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Randstad Insight: Transformação sustentável

A mudança demográfica, a globalização, os níveis de migração que atingem níveis históricos e a necessidade de uma mão-de-obra mais diversa e inclusiva fazem com que a questão da sustentabilidade do capital humano se esteja a tornar urgente. Na Randstad, acreditamos que isto não é responsabilidade de um indivíduo apenas, é uma responsabilidade conjunta, como foi sublinhado pelos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Esta edição de Sustainability@Work 2020 é o primeiro de uma série de relatórios que se focam na transformação sustentável do mercado laboral. É uma transformação por que muitas empresas e sociedades estão a passar, e é necessária para melhorar a nossa qualidade de vida e para assegurarmos o futuro do nosso planeta. Os desafios são significativos, já que enfrentamos as “cinco forças da desagregação” na sociedade: disrupção, desconexão, disparidade, destruição e descontentamento. Mas, a reacção da inovação não deve ser subestimada, oferecendo- -nos soluções interessantes que tornam os nossos locais de trabalho, mercados laborais e sociedades mais seguros, inteligentes, partilhados, sustentáveis e satisfatórios. Ao colocarmos valores sinérgicos no centro das relações humanas, podemos obter tremendos dividendos. Os valores sinérgicos dão ênfase à contribuição colectiva em vez do ganho individual, valores que favorecem a cooperação para o bem público em detrimento da competição pelos benefícios privados, e valores cujo objectivo é a reciprocidade, a mutualidade e a protecção em vez da exploração, da exclusão e da extracção. Isso ajudar-nos-á a aproximar-nos do objectivo universal da transformação sustentável, que é fazer com que os nossos sistemas vivos – famílias, comunidades e sociedade – não só sobrevivam, como prosperem no futuro.

Para tal, a eficácia colectiva deve ser a base de tudo o que fazemos. Assegurará que o desenvolvimento seja a única escolha lógica e não um sacrifício. O resultado será um mercado laboral e uma sociedade sustentáveis, diversificados e inclusivos para todos. O empenho da Randstad em maximizar o emprego futuro e em contribuir para o crescimento económico na sociedade reflecte-se no nosso derradeiro objectivo: “Em 2030, afectaremos a vida profissional de 500 milhões de pessoas em todo o mundo.”

Transformação Sustentável no Trabalho

A aplicação do pensamento de sistemas aos nossos desafios globais resultou na Estrutura de Fragmentação das Cinco Forças, fazendo eco do lema do Fórum Económico Mundial em 2018: criar um futuro partilhado num mundo fracturado. Segundo esta análise, as áreas mais essenciais da desagregação sistémica da sociedade estão relacionadas com o descontentamento, a disrupção, a desconexão, a disparidade e a destruição.

➜ Descontentamento

O descontentamento tem a sua origem nos estilos de vida pouco saudáveis, nos locais de trabalho pouco seguros e nos ambientes tóxicos que prejudicam o bem-estar humano. Por exemplo, mais de 40% das mortes de doenças não comunicáveis (que representam 70% de todas as mortes, um aumento desde 2000) são prematuras ou evitáveis, nomeadamente por doenças cardiovasculares e respiratórias, cancro e diabetes. Além disso, a depressão e a ansiedade afectam 10% das pessoas e aumentaram 50% entre 1990 e 2013.

O empenho dos colaboradores tornou-se um importante indicador para os líderes de Recursos Humanos. Estudos revelam que a diminuição do empenho dos colaboradores leva a mais absentismo, mais erros, acidentes e problemas, menos produtividade, menos rentabilidade e a um valor em bolsa 65% mais baixo ao longo do tempo. É possível melhorar o empenho através de trabalho voluntário. Na Europa, cerca de 30% das pessoas participam em trabalho voluntário não remunerado pelo menos uma vez por mês e os colaboradores têm mais tendência para fazerem trabalho voluntário do que os desempregados.

O burnout associado a altos níveis de stress no local de trabalho – paradoxalmente, por vezes devido ao excesso de empenho – é outro impacto elevado associado ao descontentamento. As expectativas demasiado altas colocadas nos ombros dos colaboradores eficazes podem prejudicar a sua capacidade de trabalhar e o seu desejo de permanecerem na empresa. Outra fonte de stress é a incidência crescente de lares em que os dois adultos trabalham – uma tendência positiva que cria uma sociedade mais igualitária, mas que também aumenta os níveis de conflito entre as responsabilidades profissionais e familiares.

➜ Disrupção

A disrupção refere-se a qualquer instabilidade que ameace a vida e a segurança humana, e está frequentemente associada a conflitos políticos, actos de terrorismo, alterações demográficas, acidentes industriais e desastres naturais. E tem um impacto significativo no mercado laboral em termos gerais e nos colaboradores em termos específicos, que podemos mostrar ao incidirmos em três áreas: migração forçada, desastres naturais e crises económicas.

Existem 65 milhões de pessoas no mundo que foram deslocadas à força, incluindo 22,5 milhões de refugiados, a maioria dos quais em nações em desenvolvimento. Os refugiados e migrantes forçados nem sempre têm noção dos seus direitos, o que pode fazer com que sejam explorados por empregadores ao aceitarem trabalhos mal remunerados, inseguros ou exigentes. Os estereótipos negativos sobre os refugiados – que estão a roubar empregos aos habitantes locais, que não são de fiar ou que provavelmente têm antecedentes criminais – podem também resultar em discriminação na contratação e em tratamentos injustos no local de trabalho.

O impacto dos desastres naturais no mercado de trabalho pode ser igualmente dramático. Milhões, por vezes milhares de milhões, de euros em danos podem ocorrer graças aos desastres naturais. Empresas são desfeitas ou destruídas e as operações param inesperadamente durante uma quantidade significativa de tempo. E as alterações climáticas têm também impacto nas condições de trabalho, de uma forma mais subtil. O aumento do calor, por exemplo, tem sérias implicações no desconforto e produtividade; nos EUA mais de 15 milhões de pessoas têm um emprego que exige que estejam no exterior e as temperaturas a subir acabam por lhes ser perigosas.

As crises económicas têm um impacto significativo no mercado laboral. A crise económica de 2008 esteve ligada a uma rápida subida do desemprego e a um aumento particularmente pronunciado do desemprego de longa duração. As falências associadas às crises também criam stress e ansiedade, resultando num comportamento inadaptado e a decisões desadequadas tanto a nível individual como a nível organizacional.

➜ Desconexão

A desconexão refere-se à exclusão da economia do conhecimento e está mais associada à falta de oportunidades académicas, à falta de acesso a tecnologias inteligentes e à substituição do trabalho humano por trabalho tecnológico, incluindo inteligência artificial. O impacto da desconexão no mercado laboral e nos colaboradores é particularmente evidente em duas áreas: o fosso digital e a automatização.

O fosso digital refere-se à lacuna entre os que têm acesso à tecnologia inteligente (nomeadamente internet e smartphones) e os que não têm. Mais importante, refere- -se à desvantagem económica, social e cultural que este fosso criou para os que estão “desconectados”. Ou seja, os dividendos digitais – os benefícios de desenvolvimento mais amplos obtidos através da utilização de tecnologias digitais – estão distribuídos desigualmente. Isto pode parecer surpreendente, visto que o número de utilizadores de internet mais do que triplicou, de mil milhões em 2005 para 3,2 mil milhões no final de 2015. Contudo, apesar deste rápido crescimento, quase 60% da população mundial continua offline. E o fosso digital também se manifesta na discriminação etária. A proporção de jovens que usam a internet globalmente é de 71% (94% nos países desenvolvidos), em comparação com 48% da população total (81% dos países desenvolvidos).

O impacto da automatização é um dos riscos da digitalização da actividade económica. Como o Banco Mundial indica, o mundo enfrenta «mercados de trabalho cada vez mais polarizados e o aumento da desigualdade – em parte porque a tecnologia aumenta as competências mais altas e substitui as tarefas mais rotineiras, forçando muitos colaboradores a competirem por empregos de remuneração mais baixa».

➜ Disparidade

A disparidade refere-se a qualquer desigualdade que aumente a fricção social ou a utilização ineficiente de recursos, e está mais associada à desigualdade salarial, à discriminação e à exclusão económica. O impacto da disparidade nos mercados laborais concentra-se em três áreas: lacunas nas competências, discriminação no local de trabalho e desigualdade salarial.

Um relatório recente da McKinsey mostra que a deslocalização dos empregos no futuro concentrar-se-á principalmente nos colaboradores com competências mais baixas, prolongando uma tendência que se intensificou nos últimos anos. Além disso, à medida que os empregos se tornam mais variados e os mercados de trabalho se tornam mais complexos, é cada vez mais difícil encontrar o alinhamento certo entre as competências disponíveis e as especificações das vagas disponíveis. Isto resulta em maiores custos laborais, produção perdida por causa de vagas por preencher, uma adopção mais lenta de novas tecnologias e taxa de desemprego mais alta.

Apesar da crescente atenção na criação de locais de trabalho inclusivos, as provas sugerem que, em muitas organizações, os colaboradores continuam a ser tratados de forma diferente dependendo da sua formação académica, género, idade, etnia, sexualidade ou religião. O impacto desta discriminação tende a exacerbar-se ao longo do tempo, naquilo a que os académicos chamam de “desigualdade social acumulada” pelo trabalho.

Com o impacto directo da disparidade no capital humano, a desigualdade é igualmente importante porque molda a sociedade. Uma sociedade estável e saudável leva a um mercado de trabalho funcional. Em contrapartida, graças a análises a décadas de dados de países de todo o mundo, está provado que muitos problemas ambientais e sociais modernos – como os problemas de saúde, a falta de vida comunitária, a violência, a droga, a obesidade, as doenças mentais, os longos horários de trabalho ou as grandes populações prisionais – têm mais probabilidade de ocorrer numa sociedade menos igualitária.

➜ Destruição

A destruição refere-se a qualquer produção ou consumo que leve ao declínio de recursos e à disrupção de ecossistemas, e está frequentemente associada ao crescimento económico, ao excesso de consumo, à exploração dos solos e à poluição industrial. A destruição é uma área de desagregação social que tem impacto nos colaboradores através da deterioração das condições de trabalho associada às alterações climáticas e à poluição, assim como da disrupção nos mercados laborais devido às indústrias poluentes que são forçadas a pagar os seus custos ambientais e entram em declínio económico.

Em termos de alterações climáticas, os eventos meteorológicos extremos como a seca, as ondas de calor, a precipitação intensa e o aumento da quantidade e da intensidade de ciclones e furacões causarão perda de empregos, forçarão a migração a curto e longo prazo, deteriorarão as condições de trabalho, e danificarão bens e a continuidade empresarial.

Um efeito directo do número mais alto de dias muitos quentes associados às alterações climáticas, por exemplo, é o “abrandamento” do trabalho, que resulta numa produtividade laboral mais baixa. A poluição atmosférica tem impacto na saúde e na produtividade dos colaboradores, principalmente nos que trabalham no exterior em ambientes urbanos ou industriais, mas também nos funcionários administrativos. De facto, calcula-se que os custos ambientais das actividades económicas sejam de 4,3 biliões de euros por ano e cheguem aos 26 biliões em 2050. Estas externalidades – assim chamadas porque os negócios externalizam os custos, o que significa que não os pagam directamente, mas impõem-nos – inclui alguns custos médicos relacionados com a poluição atmosférica, os efeitos das emissões de carbono, a perda de benefícios obtidos com a natureza, como seja a retenção de carbono pelas florestas.

Embora as empresas continuem a resistir a pagar pelos custos ambientais das suas actividades, espera-se que cada vez mais sejam forçadas a fazê-lo através de legislação ambiental, resultando no declínio de certos sectores, na falência de empresas com alto impacto e na perda de empregos.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 171 de Maio de 2020

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