O Recuo da Democracia Liberal

A perspetiva de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati S.A.

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Nelson Pires
Nelson PiresGeneral Manager da Jaba Recordati S.A.Setembro 2, 2026 12:52

Há uma melancolia muito própria em ver o mundo a andar para trás enquanto todos nós juramos estar a avançar a passos largos. A razão desta minha desassossegada reflexão nasce de um daqueles relatórios cirúrgicos que gostam de pôr números no nosso elegante desencanto: o estudo do Instituto V-Dem, de 2025, vindo diretamente da Universidade de Gotemburgo sobre a democracia no mundo. Estava a olhar para aqueles gráficos e percebi que a democracia virou uma espécie de fato antigo e cerzido que já ninguém quer vestir para ir à festa. Dizem-nos com a frieza das estatísticas que o nível global de democracia regressou, de um fôlego só, aos valores de 1978. Mil novecentos e setenta e oito! Ainda a televisão era a preto e branco na maioria das casas, as pessoas usavam calças à boca de sino com uma seriedade assustadora, e de repente descobrimos que quase meio século de discursos pomposos, tratados europeus e jantares de gala em Bruxelas nos deixaram exatamente no mesmo sítio.

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Apenas sete por cento da população mundial vive hoje numa democracia liberal plena. Sete por cento é uma minoria extravagante, um clube exclusivo de tontos civilizados onde ainda nos damos ao luxo de discutir o civismo enquanto o resto do planeta prefere a ordem musculada dos novos autocratas. Entre 2005 e 2025, o número de países a caminhar para a autocratização quadruplicou, saltando de doze para quarenta e quatro. Ao mesmo tempo, a liberdade de expressão deteriorou-se em quarenta e quatro nações, e a qualidade das eleições seguiu pelo mesmo caminho decadente. A liberdade virou um luxo escasso, como o café bom, o silêncio da tarde ou os domingos sem e-mails de trabalho. E Portugal, o nosso querido e brando Portugal, não escapa a esta maré inevitável de cansaço. Estamos menos democráticos do que há uma década. Ocupamos um modesto vigésimo sexto lugar no Índice de Democracia Liberal, com uma pontuação de 0,72. Se fôssemos um aluno de liceu, os nossos pais diriam que «tem capacidades mas é preguiçoso». Somos razoáveis a votar (vigésimo terceiro lugar), mas quando olhamos para a igualdade (sexagésimo primeiro lugar) ou para a participação cidadã (sexagésimo segundo lugar), a coisa piora muito. O português gosta da ideia genérica de democracia, mas prefere exercê-la no balcão do café, mais do que na vida pública real. Ficamos a ver passar os países nórdicos no topo da tabela, como aqueles vizinhos perfeitos que têm o jardim sempre impecável e nunca fazem barulho à noite. Olhamos para os Estados Unidos a cair para a quinquagésima primeira posição e confortamo-nos tolamente com o mal alheio, esquecendo que quando os gigantes tropeçam, a queda acaba por nos cair em cima das cabeças. É por isso que se torna urgente e vital repensar todo este nosso modelo social-democrata e liberal antes que ele vire uma peça de museu. O grande problema das autocracias não é apenas a força bruta; é o seu charme sinistro de oferecerem respostas simples para pessoas exaustas de pensar. A democracia dá trabalho, exige conversa, exige paciência, exige aturar gente de quem não gostamos nada. E o mundo executivo moderno, viciado na eficiência rápida, perdeu a paciência para os rituais lentos, imperfeitos e absolutamente maravilhosos da liberdade humana. Se não acordarmos para esta preguiça cívica, arriscamo-nos a acordar num mundo terrivelmente eficaz, mas onde já ninguém nos deixa discordar. O populismo alimenta-se de uma tempestade perfeita onde fatores socioeconómicos, crises de representatividade e dinâmicas culturais se entrelaçam. No plano económico, o fosso crescente da desigualdade, a precarização e a sensação de abandono social criam uma classe média receosa e ressentida. Essa insatisfação é amplificada pela desconfiança nas instituições políticas tradicionais, abaladas por escândalos e vistas como elites distantes e incapazes de responder com a celeridade que os cidadãos exigem. Por fim, o receio de perdas identitárias num mundo globalizado encontra terreno fértil nas redes sociais — que privilegiam narrativas simplistas e polarizadoras —, abrindo espaço para líderes carismáticos que se apresentam como salvadores contra o sistema estabelecido.

A solução de política estratégica passa por três pilares urgentes. Primeiro, é preciso refundar o modelo social-democrata, ligando a eficácia das instituições à igualdade real, porque os melhores fertilizantes do populismo são os que referimos atrás. Segundo, temos de modernizar a participação cívica, tirando o cidadão do papel de mero espectador eleitoral de quatro em quatro anos através de orçamentos participativos e transparência radical. Por fim, urge reformar a educação, nomeadamente para a cidadania e proteger o ecossistema de informação contra a desinformação fácil. Defender a democracia é sair da comodidade e reformar a casa antes que o teto nos desabe em cima da cabeça.

A democracia continua a ser a pior forma de governo existente, com a terrível exceção de todas as outras que a humanidade já experimentou.

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