Felizes à portuguesa: Contentamento sem excesso

Opinião de Maria João Guedes, Professora do ISEG, Lisbon School of Economics and Management e Coordenadora do POWER (Portuguese Women’s Equality Observatory)

Sónia Almeida
Agosto 20, 2025
11:40

Por Maria João Guedes, Professora do ISEG, Lisbon School of Economics and Management e Coordenadora do POWER (Portuguese Women’s Equality Observatory)

Apesar dos progressos significativos em áreas como educação, direitos humanos e integração cultural, a pergunta permanece: estão os portugueses realmente mais felizes?

O World Happiness Report é um ranking anual da felicidade que, em 2025, abrange 147 países e mede a felicidade através de seis indicadores: PIB per capita, apoio social, saúde, liberdade, generosidade e perceção de corrupção. Neste ano, Portugal ocupa a 60.ª posição, ligeiramente acima da metade da tabela, tendo descido cinco lugares em relação ao ano anterior. O ranking é liderado pela Finlândia — no topo há oito anos consecutivos — seguida de outros países nórdicos como Dinamarca, Islândia e Suécia, enquanto o Afeganistão ocupa a última posição.

Apesar da descida em 2025, Portugal tem mostrado uma tendência geral de crescimento moderado na felicidade, especialmente entre 2019 e 2022. Entre 2013 e 2018, Portugal situava-se nas posições mais baixas do ranking, entre 85.º e 94.º lugares. A partir de 2019, observa-se uma melhoria significativa: 66.º (2019), 59.º (2020), 58.º (2021), 56.º (2022) e cerca do 55.º lugar em 2023–2024, refletindo um crescimento constante, embora modesto.

Mas o que explica o recuo de Portugal em 2025 e a crescente distância em relação aos países mais felizes? Embora fatores económicos como o PIB per capita influenciem o bem-estar, os elementos sociais — como o apoio social, a liberdade, a generosidade e a confiança — exercem um impacto mais forte e podem ajudar a explicar a queda de Portugal. Entre 2019 e 2022, mesmo com os desafios da pandemia, o país beneficiou de uma modesta recuperação económica, redução da inflação, aumento do salário mínimo e melhoria das condições de vida, reforçados por políticas sociais robustas que sustentam o bem-estar. Contudo, os indicadores económicos como PIB per capita, produtividade e risco de pobreza ainda ficam atrás de alguns pares europeus, enquanto outros países, especialmente na Europa Oriental, avançaram mais rapidamente, contribuindo para o declínio relativo de Portugal no ranking.

O relatório destaca ainda a importância das relações sociais. A crença na bondade dos outros, testada através de experiências como o “teste da carteira perdida”, é um forte indicador de felicidade. As pessoas tendem a subestimar a generosidade alheia, mas essa expectativa de bondade influencia o bem-estar mais do que muitos indicadores económicos. Outro fator essencial é a redução do isolamento social: viver acompanhado, especialmente em famílias de 4 a 5 membros, correlaciona-se com maior felicidade, enquanto viver sozinho, prática crescente, especialmente entre jovens, reduz o bem-estar.

A partilha social, como dividir refeições com familiares ou amigos, também contribui significativamente para a satisfação com a vida. Infelizmente, o hábito de comer (e estar) sozinho tem aumentado, sobretudo entre os jovens adultos, que também relatam com maior frequência não ter ninguém com quem contar.

Em resumo, o relatório evidencia que atos de generosidade e bondade beneficiam não apenas quem recebe, mas também quem pratica, fortalecendo a saúde, a resiliência e, sobretudo, a felicidade coletiva. Para Portugal avançar no ranking da felicidade, investir em relações sociais, confiança mútua e coesão social é tão crucial quanto melhorar os indicadores económicos.

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