Randstad Insight: Abraçar a mudança – Flexibility@Work 2021

Embora todas as gerações tenham a sua quota-parte de testes e desafios, a pandemia da COVID-19 tem certamente levado o mundo para algumas direcções inesperadas. A Randstad celebra o seu 60.º aniversário em 2020, pelo que tem sido um tempo de reflexão para todos nós.

Vivemos numa época de profundas capacidades e avanços tecnológicos. Uma época cheia de oportunidades emocionantes, mas só atingiremos o potencial se mantivermos o ritmo. Os eventos deste ano aceleraram a tendência global de digitalização e a implementação de tecnologias como a inteligência artificial. As protecções dos trabalhadores facilitaram um breve período para o mercado de trabalho se ajustar, mas olhando para o futuro, temos de ser realistas sobre quais os sectores que recuperarão rapidamente e quais os que necessitarão de mais tempo e intervenção.

O sector dos serviços de Recursos Humanos desempenha um papel vital durante tempos turbulentos. Se seguirmos as tendências actuais para o futuro, podemos ver futuras lacunas de competências que precisam de ser colmatadas. Isto significa que nós, enquanto sector, teremos de trabalhar arduamente para garantir que continuamos a ligar as pessoas a empregos decentes e à oportunidade de prosperar como parte da economia global.

O sucesso no futuro depende da nossa capacidade de ver além desta crise. Embora os desafios que hoje enfrentamos sejam significativos, a nossa experiência passada diz-nos que, se os enfrentarmos de frente, podemos transformálos em oportunidades. Aplicando as lições aprendidas, podemos aproveitar o impulso de que necessitamos não só para relançar a economia, mas também para elevar a força de trabalho global para sempre.

Jacques van den Broek, CEO da Randstad N.V.


VISÕES

➜ O mundo do trabalho é sempre sobre as pessoas

Independentemente do desafio, temos de deixar que as vozes das pessoas sejam ouvidas.

Sabemos que o mundo do trabalho está a mudar rápida e profundamente sob o impacto da tecnologia, das alterações climáticas, da globalização e da demografia. Na década de 2020, temos de descobrir como gerir nessas transições e o que é preciso para as gerir com sucesso.

Independentemente do desafio, temos de deixar que as vozes das pessoas sejam ouvidas. São estas que devem orientar a nossa abordagem para o mundo do trabalho. Sejamos sinceros: neste último ano, a prioridade de todos tem sido a pandemia de COVID-19. Tem sido definida como uma crise exclusivamente humana, que afecta tanto a saúde das pessoas como o seu emprego. A pandemia tem sido uma experiência dolorosa para todos e tem exposto fragilidades e vulnerabilidades. Tem oferecido lições importantes para o futuro. Agora, temos de começar a agir segundo essas lições.

A governação é vital – qualquer pessoa que acreditava que podemos dispensar o governo ou mantê-lo como um regulador minimalista da vida laboral deve ter abandonado essa ideia perante a pandemia. A política faz diferença na vida das pessoas, mas não se resume apenas aos políticos. Também precisamos do contributo e empenho das empresas e do trabalho organizado.

A discussão sobre o futuro do trabalho não deve centrar-se demasiado numa só questão em detrimento do panorama geral. É claro que temos de considerar cuidadosamente questões-chave como a tecnologia e o ambiente, mas elas fazem parte de um quadro social mais abrangente. As respostas a estes desafios são sobre os valores que queremos seguir, globalmente.

Ao considerarmos esses valores, o trabalho decente é um excelente ponto de partida. Ter acesso a um emprego bom e decente é fundamental para a forma como vivemos, onde quer que estejamos no mundo. Então, o que constitui um emprego decente? Como é o trabalho digno?

Em primeiro lugar, é a oportunidade de ter um emprego que proporcione um rendimento decente, pelo que o princípio do emprego justo é a primeira peça do puzzle a examinar. Em segundo lugar, isto tem de acontecer no contexto do pleno respeito pelos direitos no trabalho. Uma pessoa tem certos direitos fundamentais no local de trabalho, e isso inclui o direito de dizer o que pensa, de ser ouvida e de se organizar. A terceira componente é a protecção social. A ideia de um nível básico de segurança, principalmente perante choques, é particularmente importante no contexto actual. Por fim, há o diálogo social: a interacção entre empregadores e trabalhadores – e onde for apropriado, o Estado – para resolver conflitos.

Se juntarmos estas quatro peças, temos uma definição funcional do que é trabalho decente e no que devemos concentrar-nos para construir um mundo de trabalho melhor para todos. Devemos olhar para onde acreditamos que se encontram os empregos do futuro e como eles podem satisfazer as nossas necessidades sociais futuras. Isso significa examinar competências, protecção social, igualdade, instituições, regras, mecanismos e leis.

Na Organização Internacional do Trabalho, os princípios de equidade, inclusão e justiça têm guiado os nossos esforços desde que fomos fundados, há mais de um século. São tão relevantes para o mundo de hoje como sempre foram. Se queremos paz e harmonia nas nossas sociedades, devemos manter estas noções nas nossas mentes.

No que respeita aos jovens, devemos pensar em pontos de entrada e oportunidades. É tremendamente importante que as pessoas encontrem empregos decentes no início da sua vida profissional. Isto tem um impacto positivo nas suas perspectivas de emprego ao longo da vida. É claro que as modalidades de trabalho estão a tornar-se mais diversificadas, e devemos esforçar-nos por compreender estas formas de trabalho atípicas e inovadoras. Serão elas um trampolim temporário para o mercado de trabalho ou um modelo genérico para o trabalho de amanhã que devemos fazer esforços para organizar?

Todos os stakeholders devem chegar a acordo sobre as características fundamentais de um mercado de trabalho saudável e de um trabalho decente. Se conseguirmos chegar a acordo sobre isso – e, muito francamente, não tenho dúvidas de que podemos – então podemos determinar as salvaguardas, instituições e mecanismos necessários para o conseguir. Essa discussão é, evidentemente, contínua e está em constante mudança, e é uma conversa maravilhosa e inspiradora.

A globalização tornou-se um extraordinário factor de influência nas condições em que trabalhamos, e é uma mudança que nos acompanhará a longo prazo. A questão é como gerimos estas tendências emergentes num mundo globalizado. Trata-se de um desafio significativo a considerar por todos os stakeholders. Não é possível trabalhar em silos sobre as questões que surgiram. Em vez disso, temos de aceitar e abraçar o trabalho num ambiente expansivo, aberto e global.

Onde há desafios, há também soluções práticas. O nosso trabalho é desvendar e implementar essas soluções – e há muito para se ser optimista.

➜ Do trabalho remoto ao trabalho inteligente

Penso que vamos ver daqui em diante uma nova disposição do local de trabalho e muitas empresas a adoptarem novas abordagens na forma como organizam o trabalho.

Ninguém poderia ter previsto que 40% da força de trabalho da OCDE iria conseguir passar rapidamente para o teletrabalho numa base regular, e não apenas ocasionalmente. Assistimos a uma adaptação maciça e rápida, utilizando em grande parte tecnologia que já estava disponível. Também tem sido notável e inesperadamente eficaz. As primeiras pesquisas mostram que muitos trabalhadores acreditam que são tão produtivos e alguns ainda mais produtivos quando trabalham à distância.

É claro que há muitos trabalhos que não podem ser realizados remotamente e esta realidade não deve ser esquecida. Há ainda fábricas e outros tipos de empresas que exigem a presença física dos trabalhadores. Mas mais do que os choques do passado, a pandemia de COVID-19 concedeu-nos uma oportunidade de testar os limites e o potencial da tecnologia digital. O que o mundo tem sido capaz de realizar é um bom presságio para o futuro, desde que nos asseguremos de que todos beneficiam.

Penso que vamos ver daqui em diante uma nova disposição do local de trabalho e muitas empresas a adoptarem novas abordagens na forma como organizam o trabalho. Temos uma oportunidade para aproveitar a experiência de 2020 e passar do trabalho remoto para o trabalho inteligente. Isto significa não só trabalhar a partir de casa, mas também trabalhar melhor e de forma mais eficaz. Precisamos também de reconsiderar o objectivo dos nossos locais de trabalho, de modo a torná-los ainda mais adequados para as formas híbridas de interacção que facilitarão o seu avanço.

A transformação digital irá evoluir à medida que novas tecnologias como a inteligência artificial e a aprendizagem automática continuam a desenvolver-se e a progredir. E creio que devemos ser optimistas quanto às oportunidades que estas mudanças trazem. De uma perspectiva agregada, não há provas de que a tecnologia conduza a menos empregos. Na verdade, há muito mais postos de trabalho por causa disso. Antes da pandemia, havia mais pessoas empregadas do que em qualquer outro período desde a Segunda Guerra Mundial. As ferramentas digitais ajudaram-nos a enfrentar os desafios enormes e sem precedentes trazidos pela COVID-19. Há apenas uma década, não seria possível manter tantas actividades económicas e sociais em curso durante confinamentos.

Mas temos de olhar para além do todo. A tecnologia tem contribuído para a polarização do mercado de trabalho, com a criação de muito mais empregos altamente qualificados e alguns empregos muito pouco qualificados. No entanto, tem havido um declínio significativo na disponibilidade de empregos com qualificações intermédias, o que tem prejudicado o meio. A transformação digital provocou mudanças rápidas e profundas, e isto requer uma reformulação do nosso mercado de trabalho e das nossas políticas sociais. No geral, as políticas são concebidas para lidar com os problemas depois de estes já se terem materializado. Por essa razão, temos tido uma tendência para desenvolver mecanismos que resolvem situações em vez de inovações significativas. O futuro tem de ser um futuro em que nos concentramos mais na prevenção e na resiliência. Não podemos evitar todos os choques, mas podemos suportá-los de uma forma muito mais eficaz e evitar grandes perturbações económicas. O big data tem um papel importante a desempenhar na concretização deste objectivo, porque oferece uma noção muito mais granular de quem está mais em risco quando ocorre um choque.

Precisamos de investir muito mais e muito melhor no capital humano. Isto fará a diferença nas perspectivas dos indivíduos e das economias. Há uma necessidade urgente de adaptar os currículos da educação formal e melhorar a orientação que os estudantes recebem na transição para o mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, dada a profundidade e rapidez das mudanças que estamos a viver, precisamos de permitir aos trabalhadores a adaptação contínua das suas competências durante a sua vida profissional. Ao mesmo tempo, uma vez que as pessoas vão mudar de emprego, de profissão ou mesmo de estatuto no mercado de trabalho com mais frequência, precisamos de pôr em prática o que os líderes do G20 já discutem há anos: um nível mínimo de protecção social a que, até certo ponto, todos podem aceder quando se encontram em situação de necessidade.

➜ O empenho e o diálogo irão unir-nos

Um contrato social actualizado entre trabalhadores, governo e empresas é vital para moldar a paisagem de amanhã.

A nossa sondagem global foi divulgada apenas uma semana antes dos confinamentos europeus na Primavera, pelo que nos deu uma referência interessante de conhecimentos para trabalharmos à medida que seguimos a estrada à nossa frente. O que mostra é que uma ruptura do contrato social está em curso há décadas. Tem havido uma perda de quota de rendimentos do trabalho e um aumento da insegurança do trabalho, apesar do crescimento em termos de riqueza e lucros.

Um contrato social actualizado entre trabalhadores, governo e empresas é vital para moldar a paisagem de amanhã. Precisamos de um nível de protecção laboral, por vezes chamado de garantia de trabalho universal para todos, independentemente das especificidades da relação laboral. Direitos fundamentais como a liberdade de associação, direitos de negociação colectiva e liberdade de discriminação na saúde e segurança no trabalho, salários mínimos e horas máximas de trabalho. A responsabilização empresarial através de diligências devidas é vital e a protecção social deve ser garantida.

É evidente que este contrato social renovado deve ser renovado com prioridades transformadoras para a participação das mulheres e a inclusão de todos os trabalhadores marginalizados e ter apenas transições em termos de clima e tecnologia. As pessoas precisam de esperança num futuro seguro e próspero após um choque. Quando se pergunta às pessoas o que querem, as pesquisas mostram que elas querem um emprego. Dentro disso, também querem trabalho decente. Isso ainda não é uma realidade para todos, e os seus stakeholders mais importantes estão empenhados e envolvidos no diálogo para que assim seja.

Chamamos a isto “diálogo social”. Queremos ver todos empenhados em construir um futuro que seja social e economicamente justo para os trabalhadores, as empresas e o ambiente. A menos que essas fundações existam com um respeito fundamental pelo Estado de direito, então não conseguiremos realizar o que é necessário. As empresas devem ouvir as exigências dos trabalhadores e a concepção dos quadros regulamentares deve apoiar todos os stakeholders.

Este ano acelerou a adopção de tecnologias digitais, especialmente em relação ao trabalho à distância para os trabalhadores que o podem fazer. É importante, no entanto, perceber que 40% da força de trabalho global ainda não está ligada digitalmente, pelo que isto não é universal. No entanto, as lacunas em termos de regulamentação devem ser preenchidas.

De certa forma, o que estamos a ver é todo um conjunto de exigências em torno das mesmas questões anteriores: condições salariais, horas de trabalho, direitos dos trabalhadores e segurança. A diferença agora é que estas são considerações no ambiente de trabalho doméstico, e não no local de trabalho físico. Quando se está isolado em casa e longe dos colegas, a questão da saúde mental também não deve ser negligenciada. Os nossos quadros regulamentares estavam mal preparados para a rápida ascensão destas novas formas de trabalho.

Uma série de crises levou a uma abordagem em que o mundo do trabalho com empresas foi caracterizado como vencedores e vencidos. Temos de substituir isto por uma melhor compreensão do impacto humano e climático e das consequências das decisões. Se não estivermos colectivamente empenhados na construção de um futuro onde todos estejam empenhados no Estado de direito, com a justiça, com a prosperidade partilhada, com a manutenção de um ambiente estável – o que é que isso diz sobre nós enquanto seres humanos?

Se queremos um mundo melhor para as gerações futuras, para vermos uma recuperação a longo prazo e uma resiliência que beneficie todos, temos de nos comprometer agora com esse objectivo.

➜ A adaptabilidade é fundamental para futuras competências

A adaptabilidade é fundamental para a força de trabalho, razão pela qual existe uma ênfase tão grande nas competências transferíveis.

Costumávamos falar de aprendizagem durante uma vida inteira; agora temos uma vida inteira de aprendizagem. A aprendizagem tem sempre de se mover com a tecnologia. Um dos maiores desafios actuais é que os pais ainda são as pessoas mais influentes ao longo da carreira de um jovem. Infelizmente, eles também são muitas vezes os mais mal informados. Compreendem a força de trabalho como era há 15 ou 20 anos, o que cria uma desconexão. Para melhorar isto, precisamos de criar mecanismos que mantenham os jovens mais directamente informados sobre a força de trabalho tal como ela existe hoje e como são as oportunidades de emprego. Mostrar e promover oportunidades de carreira actuais e futuras nas competências, obrigações e tecnologias é uma grande parte do nosso trabalho na WorldSkills International.

A adaptabilidade é fundamental para a força de trabalho, razão pela qual existe uma ênfase tão grande nas competências transferíveis. A forma de pensar sobre o sucesso nesta área é que não se está tanto a tentar fazer com que as pessoas façam um determinado trabalho, mas sim a tentar levá-las a compreender uma determinada aplicação das suas competências. Essa aplicação pode então ser feita em muitos sectores diferentes. O futuro pertencerá àqueles que podem utilizar a tecnologia como um amigo. Muda a natureza dos empregos e a forma como as pessoas aplicam as suas competências, mas os robôs não vão roubar os nossos empregos da forma como as pessoas por vezes se preocupam.

Em última análise, a tecnologia cria oportunidades para as pessoas fazerem novos e importantes trabalhos, porque as máquinas são capazes de assumir as tarefas mais repetitivas. Quer se trate de um vírus ou de uma impressora 3D, as perturbações do mercado de trabalho vão e vêm sempre. Aos 20 anos de idade não estará a fazer o mesmo trabalho que aos 55. A chave é certificar-se de que tem um conjunto adaptável de competências. As pessoas precisam de ser ensinadas a aprender, em oposição a serem ensinadas só um tópico específico.

Mas quem é responsável por transformar essa visão numa realidade? Será trabalho do governo? Ou do sector privado? Ou talvez se reduza ao indivíduo. O governo, os fornecedores de educação e a indústria têm todos um papel a desempenhar, mas não são papéis iguais. Todos eles contribuem de forma diferente e em momentos diferentes. Por vezes, o recurso será o financiamento, enquanto outras vezes será a viabilização. Cada país aborda o desafio de forma diferente, mas em última análise têm o mesmo objectivo: preparar as pessoas para a força de trabalho, e depois produzir produtos competitivos e impulsionar o desempenho. As mesmas qualidades de resiliência, adaptabilidade e flexibilidade são o que coloca os trabalhadores à frente, independentemente da sua idade ou profissão.

Grande parte da educação que vemos hoje baseia-se na competência, mas o maior desafio é passar da competência à excelência. As empresas preferem empregar pessoas que são excelentes. É o que lhes pode dar uma vantagem competitiva em termos dos seus produtos e serviços. Então, como inspirar os trabalhadores, especialmente os jovens a fazer o necessário para conseguir um emprego e a aspirar à verdadeira excelência?

Antigamente, entrávamos numa empresa aos 16 anos e saíamos aos 60 com um relógio de ouro. As pessoas já não são leais como outrora. Isto coloca desafios aos negócios, mas é uma área que vale a pena examinar porque o talento qualificado será um diferenciador fundamental para as empresas nos próximos anos. Devem primeiro atraí-lo e depois mantê-lo, o que significa desenvolver, fomentar, nutrir, crescer e criar oportunidades.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 181 de Abril de 2021

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