Pés no banco, chamadas em alta voz e luta pelo apoio de braço: 36 regras de etiqueta para viajar sem irritar ninguém

Há regras que quase toda a gente conhece: deixar sair antes de entrar, não ocupar um lugar com a mala, dar prioridade a quem precisa mais de se sentar. Outras situações são menos óbvias.

Executive Digest

Comboios, autocarros e aviões juntam desconhecidos durante minutos ou horas num espaço pequeno, muitas vezes quente, barulhento e cheio. E basta alguém ouvir música sem auscultadores, ocupar dois lugares ou decidir fazer uma refeição de cheiro intenso para a viagem se tornar menos agradável.

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Há regras que quase toda a gente conhece: deixar sair antes de entrar, não ocupar um lugar com a mala, dar prioridade a quem precisa mais de se sentar. Outras situações são menos óbvias.

O Guardian reuniu as respostas de três especialistas em etiqueta — Rupert Wesson, diretor da Debrett’s, Laura Akano, fundadora da Polished Manners, e William Hanson, diretor da English Manner — para alguns dos dilemas mais comuns nos transportes públicos.

A quem deve ceder o lugar?

A regra parece simples: deve oferecer o seu lugar a quem precisa mais dele. O problema é perceber quem está realmente nessa situação.

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Um adulto com um bebé ou uma criança pequena é um caso evidente. Noutros, convém evitar fazer suposições sobre gravidez, idade ou condição física.

A recomendação é oferecer discretamente, sem transformar o gesto num espetáculo. Um contacto visual ou levantar-se de forma clara pode ser suficiente. E a antiga regra segundo a qual os homens deveriam automaticamente ceder o lugar às mulheres já não faz sentido como princípio geral.

O mais importante é simples: tirar os olhos do telemóvel e prestar atenção a quem entra.

Pode pôr os pés no banco?

Não.

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Nem com sapatos que parecem limpos, nem descalço, nem de meias. Trata-se de um espaço público que será utilizado por outras pessoas.

Laura Akano resume a questão lembrando que o transporte público não é uma extensão da sala de estar de casa.

Pode escolher sempre o lugar do corredor?

Pode, desde que esteja preparado para se levantar quando alguém precisar de chegar ao lugar da janela.

Quando o transporte está praticamente vazio ou a viagem é curta, ocupar o corredor não levanta grandes problemas. Se houver procura pelos lugares, deve facilitar a passagem.

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Está sozinho. Pode ocupar uma mesa de quatro lugares no comboio?

Sim.

Se depois entrar um grupo que poderia utilizar os quatro lugares, seria simpático oferecer-se para mudar, embora não exista obrigação de o fazer. Se estiver a trabalhar e precisar da mesa para o computador, também é legítimo permanecer onde está.

Pode pedir a alguém que mude de lugar para ficar junto do companheiro?

Pode pedir. A outra pessoa também pode recusar.

A diferença está muitas vezes na forma como o pedido é feito. Perguntar educadamente se alguém se importaria de trocar de lugar é muito diferente de comunicar que essa pessoa terá de sair porque quer sentar-se ao lado do namorado, namorada ou amigo.

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Se o lugar oferecido em troca for equivalente, aceitar é um gesto simpático — mas continua a não ser obrigatório.

Deve ceder às crianças o melhor lugar do autocarro?

Não automaticamente.

Se uma criança ou os pais pedirem educadamente para trocar, pode aceitar. Mas não é necessário partir do princípio de que uma criança tem mais direito, por exemplo, aos lugares da frente no piso superior de um autocarro de dois andares.

É indelicado afastar-se de um desconhecido quando aparecem lugares vazios?

Não.

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Quando um comboio ou autocarro esvazia, é perfeitamente aceitável mudar-se para outro banco e ganhar espaço. Não precisa de justificar a decisão à pessoa que estava sentada ao seu lado.

Pode reclinar o banco no avião?

Se o banco foi concebido para reclinar, em princípio pode fazê-lo.

Mas há regras de bom senso. Não o faça durante o serviço de refeições ou bebidas e evite movimentos bruscos.

Antes de baixar o encosto, vale a pena perceber o que está a acontecer atrás: pode haver um copo, uma refeição ou um computador na mesa da pessoa que ocupa o lugar seguinte.

E se uma mala enorme obrigar a ocupar dois lugares?

Há situações em que pode não existir alternativa.

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Entre bloquear completamente o corredor e ocupar temporariamente um banco com a bagagem, Rupert Wesson considera preferível a segunda solução.

Ainda assim, normalmente é possível encontrar uma alternativa com alguma colaboração, incluindo pedir ajuda para colocar a mala num suporte próprio.

O cão pode viajar em cima do banco?

A regra proposta pelos especialistas é não.

Poderá ser mais tolerável se o animal estiver sobre uma manta ou proteção, mas mesmo isso deve ser evitado quando o transporte está cheio.

Há ainda que ter em conta passageiros com alergias graves ou pessoas que simplesmente consideram inadequado que animais ocupem os lugares destinados aos passageiros.

Até onde podem andar as crianças pelo comboio ou avião?

Depende.

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Uma criança pequena que passe alguns minutos a caminhar pode incomodar menos do que uma criança obrigada a permanecer sentada durante horas e que acaba por chorar ou gritar.

O problema surge quando essa liberdade começa a perturbar quem está a trabalhar, descansar ou simplesmente fazer a sua viagem.

O conselho é permitir alguma movimentação, mas controlar o ruído e a confusão. Como lembra Wesson, os pais não devem presumir que todos os passageiros acham os seus filhos tão encantadores como eles próprios.

Pode encostar-se ao varão?

Se o transporte estiver vazio, não há grande problema.

Quando está cheio, porém, o varão serve para os passageiros se segurarem. Ocupá-lo com todo o corpo impede que outras pessoas o utilizem.

Tocou acidentalmente num desconhecido. Tem de pedir desculpa?

O primeiro passo é afastar-se imediatamente.

Se o contacto foi evidente, um pedido de desculpa é o mais adequado. Se foi apenas um toque muito rápido e a outra pessoa nem reparou, poderá não ser necessário dizer nada, embora até um pequeno gesto de desculpa seja preferível a ignorar completamente o sucedido.

Afinal, quem fica com o apoio de braço?

Num avião com três lugares, a convenção mais comum atribui os dois apoios de braço à pessoa que ficou no lugar do meio.

Nos comboios e autocarros, William Hanson sugere pensar no equipamento como um apoio para o cotovelo, e não para o braço inteiro. Assim, duas pessoas poderão partilhá-lo.

Pode acordar alguém que está a ressonar?

Por ressonar, não.

Mas se a pessoa adormecer sobre o seu ombro e começar a babar-se, a situação muda. Nesse caso, é legítimo tocar-lhe no ombro ou cotovelo e explicar, sem dramatizar, o que está a acontecer.

O constrangimento provavelmente será suficiente para resolver o problema.

Pode estar demasiado suado para andar de transportes?

Não é uma questão de proibição, mas de consideração pelos restantes passageiros.

Depois de uma noite fora, num autocarro noturno, poderá ser inevitável. Entrar num transporte cheio durante a hora de ponta imediatamente depois do ginásio, quando existe possibilidade de tomar banho ou refrescar-se, já é diferente.

Sempre que possível, a recomendação é cuidar da higiene antes de entrar num espaço fechado e lotado.

Como lidar com quem ocupa espaço a mais com as pernas?

Responder fazendo exatamente o mesmo não é aconselhável.

Pode ajustar a sua própria posição de forma suficientemente clara para que a outra pessoa perceba que está a invadir o seu espaço. Se se sentir confortável, um pequeno contacto com o joelho pode transmitir a mensagem sem necessidade de confronto.

Hanson propõe uma regra muito concreta para a abertura das pernas: entre os joelhos, não deveria existir muito mais espaço do que o correspondente a uma bola de ténis.

Pode maquilhar-se no comboio ou no autocarro?

Um retoque rápido de batom ou pó poderá ser aceitável.

Fazer toda a maquilhagem desde o início já ultrapassa, segundo os especialistas, aquilo que deveria acontecer num espaço público partilhado.

E pentear o cabelo?

Também não é aconselhável.

A higiene e os cuidados pessoais devem ser reduzidos ao mínimo nos transportes públicos, e escovar o cabelo já ultrapassa esse limite.

Cortar ou arranjar as unhas?

Não.

Os especialistas consideram que são cuidados pessoais que devem ser feitos em privado. Cortar as unhas dos pés num transporte público é apresentado como um dos exemplos mais extremos de comportamento inadequado.

E colocar protetor solar?

Se for realmente necessário, poderá fazê-lo com moderação.

Um pouco de creme ou loção aplicado discretamente é aceitável. Um spray é mais problemático, porque pode atingir quem está à volta.

A regra volta a ser pensar no efeito do comportamento sobre os restantes passageiros.

Pode mudar de roupa dentro da carruagem?

Não.

Retirar um casaco, camisola, cachecol, chapéu ou luvas é normal. Transformar o banco num pequeno balneário já não.

Tirar os sapatos ou as sandálias também é desaconselhado.

E se estiver prestes a vomitar?

Se existir casa de banho, deve dirigir-se para lá tão depressa quanto possível.

Neste caso, mais do que etiqueta, trata-se de minimizar os danos para todos os envolvidos.

Pode agarrar-se à barra superior se estiver de mangas cavadas?

Segurança primeiro.

Se precisar da barra para não cair, deve utilizá-la. Mas, num transporte muito cheio, ter uma axila descoberta praticamente ao nível do rosto de outros passageiros poderá ser desagradável, sobretudo se a higiene não estiver impecável.

Sempre que houver alternativa segura, é preferível escolhê-la.

Pode beber álcool no transporte público?

Depende das regras locais.

Há cidades onde é proibido consumir álcool nos transportes, enquanto noutros comboios as próprias empresas vendem bebidas alcoólicas.

Quando é permitido, a recomendação é moderar o comportamento e lembrar que o álcool tende a tornar grupos de passageiros mais ruidosos.

E comer?

Num comboio cheio durante a hora de ponta, William Hanson sugere praticamente não comer nada.

Em viagens longas, a comida é aceitável, desde que não tenha um cheiro capaz de atravessar metade da carruagem.

Fast food quente é um candidato óbvio a incomodar os restantes passageiros, mas alguns alimentos aparentemente inofensivos também podem ser problemáticos. Hanson aponta até a laranja e a tangerina como exemplos particularmente antissociais devido ao cheiro.

Deve ter o bilhete ou cartão pronto antes de chegar à entrada?

Sim.

Se sabe que vai entrar num autocarro, atravessar uma barreira ou apresentar o passaporte, procure antecipadamente aquilo de que necessita.

Começar a vasculhar a mala apenas quando chega a sua vez atrasa toda a fila — sobretudo quando a pessoa permanece exatamente no meio da passagem enquanto procura.

Chamadas em alta voz são aceitáveis?

O altifalante é um não categórico.

Os restantes passageiros não precisam de ouvir os dois lados da conversa.

Uma chamada normal poderá ser inevitável, mas deve ser curta e discreta. Num comboio, quando possível, pode ainda deslocar-se para a zona entre carruagens para falar sem incomodar.

Pode abrir a janela sem perguntar?

Pode abrir, mas primeiro deve perguntar.

Mesmo quando quase toda a gente provavelmente agradecerá a entrada de ar, consultar os restantes passageiros transforma uma decisão individual numa decisão partilhada.

O mesmo princípio aplica-se a estores ou outros elementos que afetem quem viaja à sua volta.

Como pedir a alguém que use auscultadores?

William Hanson propõe uma estratégia deliberadamente indireta: avisar a pessoa de que parece haver um problema com a ligação dos auscultadores.

Quando ela explicar que não está a usar auscultadores, a mensagem estará dada.

Se a pessoa estiver efetivamente com auscultadores e, ainda assim, a música for suficientemente alta para todos ouvirem, poderá ser mais simples mudar de lugar.

Deve dar dinheiro a quem pede nos comboios?

Se não for ilegal no país em causa e quiser fazê-lo, pode.

Se não quiser contribuir, Hanson aconselha a não fingir que a pessoa deixou de existir escondendo-se imediatamente atrás do telemóvel. Um olhar ou um sorriso reconhece simplesmente que está perante outro ser humano.

Um grupo pode cantar músicas de futebol?

Conversar sobre o jogo não levanta problemas. Transformar uma carruagem numa bancada improvisada é diferente.

Laura Akano considera que grupos a cantar, sobretudo quando existe álcool envolvido, podem criar um ambiente desconfortável ou intimidante para os restantes passageiros.

Mesmo sem palavrões, o ruído e a agitação continuam lá.

Pode espreitar o telemóvel ou o livro da pessoa ao lado?

Não.

Os telemóveis concentram hoje uma enorme quantidade de informação privada, e olhar deliberadamente para o ecrã de outra pessoa ultrapassa uma fronteira evidente.

Também não é boa ideia oferecer espontaneamente a resposta para as palavras cruzadas do desconhecido sentado ao lado. Se não lhe pediu ajuda, deixe-o resolver sozinho.

O comboio foi cancelado. Deve partilhar um táxi com desconhecidos?

Aqui, a segurança deve pesar mais do que a simpatia.

Laura Akano recorda que a decisão depende das circunstâncias e da vulnerabilidade de cada pessoa. Partilhar um táxi com completos desconhecidos, sobretudo à noite, pode não ser uma opção confortável ou segura.

Noutras circunstâncias, e com pessoas com quem exista maior sensação de segurança, a decisão poderá ser diferente.

Deve acordar alguém que está prestes a perder a paragem?

Se tiver a certeza de que aquela é a paragem da pessoa, provavelmente sim.

Pode saber porque conversaram anteriormente ou porque ouviu o destino quando o passageiro comprou o bilhete.

Um toque discreto com alguma antecedência pode evitar que acorde vários quilómetros depois e tenha de pagar uma viagem de táxi muito mais cara.

Como escapar de um desconhecido que não para de falar?

Comece por responder educadamente.

Depois, se não quiser continuar a conversa, pegue no telemóvel ou num livro e mostre, através do comportamento, que pretende ocupar-se com outra coisa.

A maioria das pessoas perceberá o sinal. Se isso não acontecer, poderá ser necessário recorrer a uma solução mais radical: levantar-se e mudar de carruagem.

No fundo, quase todas estas regras têm a mesma origem. Um autocarro, comboio ou avião é um espaço partilhado, não uma extensão de casa. E aquilo que parece perfeitamente inofensivo para um passageiro pode transformar-se numa viagem particularmente longa para quem está sentado ao lado.

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