A guerra entre o Irão, os Estados Unidos e Israel está a colocar os países árabes do Golfo perante uma das decisões estratégicas mais delicadas das últimas décadas. Apesar de serem aliados próximos de Washington e de dependerem do apoio militar norte-americano para a sua segurança, Estados como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos ou o Bahrein têm resistido a entrar diretamente no conflito.
A posição de prudência surge mesmo depois de vários ataques iranianos terem atingido a região. Desde o início da guerra, mais de dois mil projéteis — entre mísseis e drones — foram disparados contra países do Golfo, segundo dados citados pela Guarda Revolucionária iraniana.
Perante esta escalada, os governos da região enfrentam um dilema difícil: alinhar com os Estados Unidos e arriscar uma guerra direta com um poderoso vizinho ou manter distância e enfrentar críticas de Washington.
Ataques no Golfo colocam aliados de Washington sob pressão
Os Estados do Golfo têm estado na linha de fogo desde o início do conflito. Segundo a própria Guarda Revolucionária do Irão, cerca de 40% do poder de fogo utilizado na guerra foi direcionado contra Israel, enquanto a maioria dos ataques teve como alvo países árabes vizinhos.
Para Teerão, atingir a região pode servir um objetivo estratégico claro: pressionar os governos do Golfo a afastarem-se dos Estados Unidos.
Kamal Kharrazi, conselheiro de política externa do líder supremo iraniano, afirmou à CNN Internacional que os ataques vão continuar com esse propósito. Segundo explicou, a intenção é levar os países da região a convencer o presidente norte-americano, Donald Trump, a recuar na guerra.
Do outro lado, Washington e Israel parecem tentar transformar esses ataques num argumento para que os aliados árabes participem no conflito.
O próprio Trump admitiu surpresa com o impacto da guerra nos seus parceiros regionais. Em declarações à CNN Internacional na semana passada, disse que ver aliados árabes dos Estados Unidos sob ataque iraniano foi “a maior surpresa” do conflito, acrescentando que esses ataques levaram os países do Golfo a “insistir em estar envolvidos”.
Apesar disso, os governos da região têm repetido que não pretendem participar diretamente na guerra.
Pressão política vinda de Washington
Nos Estados Unidos, algumas vozes têm defendido uma participação mais ativa dos aliados árabes.
O senador republicano Lindsey Graham, considerado um aliado próximo de Trump, foi particularmente direto. Após uma visita a Israel, questionou publicamente porque deveriam os Estados Unidos continuar a defender parceiros como a Arábia Saudita se estes recusarem participar no que descreveu como uma luta comum contra o Irão. Caso contrário, advertiu, “haverá consequências”.
Os líderes do Golfo evitaram responder diretamente a essa pressão. No entanto, algumas reações vindas da região mostram o desconforto existente.
O empresário bilionário do Dubai Khalaf Al Habtoor reagiu nas redes sociais às declarações de Graham, deixando implícita a frustração de muitos na região.
“Sabemos perfeitamente porque estamos a ser atacados e também sabemos quem arrastou toda a região para esta perigosa escalada sem consultar aqueles a quem chama ‘aliados’”, escreveu na rede social X, numa publicação que viria posteriormente a apagar.
Desconfiança sobre prioridades estratégicas dos EUA
Entre analistas da região, existe a perceção de que a guerra atual reflete uma mudança nas prioridades estratégicas de Washington.
Hasan Alhasan, investigador sénior de política do Médio Oriente no International Institute for Strategic Studies, afirma que muitos governos do Golfo consideram que a administração norte-americana privilegiou a segurança de Israel em detrimento da dos seus parceiros árabes.
“Essa desconfiança provavelmente será um obstáculo a que os países do Golfo participem numa ação ofensiva”, explica.
Esta perceção reforça a prudência dos governos da região, que receiam ficar presos a um conflito cujas consequências poderão ter de enfrentar sozinhos.
Um vizinho permanente chamado Irão
Outro fator decisivo para a relutância dos países do Golfo é a geografia.
Mesmo que a guerra termine, o Irão continuará a ser um vizinho inevitável. Um responsável dos Emirados Árabes Unidos explicou à CNN Internacional que essa realidade pesa nas decisões estratégicas.
“No fim do dia, são vizinhos”, afirmou, referindo-se ao Irão. Segundo acrescentou, as relações com Teerão terão inevitavelmente de normalizar-se no futuro, ainda que isso possa levar décadas devido ao atual “enorme défice de confiança”.
A mesma lógica é partilhada por Bader Al Saif, professor de História na Universidade do Kuwait. Para o académico, a presença militar dos Estados Unidos no Médio Oriente não é permanente.
“As forças norte-americanas acabarão por fazer as malas e sair”, disse. “Saíram do Afeganistão. Estão a sair do Iraque e também vão sair da nossa região. Por isso temos de tratar das nossas próprias questões.”
O peso da Arábia Saudita nas decisões da região
Entre os países do Golfo, a Arábia Saudita desempenha um papel determinante. Como maior potência regional, as suas decisões podem influenciar a posição de outros Estados mais pequenos.
Alguns governos poderão estar a aguardar para ver qual será a postura de Riade antes de tomar decisões mais firmes.
No entanto, a entrada da Arábia Saudita no conflito poderia abrir novas frentes militares. Uma das mais sensíveis situa-se na fronteira sul do país com o Iémen.
Durante anos, os rebeldes Huthis apoiados pelo Irão lançaram ataques contra território saudita, um conflito que apenas recentemente tinha registado uma diminuição de intensidade.
Se Riade se envolver diretamente na guerra contra Teerão, esses ataques poderão regressar com maior força.
Rotas petrolíferas vulneráveis
A geografia energética da região também pesa nas decisões estratégicas. Entre os países do Golfo atingidos por ataques iranianos, a Arábia Saudita é o único que possui uma costa significativa no Mar Vermelho. Essa posição permite-lhe exportar petróleo por rotas que evitam o Estreito de Ormuz. Contudo, essas alternativas também são vulneráveis.
Os rebeldes Huthis do Iémen já perturbaram no passado a navegação no estreito de Bab al-Mandab — um ponto estratégico que liga o Mar Vermelho às rotas marítimas globais. Caso o conflito se intensifique, essa passagem poderá voltar a ser alvo de ataques.
O risco de atacar ou de ficar de fora
Para os países do Golfo, a decisão não é simples.
Hasan Alhasan considera que os governos da região têm de avaliar cuidadosamente os riscos de intervir militarmente face aos custos de permanecerem à margem.
Segundo o analista, uma possível opção seria apoiar as operações dos Estados Unidos de forma indireta, por exemplo permitindo o uso do espaço aéreo ou de bases militares. Esta seria a “opção menos escalatória”.
Outra possibilidade seria atacar diretamente locais de lançamento de mísseis e drones iranianos ou, num cenário mais extremo, atingir infraestruturas estratégicas. “Uma refinaria por uma refinaria”, resume o analista.
Mesmo assim, os governos do Golfo tenderiam a agir com um objetivo diferente do de Washington e de Telavive: restaurar rapidamente a dissuasão e terminar o conflito o mais depressa possível.
Infraestruturas civis entram na linha de fogo
Um dos receios mais sérios na região prende-se com a possibilidade de ataques contra infraestruturas civis críticas.
No fim de semana, uma central de dessalinização na ilha iraniana de Qeshm foi atingida. Em resposta, um drone iraniano danificou uma instalação semelhante no Bahrein.
O episódio aumentou os receios de que a guerra possa atingir infraestruturas essenciais para o abastecimento de água.
A preocupação é particularmente sensível porque os países do Golfo são maioritariamente desérticos e dependem fortemente da dessalinização.
Embora tenham menos de 1% da população mundial, concentram cerca de metade da capacidade global de dessalinização.
Um ataque sistemático a essas infraestruturas poderia interromper gravemente o abastecimento de água em vários países da região.
Emirados negam envolvimento em ataques ao Irão
As tensões aumentaram ainda mais quando o jornal israelita Jerusalem Post citou um responsável israelita afirmando que os Emirados Árabes Unidos estariam por trás do ataque à central de dessalinização iraniana.
Caso fosse confirmado, seria o primeiro ataque direto de Abu Dhabi contra o Irão desde o início da guerra. Os desmentidos foram imediatos.
Autoridades dos Emirados afirmaram que a posição do país é “puramente defensiva” e que assim continuará. O conselheiro presidencial Anwar Gargash declarou que Abu Dhabi “não será arrastado para uma escalada”. Posteriormente, o próprio Jerusalem Post citou uma fonte próxima dos Emirados que acusou responsáveis israelitas de espalharem “rumores”.
Choque energético global
Enquanto os países do Golfo tentam evitar uma escalada militar, o impacto económico do conflito já se faz sentir a nível mundial.
Os envios de energia através do Estreito de Ormuz — passagem marítima por onde circula cerca de um quinto do abastecimento global de petróleo — praticamente pararam.
A interrupção desencadeou aquilo que analistas descrevem como o maior choque petrolífero da história recente, provocando uma forte subida dos preços dos combustíveis nos Estados Unidos.
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, tentou explorar politicamente esse impacto. “A responsabilidade pelo aumento dos preços da gasolina, pelas hipotecas mais caras e pelos planos de reforma 401(k) devastados recai diretamente sobre Israel e os seus cúmplices em Washington”, escreveu na rede social X.
Mercado do gás também afetado
O setor do gás natural também foi atingido pela guerra.
Poucos dias após os primeiros ataques iranianos contra países do Golfo, a QatarEnergy — responsável por cerca de 20% da oferta mundial de gás natural liquefeito — suspendeu a produção depois de instalações suas terem sido atingidas. A decisão fez disparar os preços do gás na Europa em quase 50%.
O ministro da Energia do Catar alertou que o preço do petróleo poderá atingir cerca de 150 dólares por barril se o conflito continuar a perturbar as exportações da região.
Economias do Golfo começam a sentir o impacto
Além do impacto energético, a guerra começa também a afetar as estratégias económicas dos países do Golfo.
Segundo um responsável da região citado pela CNN Internacional, alguns governos aliados de Trump estão a reconsiderar investimentos no estrangeiro devido à instabilidade.
A situação surge poucos meses depois de o presidente norte-americano ter celebrado promessas de investimento de vários biliões de dólares provenientes da região como uma grande vitória económica.
Uma guerra que ninguém quer assumir
Apesar da escalada militar, dos ataques na região e do impacto nos mercados globais, os governos do Golfo continuam a mostrar grande relutância em envolver-se diretamente no conflito.
A principal razão é simples: trata-se de uma guerra cujo desenrolar não controlam e cujas consequências poderão ter de gerir durante décadas.
Ainda assim, permanecer à margem também pode ter custos.
“Mesmo assim, há um risco na inação”, alerta Hasan Alhasan. “Durante quanto tempo pode o Golfo ficar parado a absorver ataques? A inação também não é isenta de riscos.”














