Muitas vezes, ficamos com a ideia de que há dois países em Portugal. Um investe. Contrata. Inova. Testa novas tecnologias, simplifica, aposta na digitalização, tenta crescer. O outro é feito de burocracia, carga fiscal e entraves que não param de se multiplicar. Vivem lado a lado. Mas, raramente se cruzam.
As empresas acreditam em si próprias. 59% esperam crescer em facturação nos próximos anos. Investem, contratam, arriscam. Mas quando olham para o País que as rodeia, a confiança desaparece. Só 6% considera Portugal bem ou muito bem preparado para os desafios da próxima década. A discrepância é brutal. E reveladora. Não é falta de ambição das empresas. É o contexto que as trava. Cada nova licença demora mais de um mês. Cada declaração fiscal exige mais um formulário. Cada decisão estratégica esbarra num processo que não estava lá no ano passado. As empresas já aprenderam a navegar nesta rede, nesta teia. Mas navegar não é o mesmo que avançar. O resultado é uma ambição contida. Quem poderia investir mais, decide investir com cautela. Quem poderia contratar mais, espera. Quem poderia expandir e aumentar a sua capacidade produtiva, fica com dúvidas, e volta a reequacionar. Quem trava Portugal? É a soma de pequenas fricções, fiscais, administrativas, regulatórias, que, isoladas, parecem passíveis de serem geridas e ultrapassadas. Juntas, e em cumulativo, tornam-se um travão estrutural.
O País que investe existe. É real, é robusto, é maioritário no discurso empresarial. Falta o País que facilita. Falta o Estado que acompanha o ritmo de quem arrisca. Enquanto estes dois “países” não se encontrarem, a pergunta mantém-se: quem trava Portugal?
Editorial publicado na revista Executive Digest n.º 246 de Setembro de 2026














