O que dificulta as mães de empreender

Opinião de Sandra Miranda de Oliveira, Professora de Gestão Estratégica e Marketing. ISEG – Lisbon School of Economics & Management. Universidade de Lisboa

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Sandra Miranda de Oliveira
Sandra Miranda de OliveiraProfessora de Gestão Estratégica e Marketing. ISEG – Lisbon School of Economics & Management. Universidade de LisboaSetembro 30, 2026 10:34

Nas últimas décadas, Portugal fez progressos significativos na promoção da igualdade de género. As mulheres apresentam níveis de escolaridade cada vez mais elevados, representam uma parte crescente da força de trabalho qualificada e ocupam cada vez mais posições de liderança em múltiplos setores. Apesar disso, muito ainda está por fazer. A título de exemplo, as mulheres continuam a assumir uma parte desproporcionada das responsabilidades familiares e domésticas. Esta desproporção cria uma carga física e mental diária nas mulheres (com o planeamento, a organização e a antecipação permanente de tudo o que é necessário para o funcionamento da família) muito superior à dos homens. Grande parte das mulheres sente que tem duas jornadas de trabalho: a profissional e a familiar.

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A maternidade vem agravar esta situação. A maternidade costuma ser para a mulher um período de enorme reflexão. O nascimento de um filho representa muitas vezes um momento de redefinição de identidade, de reavaliação de prioridades e de questionamento do percurso profissional seguido até então. Muitas mulheres começam a perguntar-se se devem continuar na mesma carreira, se o seu trabalho está alinhado com os seus valores, se este é o momento de construir algo próprio e como podem conciliar realização profissional e vida familiar. Para algumas mães, o empreendedorismo surge precisamente nesta fase como uma alternativa atrativa, não necessariamente como uma fuga ao emprego tradicional, mas como uma oportunidade para construir uma atividade mais alinhada com os seus objetivos pessoais e familiares.

Em Portugal, as mulheres representam 38% dos empreendedores, um valor 5% superior à média da União Europeia (EU-27), que é de 33%. Ainda assim, 74% das empreendedoras na União Europeia trabalham sem empregados, comparado com 66% dos homens (Comissão Europeia, 2026). Em 2023, apenas 7% das mulheres europeias entre os 18 e os 64 anos (EU-18) estavam envolvidas na criação ou gestão de um negócio em fase inicial, face a 10% dos homens, representando um défice de cerca de 4 milhões de mulheres empreendedoras na Europa (Comissão Europeia, 2026).

Existe uma ideia latente de que o maior obstáculo ao empreendedorismo feminino se centra no acesso ao financiamento. Apesar da inquestionável importância que este tem, uma investigação recente publicada no Journal of Management Studies sugere vários outros obstáculos considerados pelas jovens mães como igualmente decisivos. O primeiro é o tempo. Quando a duração da licença de maternidade diminui, a probabilidade de uma mãe se tornar empreendedora reduz-se significativamente. Pelo contrário, quando existe mais tempo disponível, a propensão para empreender aumenta. Isto porque, criar um negócio raramente é um ato impulsivo e exige refletir sobre oportunidades, explorar ideias, aprender, desenvolver competências, criar redes de contacto, testar conceitos e ganhar confiança. E tudo isto exige tempo. O segundo fator é o contexto familiar. As mães que beneficiam de maior apoio emocional do parceiro e que vivem em contextos onde as responsabilidades domésticas são mais equilibradas mostram maior propensão para considerar o empreendedorismo. Frequentemente celebramos histórias de sucesso de mulheres (e de homens) empreendedoras como se fossem conquistas exclusivamente individuais, mas, a realidade, é que o empreendedorismo raramente acontece isoladamente. Por fim, o terceiro fator diz respeito às creches e programas de apoio que fazem a diferença. A disponibilidade de serviços de apoio à infância e a existência de programas especificamente direcionados para empreendedoras aumentam significativamente a probabilidade de uma mulher avançar para um projeto empresarial.

Os dados europeus reforçam estes obstáculos (EU-18). Apenas 42% das mulheres consideram possuir os conhecimentos, as competências e a experiência necessários para criar um negócio, comparativamente a 55% dos homens. Além disso, 53% das mulheres afirmam que o medo de falhar as impediria de empreender, face a 45% dos homens. A falta de tempo também se reflete na forma como gerem os negócios: 24% das empreendedoras europeias (EU-27) trabalham a tempo parcial, comparativamente a apenas 11% dos homens (Comissão Europeia, 2026).

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Assim, e contrariamente ao que seria de esperar, o aumento dos apoios financeiros associados à licença de maternidade não teve na investigação de Pomme Theunissena, da Universidade de Maastricht, e seus colegas, um efeito significativo na decisão de criar um negócio. Isto não significa que os recursos financeiros sejam irrelevantes. Significa apenas que, para muitas mães, o problema surge antes do financiamento. Antes de procurar investidores, candidatar-se a apoios ou elaborar um plano de negócio, é necessário encontrar espaço para pensar, planear e agir. Sem tempo, o dinheiro pode nunca chegar a ser o problema principal. Esta conclusão obriga-nos a repensar algumas políticas públicas. Talvez o debate sobre empreendedorismo feminino se tenha concentrado excessivamente no acesso ao capital e à educação e menos nas condições que permitem às mulheres desenvolverem oportunidades empreendedoras.

Fonte. European Commission. European Innovation Council and SMEs Executive Agency (EISMEA). (2026). Women entrepreneurs in Europe: Data, barriers, and recommendations for support. Publications Office of the European Union. https://doi.org/10.2826/0068826

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