Um conjunto de despesas do Pentágono realizado em setembro de 2025, o último mês do ano fiscal americano, está a gerar polémica política nos Estados Unidos. Informações divulgadas pelo ‘El Español’ indicam que o secretário da Defesa americano, Pete Hegseth, autorizou contratos que totalizam cerca de 93 mil milhões de dólares (aproximadamente 85 mil milhões de euros) num único mês, valor que inclui desde compras militares até despesas controversas com tecnologia e alimentação considerada de luxo.
Os dados tornaram-se públicos após a análise de registos federais de contratos realizada por organizações que monitorizam os gastos públicos. Como relata o ‘El Español’, o montante representa um aumento de cerca de 18% face aos níveis registados em 2014, último ano da presidência de Joe Biden.
Grande parte deste volume corresponde ao conjunto de contratos assinados pelo Departamento de Defesa para aquisição de equipamentos militares, manutenção de sistemas, tecnologia e serviços logísticos para as Forças Armadas. No entanto, algumas despesas específicas tornaram-se alvo de críticas depois de circularem nos media e nas redes sociais.
Gastos concentrados no final do ano fiscal
Uma parte significativa dos contratos foi assinada nos últimos dias de setembro, incluindo cerca de 50 mil milhões de dólares (aproximadamente 46 mil milhões de euros) apenas na última semana do orçamento anual.
Este fenómeno está ligado ao funcionamento do sistema orçamental americano. O ano fiscal federal termina a 30 de setembro, o que cria incentivos para que as agências utilizem os fundos ainda disponíveis antes de perderem o acesso a esse dinheiro.
Especialistas em finanças públicas, citados pelo ‘El Español’, explicam que este comportamento é conhecido como “use it or lose it” — gastar o orçamento antes do fim do ano para evitar que os fundos regressem ao Tesouro e sejam reduzidos nos anos seguintes.
Alguns analistas descrevem mesmo este período como uma espécie de “Amazon Prime Day” do Governo federal, quando os organismos públicos aceleram contratos e compras.
Compras de luxo geram críticas
Entre as despesas que mais polémica geraram encontram-se aquisições relacionadas com alimentação. Em setembro foram registadas compras de 15 milhões de dólares (cerca de 13,8 milhões de euros) em bifes, quase 7 milhões de dólares (6,4 milhões de euros) em caudas de lagosta e cerca de 2 milhões de dólares (1,8 milhões de euros) em caranguejo-real do Alasca.
Houve ainda gastos de 124 mil dólares (aproximadamente 114 mil euros) em máquinas de gelado e 139 mil dólares (cerca de 128 mil euros) em donuts.
Apesar de representarem apenas uma pequena parte da despesa alimentar total das forças armadas — que ronda 250 milhões de dólares por mês (cerca de 230 milhões de euros) — estes exemplos foram usados por críticos do orçamento militar para questionar a gestão dos fundos públicos.
Segundo o ‘El Español’, o valor total gasto em alimentos considerados de luxo aproxima-se dos 22 milhões de dólares (cerca de 20 milhões de euros).
Tecnologia, mobiliário e até instrumentos musicais
A polémica não se limita à alimentação. O relatório também aponta gastos relevantes com tecnologia e equipamentos.
Entre as despesas destacam-se 5,9 mil milhões de dólares (aproximadamente 5,4 mil milhões de euros) em tecnologia de informação e telecomunicações. O Departamento de Defesa gastou ainda 5,3 milhões de dólares (cerca de 4,9 milhões de euros) em produtos da Apple, incluindo a compra de 400 novos iPads, avaliados em 315.200 dólares cada (cerca de 290 mil euros).
Outras compras incluem um piano de cauda Steinway de 98.329 dólares (aproximadamente 90 mil euros) para uma residência oficial da Força Aérea e uma flauta personalizada de 21.750 dólares (cerca de 20 mil euros).
Além disso, foram gastos 225,6 milhões de dólares (aproximadamente 207 milhões de euros) em mobiliário para instalações militares.
Críticas políticas e pedidos de investigação
As revelações provocaram fortes críticas de dirigentes democratas. O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, confirmou os valores e acusou Hegseth de desperdiçar dinheiro dos contribuintes.
Citado pelo ‘El Español’, Schumer afirmou que 93 mil milhões de dólares gastos num único mês equivalem aproximadamente ao custo de prolongar durante três anos os créditos fiscais da Lei de Acesso à Saúde (Affordable Care Act).
Nas redes sociais, o senador criticou ainda o facto de o Pentágono ter investido em equipamentos considerados desnecessários e em refeições de luxo enquanto persistem problemas no sistema de saúde.
Também o governador da Califórnia, Gavin Newsom, sugeriu que pode existir fraude ou má gestão financeira por trás do volume de despesas.
Debate sobre reformas no orçamento do Pentágono
O episódio voltou a colocar em discussão o funcionamento do sistema orçamental federal e a gestão do orçamento do Pentágono, que ultrapassa 800 mil milhões de dólares por ano (cerca de 735 mil milhões de euros).
Alguns analistas e instituições defendem mudanças que permitam às agências públicas transferir parte do orçamento não utilizado para o ano seguinte. Entre as propostas está a possibilidade de transportar até 5% dos fundos para o exercício seguinte, reduzindo a pressão para gastar rapidamente antes do final do ano fiscal.
De acordo com o ‘El Español’, especialistas e antigos responsáveis do Departamento de Defesa consideram que esta medida poderia diminuir desperdícios e tornar a gestão financeira mais eficiente dentro das instituições federais.




