dois países assinaram o chamado acordo comercial de “fase um”. Washington aceitou reduzir algumas tarifas e Pequim comprometeu-se a comprar mais 200 mil milhões de dólares em bens e serviços americanos, cerca de 186 mil milhões de euros.
A China acabou por não cumprir integralmente essas metas, num período que coincidiu com a queda do comércio global durante a pandemia.
O encontro mais recente aconteceu em outubro de 2025, em Busan, na Coreia do Sul, à margem da cimeira da APEC.
Foi a primeira reunião presencial entre ambos em seis anos.
Os dois líderes prolongaram uma trégua numa guerra tarifária que tinha chegado a níveis extremos, com tarifas de 145% impostas pelos Estados Unidos e 125% pela China.
Depois das conversações, anunciaram uma pausa de um ano na guerra comercial. Os EUA aliviaram algumas tarifas e a China aceitou reduzir determinadas restrições às exportações de terras raras e retomar compras de produtos agrícolas americanos.
Da “semana que mudou o mundo” ao regresso de Trump
A visita de Trump a Pequim inscreve-se numa longa história de diplomacia presidencial americana com a China.
O ponto de viragem aconteceu em fevereiro de 1972, quando Richard Nixon se tornou o primeiro Presidente dos Estados Unidos a visitar Pequim depois da vitória comunista na guerra civil chinesa.
A viagem ocorreu antes mesmo de Washington reconhecer formalmente a República Popular da China.
Ao receber Nixon, o primeiro-ministro Zhou En-lai disse que o aperto de mão entre ambos atravessava “25 anos sem comunicação”.
Durante a visita, Nixon encontrou-se com Mao Zedong e passou horas em conversações com Zhou. Num encontro fechado, disse que “há apenas uma China, e Taiwan é parte da China”, antecipando a mudança da política externa americana.
O resultado foi o Comunicado de Xangai, no qual os dois países afirmaram que a normalização das relações era do interesse de todos e que nenhum deveria procurar hegemonia na região da Ásia-Pacífico.
No brinde da última noite, Nixon resumiu a dimensão da viagem: “Foi a semana que mudou o mundo.”
De Ford a Reagan: continuidade e abertura
Gerald Ford visitou a China em 1975, num momento de transição. Zhou En-lai estava doente e as principais conversas foram conduzidas por Deng Xiaoping.
Os temas incluíram a União Soviética, Taiwan, comércio e estabilidade internacional.
Ford regressou da China a dizer que a relação se estava a tornar “uma característica permanente do panorama político internacional”.
Ronald Reagan visitou Pequim em 1984 e foi recebido com uma cerimónia formal na Praça de Tiananmen.
Durante a visita, foram assinados acordos sobre intercâmbios culturais e científicos, cooperação económica e desenvolvimento de energia nuclear.
Reagan falou também a estudantes na Universidade de Fudan e insistiu que Estados Unidos e China não estavam condenados a ser inimigos.
Bush, Clinton e o pós-Tiananmen
George H. W. Bush viajou para Pequim em fevereiro de 1989, pouco depois de tomar posse.
Conhecia bem a cidade: tinha chefiado o gabinete de ligação dos EUA em Pequim entre 1974 e 1975.
Na visita, destacou a expansão dos contactos familiares, viagens e comércio no estreito de Taiwan, e defendeu que a relação entre os dois países iria crescer.
Poucos meses depois, o massacre de Tiananmen alteraria profundamente o clima político da relação.
Bill Clinton foi o primeiro presidente americano a visitar a China depois de Tiananmen, em 1998.
A visita ficou marcada por divergências sobre direitos humanos. Clinton afirmou que o uso da força e a perda de vidas tinham sido errados, enquanto Jiang Zemin defendeu que a atuação chinesa tinha sido necessária para assegurar estabilidade.
Apesar das diferenças, os dois países chegaram a entendimentos políticos e económicos e discutiram a entrada da China na Organização Mundial do Comércio.
George W. Bush e Obama: segurança, comércio e clima
George W. Bush foi o Presidente americano que mais visitas oficiais fez à China.
Esteve no país em 2001, 2002, 2005 e 2008, incluindo na abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim.
A visita de 2002 ocorreu no contexto pós-11 de Setembro e marcou 30 anos desde a viagem histórica de Nixon. Bush destacou a cooperação chinesa na luta contra o terrorismo e afirmou que os Estados Unidos acolhiam positivamente “uma China forte, pacífica e próspera”.
Barack Obama visitou a China em 2009, 2014 e 2016.
A sua presidência atravessou a transição entre Hu Jintao e Xi Jinping e ficou marcada por avanços e tensões.
Houve incidentes protocolares, restrições a jornalistas e diferenças sobre direitos humanos e segurança. Mas também houve cooperação relevante, em especial no clima.
O acordo climático entre Washington e Pequim foi um dos momentos mais importantes da relação, com os Estados Unidos a comprometerem-se a reduzir emissões e a China a aceitar atingir o pico das suas emissões por volta de 2030.
Trump em 2017: da crítica ao deslumbramento
Donald Trump visitou a China pela primeira vez como presidente em novembro de 2017.
Durante a campanha, tinha acusado Pequim de prejudicar a economia americana e descrito a China como adversária comercial. Em Pequim, porém, adotou um tom muito diferente.
Foi recebido numa “visita de Estado reforçada”, com guarda de honra, passagem pela Cidade Proibida e jantar inédito naquele espaço histórico.
Trump elogiou Xi Jinping, falou numa “grande química” entre ambos e disse ter um “sentimento caloroso” pelo líder chinês.
Chegou mesmo a afirmar que não culpava a China pelo desequilíbrio comercial, responsabilizando antes administrações americanas anteriores.
A Coreia do Norte foi então um dos temas centrais. Trump pediu a Xi que pressionasse Pyongyang, mas a China não deu sinais de estar disposta a ir muito além.
Nove anos depois, Trump regressa a Pequim num contexto muito mais tenso.
A diferença é que, agora, a agenda já não se resume a comércio e Coreia do Norte. Inclui guerra no Irão, terras raras, inteligência artificial, Taiwan, sanções, energia e a tentativa de impedir que a rivalidade entre as duas potências se torne incontrolável.








