“Work isn’t Working”: Como reconstruir a relação com o trabalho

Segundo o HP Work Relationship Index 2025, os líderes empresariais nunca investiram tanto em tecnologia, mas os colaboradores também nunca se sentiram tão desligados. Agora, em 2026, a pergunta é simples: porque é que alguém escolheria ficar?

Executive Digest

O futuro do traba­lho não se pro­mete, constrói­-se agora. E os sinais que 2025 deixou são cla­ros: “work isn’t working”. No ano passado, apenas 20% dos trabalhadores de escritório disseram ter uma relação saudável com o trabalho, menos oito pontos do que em 2024. A erosão foi global, atravessou sectores e geografias, e não se limitou a quem está na base. Os líderes, que deveriam ser faróis de confiança, registaram as quedas mais acentuadas. Ao mesmo tempo, 62% dos participantes sentiram que as exigências aumentaram e quase metade acreditou que as empresas estavam a dar prioridade ao lucro e não às pessoas. É um retrato queexpôs um desfasamento entre a es­tratégia e a experiência das pessoas, num contexto marcado por disrupção, pressão económica e acesso desigual à tecnologia.

Este cenário não era inevitável. Mas exige uma mudança profunda, que em 2025 começou a falhar. O Work Rela­tionship Index 2025, estudo global da HP com mais de 18 mil participantes em 14 países, mostrou que a relação com o trabalho atingiu mínimos históricos. A chamada Healthy Zone (zona saudável), onde se encontram os profissionais que se sentem realizados e conectados, en­colheu para 20%, enquanto a Critical Zone (zona crítica) disparou para 41%, contra 30% em 2024. O sentimento de realização caiu para 21%, a confiança na liderança para 16%, e apenas 15% reconheceram coerência entre o que os líderes pedem e o que praticam. Estes números não são meras estatísticas: traduzem um impacto real na moti­vação, na retenção e na produtividade. Quando a relação com o trabalho é má, 36% dos profissionais admitem fazer apenas o mínimo indispensável e 41% ponderam mudar de emprego. Não é uma crise de motivação: é uma erosão de competitividade.

Apesar do tom sombrio, existiram sinais de esperança. Nas empresas de forte desempenho, 47% dos trabalha­dores estavam na Healthy Zone, contra 13% nas organizações estáticas e 6% nas que ficaram para trás. E houve um fac­tor que fez diferença: ver investimento em tecnologia. Quando isso aconteceu, os colaboradores foram cinco vezes mais propensos a sentir que tinham uma relação saudável com o trabalho. A tecnologia, quando bem aplicada, não é apenas um facilitador. É um amplificador de experiências positivas. Mas aqui reside a ironia: 69% dos par­ticipantes estão entusiasmados com o futuro da tecnologia, mas apenas 15% confiam que os líderes cumpram o que prometem. A transformação digital está a acontecer num vácuo de liderança. Isso explica porque é que investimento em ferramentas não se traduz automa­ticamente em envolvimento.

IA: ENTUSIASMO UNIVERSAL, ACESSO DESIGUAL

A Inteligência Artificial foi o exemplo mais claro desta ambivalência. Entre os profissionais que se sentiram rea­lizados, 42% usaram IA todos os dias. Mas a adoção foi desigual: 49% dos decisores de Tecnologias de Informação (TI) passaram a usar IA diariamente, contra 41% dos líderes e apenas 25% dos trabalhadores de escritório. A lista de desejos destes últimos começou por ferramentas avançadas de IA e hardware eficiente para as correr, mas a formação foi o elo mais fraco. Em 2024, 51% di­ziam ter formação adequada; em 2025, foram apenas 38%. O resultado foi um fosso de proficiência: os trabalhadores de escritório tinham metade da com­petência dos líderes (21% contra 44%). Democratizar a IA significa garantir acesso, capacitação contínua e medição rigorosa da experiência digital, para fechar o gap entre perceção e realidade. Quando isso aconteceu, os ganhos foram tangíveis: quem usou IA regularmente reportou melhorias na capacidade de foco, na redução de tarefas rotineiras e na eficiência geral.

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A tecnologia sem contexto geracional é uma análise incompleta. Aplicando as conclusões do estudo à realidade nacional, num país onde as PME repre­sentam 99,9% do tecido empresarial, esta assimetria tende a ser ainda mais pronunciada. Enquanto multinacionais implementam programas estruturados, milhares de empresas nem sequer têm estratégia definida – reproduzindo à escala nacional um fosso semelhante ao que se observa globalmente entre decisores de TI (49% com IA diária) e trabalhadores de escritório (25%). A questão não é se a IA vai transformar o trabalho, mas quem vai conseguir acompanhar essa transformação.

A GERAÇÃO Z E O NOVO PACTO COM O TRABALHO

Houve ainda um vector que reescreveu as regras: a geração Z. Até ao fim de 2025, foi 27% da força de trabalho global e trouxe prioridades diferentes. Quando quatro em cinco jovens profis­sionais estão dispostos a trocar salário por autonomia, não estamos perante uma tendência geracional – estamos perante uma reavaliação do valor do trabalho. Procuram propósito, ética alinhada e tecnologia de ponta. Mais de metade tem projectos paralelos, e os seus scores no WRI são superiores à média. Para gestores formados na era da lealdade corporativa, isto exige repensar desde políticas de retenção até modelos de liderança.

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Mas ignorar esta geração seria des­perdiçar a maior oportunidade de ino­vação das últimas décadas. O valor não se desbloqueia através de confronto geracional, mas através de mentoring recíproco. Os dados são claros: quando gerações colaboram de forma estrutu­rada, as mais novas aceleram a adoção tecnológica, enquanto as mais seniores aportam perspectiva de longo prazo, comunicação refinada e experiência de negócio que só décadas constroem. A Gen X valoriza aprender competências digitais com a Gen Z; a Gen Z procura a experiência prática e o pensamento estratégico dos mais velhos. Esta troca bilateral não é apenas culturalmente valiosa – é estrategicamente essencial. Empresas que criam programas formais de mentoring bidireccional reportam maior adaptabilidade, inovação mais rápida e retenção superior em ambos os grupos. O futuro do trabalho não per­tence a uma geração, mas à capacidade de as pôr a trabalhar juntas.

E aqui entra a coerência: para uma ge­ração que valoriza ética e propósito tanto quanto salário, as práticas ambientais são parte da equação. Equipamentos concebidos com materiais reciclados, eficiência energética certificada e solu­ções que prolongam a vida útil não são detalhes técnicos. São sinais claros de compromisso genuíno. A sustentabili­dade deixou de ser um apêndice para se tornar um critério de confiança.

85% DO FUTURO DEPENDEDAS EMPRESAS

O estudo da HP foi explícito: 85% dos factores que moldam a relação com o trabalho estão sob controlo das empre­sas. E existiram seis alavancas que fun­cionaram: tecnologia, reconhecimento, clareza de objectivos, equilíbrio, colabo­ração e foco. A boa notícia é que todas são accionáveis; a má é que os colaboradores reportaram insatisfação em todas elas. Mais do que um facilitador, a tecnologia é a base que potencia os demais pilares: multiplica foco, colaboração, equilíbrio, reconhecimento e clareza. Mas 74% dos inquiridos gostavam que a tecnologia fosse melhor, e 59% acreditam que a área de TI não se preocupa com a experiência de trabalho. É um aviso para integrar as TI como peça central da experiência, em vez de a relegar para segundo plano. Medir, corrigir fricções, democratizar IA e criar rituais de reconhecimento foram passos concretos. Clarificar objectivos, proteger tempo de concentração e de­senhar experiências híbridas inclusivas foram outros.

O futuro do trabalho não é uma meta, mas sim um processo que exige rigor e consistência. Em 2026, a pergunta deixou de ser “como atraímos talento” para se tornar “porque é que alguém escolheria ficar”. A resposta está nos 85% de factores controláveis que as empresas ainda não dominam. Não por falta de intenção, mas por falta de execução sistemática.

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As empresas que vão prosperar não são as que têm melhores intenções, mas as que medem, ajustam e execu­tam com disciplina as seis alavancas que a investigação identificou. Porque o verdadeiro desafio não é construir o futuro do trabalho. É garantir que alguém queira lá estar quando acordar na segunda-feira.

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